5.5.13

Bola para a frente

Por Alberto Gonçalves 
OS CANAIS noticiosos passaram a noite a transmitir o oposto de uma notícia. Com repórteres nas saídas do Estádio da Luz e na rotunda do Marquês de Pombal, perguntou-se centenas de vezes a adeptos benfiquistas se tinham gostado da vitória do Benfica. A expectativa face às respostas fazia tremer o espectador. Além disso, as respostas possuíam enorme importância em si mesmas: nos dias que correm, não me lembro de nada tão essencial para o futuro colectivo quanto um clube da bola eliminar uns turcos e atingir a final de um torneio europeu. Aliás, houve um inquiridor ou um inquirido que ressalvou exactamente o facto de o triunfo no campo compensar o que sucede fora dele. Isto é, perante a crise, valem-nos as alegrias do futebol.
É um raciocínio possível. E, principalmente, uma solução viável. Em lugar de tentarmos, pelos vistos em vão, controlar o défice, estancar o desemprego e, em suma, salvar a pátria, basta que o Estado invista tudo na produção de equipas imbatíveis, capazes de monopolizar as conquistas de torneios internacionais e manter uma população falida sob euforia permanente. Afinal, que interessa o T2 por pagar se o emblema do nosso coração só nos dá felicidade? E que interessariam o aumento de impostos, a redução dos subsídios e o carácter irreformável da máquina pública se o Benfica e o Porto e o Sporting e o Braga e o Sacavenense humilhassem adversários estrangeiros semana sim, semana não? 
Quando se diz que o povo não aguenta mais sacrifícios, subestima-se o povo. Após o desafio com o Fenerbahçe (?), um cartaz empunhado por devotos rezava: "Benfica, se jogasses no céu morreria para te ver". Sacrifícios? Ai aguenta, aguenta, incluindo o último. E o penúltimo, que é ouvir o treinador dos populares "encarnados", hoje elevado a alturas celestiais, proferir a já imortal frase: "Fomos uma equipa que éramos melhores." Portugal também foi um país que éramos fantásticos. Foi. Éramos. A exactidão linguística é, como a bola, fundamental. 
«DN» de 5 Mai 13 (parte)

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14.4.13

Fascismo/antifascismo

Por Alberto Gonçalves
NOS CAMPOS da internet onde apascenta a extrema-esquerda, reina a felicidade graças à morte de Margaret Thatcher, vulgo "a fascista". A aplicação do epíteto, em Portugal de resto muito desprendida, é elucidativa do tipo de estrutura mental que o aplica. A sra. Thatcher venceu três eleições populares? Fascismo. A sra. Thatcher desembaraçou o Reino Unido do jugo sindical que a generalidade da população não elegera? Fascismo. A sra. Thatcher encolheu o peso do Estado em prol da escolha individual? Fascismo. A sra. Thatcher modernizou económica e socialmente o Reino Unido? Fascismo. A sra. Thatcher venceu nas Falkland uma guerra iniciada por uma ditadura decidida a vergar a autodeterminação da comunidade local? Fascismo. A sra. Thatcher ajudou a derrubar os totalitarismos do Leste europeu? Fascismo, fascismo, fascismo. 
Se bem percebo, um governante "fascista" é aquele que favorece a democracia, promove a liberdade, desampara a vida dos cidadãos e, se possível, combate regimes fascistas a sério. Em contrapartida, um líder "antifascista" que se preze desrespeita eleições, professa a submissão dos cidadãos, arrasa a economia e, se adicionar uns pozinhos de culto da personalidade e o adequado castigo dos dissidentes, parece-se imenso com um fascista de facto. Ou a extrema-esquerda é ainda mais tresloucada do que aparenta ou a ciência política anda redondamente enganada há largas décadas. Por mim, aposto na segunda hipótese. 
«DN» de 14 Abr 13  (parte)

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17.3.13

O Estado Velho

Por Alberto Gonçalves  
VÍTOR GASPAR sofreu um "grande desapontamento" perante a subida do desemprego. Eu sofri um enorme desapontamento perante um ministro das Finanças que, após sufocar as pessoas e as empresas com impostos, ainda vai a tempo de se espantar com a derrocada geral. À semelhança dos que contrapõem ao saque dos privados o aumento da despesa pública, o dr. Gaspar acredita em milagres, e de facto só um milagre dos antigos permitiria resgatar a economia através de políticas destinadas à preservação do Estado. Grosso modo, seria idêntico a curar uma enxaqueca com pancadas sucessivas no cocuruto. Se calhar, já aconteceu. Mas não é provável que volte a acontecer.O que garantidamente acontecerá, pelo menos enquanto o Governo guardar o liberalismo para a retórica, disseminar o socialismo na prática e desperdiçar uma raríssima oportunidade de reformar os vícios caseiros, é mais do mesmo. Mais previsões falhadas, mais preces à troika, mais austeridade, mais falências, mais postos de trabalho extintos, mais "Grândolas", mais desapontamentos e mais suspeitas de que assim não só não vamos longe como nem sequer temos para onde ir. 
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico
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«DN» de 17 Mar 13 (parte)

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24.2.13

A procuradora Cândida

Por Alberto Gonçalves
PARA que serviu a excelentíssima senhora procuradora Cândida Almeida, agora enxotada das funções no DCIAP? Para, entre outras coisas bonitas, chefiar a investigação a uma série de casos duvidosos ligados à política e à finança, do Freeport aos submarinos, do Monte Branco às Parcerias Público-Privadas, e, no fim, concluir jovialmente que "os nossos políticos não são políticos corruptos, os nossos dirigentes não são dirigentes corruptos, Portugal não é um país corrupto".
Cândida, de facto. O Índice de Percepção da Corrupção, elaborado pela Transparência Internacional (TI), coloca-nos em 33.º lugar na matéria em 2012, três degraus acima do lugar de 2011 mas, ainda assim, nos fundilhos do Ocidente. Salvo pelo último ano, Portugal mostra uma tendência longa e inabalável para se afundar na tabela, onde por exemplo em 2006 ocupava o 26.º posto. De resto, mesmo sem a ajuda de instituições externas, o cidadão médio é capaz de concluir sem dificuldades que os negócios caseiros assentam mais na impunidade do que na honestidade. Ou o cidadão médio é idiota e a TI trapaceira ou a excelentíssima senhora procuradora não procurou bem.
«DN» de 24 Fev 13 (parte)

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3.2.13

Uma causa fracturante

Por Alberto Gonçalves 
NÃO PERCEBO os argumentos dos que acham excessivo o número de deputados. Se a quantidade de parlamentares fosse inferior à actual, talvez não estivessem na Assembleia da República os representantes do PSD e do CDS que em boa hora se lembraram de propor ao Governo o regresso à RTP do programa "TV Rural", em tempos a cargo do eng. Sousa Veloso. 
O problema é que, embora muitíssimo pertinente, a ideia era previsivelmente polémica, e uma série televisiva na qual o apresentador ciranda por feiras de enchidos, bovinos charoleses, pragas de míldio, estufas, pomares e fábricas de adubo acabaria por fazer emergir clivagens ideológicas profundas e dividir o proverbial hemiciclo. Em consequência, os deputados da maioria votaram a favor da sugestão, os deputados da extrema-esquerda votaram contra e o PS, sempre plural, dividiu-se entre a discórdia e a abstenção. Os "ultraliberais" preocupam-se com o míldio, os antiliberais não querem saber do míldio para nada. E isto é apenas o começo: não custa adivinhar que, quando na próxima semana a AR discutir o regresso do "Topo Gigio" ao indispensável serviço público, as bancadas verterão sangue. 
«DN» de 3 Fev 13 (3ª parte)

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20.1.13

Quatro por cento

Por Alberto Gonçalves
SEGUNDO um estudo da seguradora Zurich, 96% dos portugueses não acreditam nos políticos. Como agora é habitual, estes dados foram apresentados com preocupação e imputados à austeridade. Basta espreitar um noticiário televisivo ou folhear um jornal para perceber que, no caldo ideológico vigente, a austeridade está na origem de todos os fenómenos ocorridos no país, desde os suicídios ao abandono de cães, passando pelos assaltos à mão armada e a decadência do Sporting.
Fora das alucinações em voga, a notícia merece aplausos. Descrer da classe política não é, ao contrário do que a própria classe gosta de sugerir, meio caminho andado para o advento de uma ditadura, mas o primeiro passo para a consolidação de uma sociedade livre. As ditaduras erguem-se sobre a adesão excessiva aos "salvadores" nascidos justamente da veneração e da fé cegas. Numa democracia autêntica, criatura nenhuma depositaria nos políticos mais confiança do que a estritamente indispensável. Os políticos são um mal necessário, que se tolera com a resignação dedicada a uma gripe em Fevereiro. É óptimo que os portugueses suspeitem dos políticos. É trágico que, provavelmente, isso seja mentira.
Uma coisa é resmungar em inquéritos contra os senhores que mandam. Outra é supôr que os resmungos traduzem a capacidade de compreender que os senhores que mandam, quaisquer que sejam, constituem o problema e não a solução. Infelizmente, palpita-me que as pessoas não criticam o poder porque o poder é por definição criticável. Criticam-no porque não recebem dele tudo o que desejam. O poder, em suma, não satisfaz as expectativas, e a mera existência de expectativas, no sentido em que os de "baixo" delegam aos de "cima" a orientação das suas vidas, é flagrante sinal de atraso.
Entre parêntesis, note-se os extraordinários 4% de indivíduos que, íntima e publicamente, proclamam acreditar nos políticos. Antes de nos espantarmos com tamanha demonstração de primitivismo, convém somar os eleitos para cargos nacionais e locais, os adjuntos, os assessores, os secretários, os motoristas, os compinchas, os parceiros de negócios e todos os que sonham atingir um dos postos anteriores. O número parece plausível. 
«DN» de 20 Jan 13 (1.ª parte)

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25.11.12

Branca de Neve procura emprego

Por Alberto Gonçalves
É PROVÁVEL que uma hipotética saída da União Europeia agravasse ainda mais a nossa situação económica. Mas talvez melhorasse a nossa saúde mental. No meio de uma crise que coloca a sua própria existência em risco, o Parlamento Europeu dedica-se a demonstrar que não se perderia muito: não satisfeito por possuir uma absurda Comissão dos Direitos da Mulher e Igualdade dos Géneros, o PE permite que a dita comissão se alivie de palpites acerca de matérias que sempre os dispensaram.
Até agora, essa destravada fraternidade tentava interferir no mundo real e entretinha-se a propor quotas em empresas e delírios assim. Agora, soube por Helena Matos (blasfemias.net), a referida Comissão avança para o mundo da ficção e quer abolir das escolas ou no mínimo temperar a influência das obras literárias infanto-juvenis que atribuem papéis "tradicionais" aos elementos masculinos e femininos da família. Livrinho em que o pai saia para o trabalho e a mãe fique a cuidar da prole irá, se a coisa vingar, directamente rumo ao index dos eurodeputados.
O index será vasto. Não estou a ver nenhum clássico da literatura do género em que a personagem do marido passe os dias a mudar fraldas e a da esposa assuma um lugar de relevo na sociedade. Mesmo na "Branca de Neve", que está longe de representar um agregado familiar retrógrado (conheço pouquíssimas senhoras que coabitem em simultâneo com sete cavalheiros, para cúmulo de estatura alternativa), a verdade é que a heroína trata das arrumações caseiras enquanto os seus sete parceiros labutam nas minas. E quanto a Huckleberry Finn, criado na ausência da mãe e na presença de um pai alcoólico, erradica-se ou não? E os órfãos de Dickens? E, uns degraus abaixo, os pobres sobrinhos sem tia da Disney? Além disso, a Comissão dos Direitos da Mulher e Etc. é omissa no que toca às fábulas. Se, por exemplo, é indesmentível que, ao invés da cigarra, a formiga trabalha como uma desgraçada, nem Esopo nem La Fontaine sugerem que a dita seja fêmea e unida pelo matrimónio a um formigo que colabora nas tarefas do lar e respeita o "espaço" da companheira. Que obras, em suma, corresponderão aos requisitos de igualdade? Há uma imensidão de dúvidas.
Por sorte, há um PE recheado de certezas, que reivindica à Comissão Europeia legislação capaz de regulamentar (um verbo predilecto) o equilíbrio conjugal nas histórias para petizes - no papel e também no cinema, na televisão, na publicidade e onde calhar. O argumento (digamos) é o de que os "estereótipos negativos de género" minam a "confiança" e a "auto-estima" das jovens, limitando as suas "aspirações, escolhas e possibilidades para futuras possibilidades [a repetição não é gralha] de carreira". Quem fala assim não é gago: é semianalfabeto na medida em que escreve com os pés, arrogante na medida em que submete a liberdade criativa à engenharia social e um bocadinho maluco na medida em que confunde a fantasia com o quotidiano.
Não tenho opinião sobre os modelos imaginários que devem orientar as criancinhas. Em compensação, parecem-me evidentes os modelos palpáveis de que as criancinhas devem ser protegidas a todo o custo - a menos, claro, que os pais lhes desejem um emprego em Bruxelas, a incomodar o próximo para entreter o ócio e realizar uma vocação. 
«DN» de 25 Nov 12 (1ª parte)

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5.8.12

As fundações da nacionalidade

Por Alberto Gonçalves 
UM RELATÓRIO sobre as fundações que por aí vicejam apurou um gasto estatal com as ditas de mil e quinhentos milhões nos últimos três anos. (...) Infelizmente, os senhores que nos tutelam não prometem o bom senso de entender que as fundações (falo das privadas; as públicas são uma redundância óbvia) só merecem o nome quando servem o meio envolvente e não quando se servem dele. Fundações sem rendimentos para mandar cantar um cego nem património que permita ao cego um gabinete decente não são exactamente fundações: são esquemas destinados a subtrair verbas ao Estado, consolar amigos, arrebanhar poder e catar o típico gabarito. 
Se um antigo presidente da República necessita de recorrer ao dinheiro alheio, o indivíduo não devia ter criado uma "fundação", mas um peditório à escala nacional ou um crédito bancário. Se o chefe de um governo regional usa a fundação social lá do sítio para comprar a casa onde o mesmo chefe viveu até aos 30 anos, é lícito supor que uma imobiliária teria maior vocação para o negócio. Se um escritor editado e vendido no mundo inteiro é obrigado a pedir abrigo à Câmara de Lisboa, convinha que os herdeiros do escritor pedissem contas ao contabilista. Se uma empresa de computadores embolsa 454 milhões para produzir uma geringonça inviável no mercado livre, constata-se que os empresários em causa escolheram a profissão errada. 
Sobretudo, constata-se que os contribuintes portugueses escolheram o país errado, na medida em que aqui se limitam a fazer jus ao nome e contribuir em prol do que outros decretaram ser o "bem comum". O comum é o bem de uns poucos acabar patrocinado pelos restantes. Nas fundações e em tudo, é assim que Portugal forma elites, que o dicionário define como os melhores de uma sociedade e que por cá não são apenas os que melhor vivem à respectiva custa. Nesta abençoada democracia, cada conceito beneficia de uma interpretação muito própria, "democracia" incluído. 
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico
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Extracto da crónica «Momentos de Glória», publicada no «DN» de 5 Ago 12

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25.6.12

Todos, todos, todos por onze

Por Alberto Gonçalves
(...) EM QUALQUER dos casos, alguém devia explicar ao sr. Paulo Bento que os compatriotas dele são livres de apoiar a selecção portuguesa, a selecção checa ou a selecção das ilhas Faroé. Para espanto do sr. Paulo Bento, os portugueses são até livres de criticar a selecção portuguesa, de não apoiar selecção nenhuma, de querer que o campeonato da Europa em futebol se lixe e, pasme-se, de nem saber que decorre um campeonato da Europa em futebol. É verdade que o clima de histeria geral torna a última hipótese quase impossível, mas transformar as restantes hipóteses numa blasfémia ou num acto de traição é um nadinha excessivo. Sem grandes esperanças de que o consigam, convinha que os senhores da bola aprendessem o seguinte: na exacta medida em que não estão obrigados a apaixonar-se por repartições das Finanças, juntas de freguesia ou a embaixada em Camberra, os cidadãos não estão obrigados à vassalagem da selecção.
Em contrapartida, e a menos que a Federação do ramo abdique do absurdo estatuto de utilidade pública (?) de que dispõe, a selecção está obrigada a respeitar os cidadãos, quer estes entrem em combustão instantânea depois de um golo de Cristiano Ronaldo, quer dediquem a Cristiano Ronaldo a maior das indiferenças. Curiosamente, ou nem por isso, a selecção que se julga de todos os portugueses obriga os portugueses todos a aturar os estados de alma dos seus protagonistas, os quais, a fim de acentuar a birra, decretaram um blackout ("apagão" em inglês; voto de silêncio em futebolês). E se Deus Nosso Senhor é testemunha de que agradeço a mudez da rapaziada, o bom senso agradeceria ainda mais que uma entidade responsável, se milagrosamente existisse, mandasse levantar semelhante circo. (...)
«DN» de 24 Jun 12
Texto integral [aqui]

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2.3.08

Milagres em cadeia

Por Alberto Gonçalves
O dr. Alberto Costa não explicou porque é que a adesão nula a uma iniciativa declarada indispensável constitui uma boa notícia.
EM OUTUBRO DE 2007, o ministro da Justiça apresentou o programa experimental de troca de seringas nas prisões como "uma medida de saúde pública". Não era para menos. Segundo as contas do dr. Alberto Costa, 30% da população prisional (ou seja, cerca de quatro mil pessoas) sofria de doenças infecto-contagiosas e, presumiu-se, importava preservar as restantes oito mil de igual sorte. Além disso, adiantou o governante, os seis mil felizardos libertados a cada ano não seriam tão felizardos assim, já que, por obrigação estatística, 30 por cento também padeceriam de sida e maleitas menores, que arriscavam disseminar pelos dez milhões que vivem do lado de cá das grades.
Em Fevereiro de 2008, apurou-se que, dos 1500 detidos em Lisboa e Paços de Ferreira abrangidos pela troca de seringas, o número total de aderentes ao programa foi zero. Zero. Ouvi na TSF os jornalistas informarem o dr. Alberto Costa acerca do zero. Imaginei o homem a imaginar um contágio à escala nacional de imparáveis vírus e temi o pior: que ele tivesse uma apoplexia, que desatasse a chorar, que saísse a correr e aos gritos, até que (em desespero) se demitisse. Em vez disso, voltou-se para os microfones e respondeu: "É uma boa notícia."
O dr. Alberto Costa, que é ministro e por definição será conhecedor do que escapa à ralé, não explicou porque é que a adesão nula a uma iniciativa declarada indispensável constitui uma boa notícia. Pelo que é legítimo especularmos. Se calhar, descobriu-se que, ao invés do que se julgava, nenhum preso está ou esteve doente. Ou então obteve-se, em recato, a cura milagrosa de todos. Ou deixaram de consumir drogas. Ou faleceram entretanto. Ou constatou-se que as seringas afinal não transmitem doenças. Ou decidiu-se contagiar os presidiários a título de penalização indirecta. Ou gastou-se o orçamento das seringas em propaganda e apenas sobrou dinheiro para três kits completos e dois pouco usados. Ou a fulgurante necessidade da medida, à semelhança do que sucede com tantas outras, esgotou-se no exacto e pomposo momento do respectivo anúncio, o dr. Alberto Costa já nem se recordava de tamanho delírio e, confrontado agora pelos jornalistas, disse o que lhe veio à cabeça.
A última hipótese é, evidentemente, absurda. Eu aposto na cura milagrosa.
«Dias Contados» (I) - «DN» de 2 Mar 08 - c.a.a.

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30.9.07

TROCA DE BALAS

Por Alberto Gonçalves
PARA COMBATER O SONO INDUZIDO pela lengalenga oficial sobre a matéria, vale a pena seguir a (adiada) troca de seringas nas prisões com um livro à mão. O livro chama-se Junk Medicine: Doctors, Lies and the Addiction Bureaucracy. O autor é Theodore Dalrymple, pseudónimo do psiquiatra inglês Anthony Daniels, colunista da revista Spectator e médico (reformado) de uma prisão em Birmingham.
A tese de Dalrymple é simples: a convenção de que o uso de narcóticos é uma doença serve apenas para desresponsabilizar os sujeitos que os consomem e empregar os sujeitos que, alegadamente, tratam o problema. Na longa experiência de Dalrymple, nem o drogado é um doente nem as drogas ditas duras fomentam uma dependência impossível de interromper sem ajuda externa. O "vício" é, acima de tudo, deliberado: é iniciado de livre vontade (ao invés da pneumonia) e pode ser abandonado de livre vontade (ao invés da pneumonia), com desconforto mas longe do tormento físico popularmente difundido. Dalrymple não nega as consequências clínicas do hábito (hepatite, Sida, tuberculose), nega que as consequências façam do hábito uma doença (o montanhismo não é uma doença embora os montanhistas sofram queimaduras do frio). E garante que prevenir os efeitos de um acto deliberado é estimular a repetição do acto. Ou seja: nada de seringas ou injecção "assistida".
Se por milagre o lessem, "Junk Medicine" seria uma fonte de irritação permanente para hordas de médicos, psicólogos, sociólogos, assistentes sociais e funcionários afins. Para mim, foi um prazer, excitante até na discórdia. Para mencionar um pormenor, a ideia (ideia de Dalrymple) de que, em vez de predispor ao crime, a droga é reflexo de uma espécie de "vocação criminosa", logo punível, não me convenceu inteiramente. Não acho que cidadãos maiores e vacinados (aliás frequentemente, e com diversas substâncias) devam ser detidos à conta dos extremos testes a que submetem as entranhas. Porém, é polémico que se gastem fortunas a salvá-los deles próprios. Polémico e ocasionalmente ridículo: no que respeita às seringas nas prisões, o Estado estará, no limite, a fornecer ao heroinómano os meios para que continue a cometer o crime pelo qual foi condenado. Rezo para que o paternalismo não alargue o método aos homicidas.
«DN» de 30 de Setembro de 2007-[PH]

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24.9.07

UM NUNES EM CADA ESQUINA

Por Alberto Gonçalves
O MINISTRO DA ECONOMIA visitou as instalações da ASAE, para alegria do dr. António Nunes, presidente da estimada associação. Entre louvores e vénias, o dr. Nunes aproveitou para confessar ao ministro uma única carência: nem todos os seus agentes possuem computador portátil (para que serve o Governo, afinal?). Fora a lacuna informática, tudo está bem com a ASAE, obrigado. Radiante, o dr. Nunes declarou que, neste ano e tanto de existência, a entidade ultrapassou os seus objectivos. Um observador distraído imaginará que também ultrapassou as competências.
Desgraçadamente, nem por isso. É um facto que a ASAE, mais que de computadores portáteis, carece de arbítrio moral, a capacidade de distinguir o admissível do atroz. Se é difícil contestar o encerramento de um restaurante a dar para o imundo, é dificílimo entender que as favas, a cabidela, os enchidos caseiros e a fruta sem marca registada sejam incluídas no conceito tradicional de imundície, excepto para as transtornadas criaturas que, em Bruxelas ou Lisboa, viabilizaram semelhantes leis e para a ASAE, que as aplica com notável zelo. Passe o exagero da comparação, os senhores da ASAE evocam os mais disciplinados funcionários dos totalitarismos: quando interrogados, respondem de imediato que se limitam a cumprir ordens.
É triste que o façam, ainda por cima com indisfarçável gozo. Mas bastante mais triste é a época que paga para que eles gozem. Abominar a ASAE por si só implica ignorar aquilo que, para lá da legislação, realmente fundamenta e legitima os seus excessos. Na vocação para a vigilância, na supressão do bom senso em favor da rigidez da norma, no prazer em contrariar o prazer alheio, a ASAE explica muito do que somos. O dr. Nunes pode ser encontrado em qualquer esquina, metafórica e, a julgar pela quantidade de "acções" que promove, literalmente.
«DN» de 23 de Setembro de 2007-[PH]

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28.7.07

A propósito de Simpsons, aqui fica uma sugestão: não percam o filme que acabou de estrear; a ver com atenção e eventualmente mais do que uma vez - pois está cheio de pequenos gags que podem passar despercebidos e de referências (homenagens, como se lhes costuma chamar) a muitos filmes famosos. No que toca a estes, nem sequer escapa o «Uma Verdade Inconveniente» (a cena em que Al Gore se mete num ascensor para melhor dramatizar a subida da percentagem de CO2 na atmosfera): o elevador em que Lisa se mete começa por encravar, depois disparata, desata a subir até desaparecer, e por fim desaba no palco...

CMR

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'BART, GOZA COM QUEM É DIFERENTE DE TI'

Por Alberto Gonçalves

É como as pessoas. A comédia televisiva americana atingiu a maioridade quando abandonou a doutrinação política. As séries de maior sucesso nos anos 60, 70 e 80, de Uma Família às Direitas a M.A.S.H., passando por Quem Sai aos Seus, eram abertamente liberais (ao modo da esquerda dos EUA). Hoje, são dificilmente suportáveis. À entrada da década de 90, os herdeiros do humor "descomprometido" de David Letterman criaram as melhores sitcoms conhecidas: o genial niilismo de Seinfeld e The Simpsons.

Ao invés de Seinfeld, os Simpsons não são apolíticos. Apenas não se percebe que tipo de políticos são. Sem particular originalidade, o vulgo considera-os uma "denúncia" da classe média americana. Mas numerosos ensaios (entre os quais o famoso Homer Never Nods, de Jonah Goldberg) tentam recrutá-los para o conservadorismo, e evidenciar a observância, ainda que subtil, dos valores familiares, patrióticos e até religiosos. Atendendo a que o seu principal argumentista é John Swartzwelder, libertário, antiambientalista, defensor do direito de posse de arma e, de acordo com os padrões em curso, um reaccionário, a hipótese não é absurda. É só desnecessária: farejar orientação ideológica na vertigem iconoclasta dos Simpsons é perder boa parte da piada, verificável em 400 episódios e, escusado lembrar, no filme que agora estreou. A graça dos dogmas é sempre inadvertida.

«DIAS CONTADOS» - «DN» de 29 de Julho de 2007 - [PH]

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25.7.07

Woody Sócrates

Muito se tem falado, ultimamente, do facto de o Governo ter pago 30 euros a cada criancinha para fazer de figurante numa sessão de apresentação do Plano Tecnológico - tal como, dias antes, alguém pagara excursões a cidadãos de Teixoso, Cabeceiras de Basto e Alandroal para virem a Lisboa festejar a vitória de António Costa.
Ambas as rábulas me fazem lembrar uma famosa cena do filme «O Inimigo Público», em que Woody Allen nos revela que teve uma infância tão infeliz, que a mãe até tinha de pagar aos miúdos lá da rua para brincarem com ele...
CMR
-oOo-
SIMS, SR. PRIMEIRO-MINISTRO

Por Alberto Gonçalves

PARA ELEVAR PORTUGAL ao topo da modernização das escolas e suscitar a inveja da Terra, o Governo lançou o Plano Tecnológico para a Educação. A nova maravilha, que envergonha o Taj Mahal, custa 400 milhões de euros e, nos pormenores, visa aplicar às criancinhas os métodos de controlo paternal que o Governo tem disseminado entre os adultos: cartões electrónicos, câmaras de vigilância, etc.
O fundamento do projecto, porém, reside na informatização das salas de aula, que não têm aquecedores mas terão computadores e um "quadro interactivo". Estas duas miraculosas conquistas da ciência permitem que os petizes façam um exame sem recorrer à expressão escrita ou oral, de resto em desuso: basta carregarem num botão e as respostas surgem no tal ecrã digital.
E serão as respostas correctas? Após densa investigação, os peritos do ministério da Educação descobriram que o velho quadro de ardósia, os cadernos, os lápis e os afias são parcialmente responsáveis pela miséria do sistema escolar. Sucede que os alunos também não ajudam, e convinha trocá-los uma alternativa qualquer. Na apresentação do referido Plano, o eng. Sócrates deu o exemplo, ao dirigir-se a uma turma de figurantes contratados por uma firma de casting para substituir os tradicionais, e anacrónicos, discentes.
É um pequeno avanço. Não é o progresso desejado. Mesmo ensaiados, os figurantes ainda são de carne e osso, logo permeáveis a lapsos, como o de revelar às televisões que estavam ali a pretexto de um telefonema da agência e de 30 euros. Mediante um investimento adicional, é forçoso aproveitar o frenesim tecnológico e alargar a informatização das escolas a tudo o que nelas se mova.
«DIAS CONTADOS» - «DN» de 29 de Julho de 2007 - [PH]

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12.7.07

DIAS CONTADOS

Vale que as camisolas não são cor-de-rosa
Por Alberto Gonçalves
SINCERAMENTE, não me aflige que uns brasileiros e argentinos do Futebol Clube do Porto tenham obtido o visto de trabalho mediante fraude. Aliás, nem percebo o recurso a ilicitudes se os jogadores em causa vieram para Portugal exercer a profissão, com contrato assinado e etc. O único escândalo da história é o facto de os funcionários do SEF alegadamente envolvidos na tramóia se venderem por, e cito, camisolas dos futebolistas e bilhetes para os jogos.
E um par de peúgas, ninguém lhes ofereceu? Não conheço o salário dos assalariados do SEF, mas julgo que será o bastante para poderem abdicar de uma T-shirt pindérica a título de suborno. É verdade que certa ocasião, na fronteira marroquina, "comprei" um guarda implicativo com uma caneta de plástico, e talvez uma Parker de dez euros me rendesse a eterna reverência de toda a polícia local. Sucede que, até prova em contrário, Portugal não é Marrocos. O país que ocupa a presidência da UE podia, no mínimo, dar uma espécie de exemplo.
Em vez de anunciar planos grandiosos e impraticáveis para eliminar a corrupção na administração pública, o Governo faria melhor em nivelá-la por padrões civilizados. Em países desenvolvidos, os "favores" pagam-se com automóveis de gama média, férias nos trópicos ou, se os corrompidos andam realmente precisados de roupa, dois fatos de bom corte. Cometer ilegalidades por menos que isto é afirmar, mesmo que indirectamente, a nossa miséria. Em última instância, constitui um enxovalho ao Estado e, consequentemente, uma ofensa ao Governo, pelo que os seus perpetradores deveriam ser alvo imediato da já clássica série: denúncia, suspensão, inquérito e exoneração. Aceitar camisolas de licra em troca de falcatruas é uma anedota tão intolerável quanto as que correm sobre o primeiro-ministro. E quase tão engraçada.
«DN» de 8 de Julho de 2007 - [PH]

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7.7.07

DIAS CONTADOS

E CML, o que é?
Por Alberto Gonçalves
O DESERTO NA CAMPANHA LISBOETA rivaliza com a margem sul do Tejo: bicicletas, demagogia, lugares-comuns, o "Zé" de Zorro, a União Nacional do dr. Costa, Helena Roseta a fingir de ceguinha e Telmo Correia a limpar paredes sob o olhar paternal de Paulo Portas. Até agora, só me entusiasmei quando Fernando Negrão propôs a "demolição rápida" dos edifícios de Chelas onde decorre o filme "Zona J". Com inteira propriedade: segundo a comitiva que acompanhava o dr. Negrão, o filme "é que deu má fama ao bairro".
Não admira. As fitas portuguesas são tão insuportáveis que dão péssima e irremediável fama a todos os lugares que lhes servem de cenário. A "Zona J" é apenas um caso. Quem consegue entrar naqueles magníficos solares do Douro e não evocar, com um arrepio, os desumanos aborrecimentos que Manoel de Oliveira ali filmou? Siga-se o exemplo do dr. Negrão e arrase-se os solares. Os solares e os monumentos, moradias, ruas, aldeias e campanários que tiveram o azar de captar a atenção dos nossos cineastas.
Infelizmente, é de admitir que o IPPAR se oponha a este vendaval de demolições. Felizmente, o dr. Negrão também já sugeriu a extinção do IPPAR. Depois, diga-se, confessou que era engano, e que tem um problema com siglas. É certamente o menor dos seus problemas.
«DN» de 1 de Julho de 2007 - [PH]

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6.7.07

DIAS CONTADOS

O preço da decisão
Por Alberto Gonçalves
A BENEFÍCIO DA CANDIDATURA de António Costa e da popularidade do eng. Sócrates, o Governo adiou por seis meses a confirmação da Ota. Perante a dádiva, a oposição entrou em delírio, não sei se por convicção nos súbitos méritos da alternativa Alcochete ou por saudades de uma boa pândega.
No meio dos bizarros festejos, o dr. Campos e Cunha ressuscitou para defender a combinação da Portela com um novo, e menor, aeroporto. A hipótese, que o Governo obviamente nem coloca, parece sensata. Porém, como nesta matéria ninguém evita um toque de excentricidade, o antigo ministro de Sócrates acrescentou logo que é preciso decidir até ao fim do ano, pois "começa a ser um pouco embaraçosa, até em termos internacionais, a incapacidade do país para tomar decisões".
Os "termos internacionais" são um conceito vago. Talvez o dr. Campos e Cunha tenha informações seguras de que nas ruas de Paris e de Chicago os avanços e recuos da Ota suscitem farta galhofa. Ou de que nos corredores das altas instâncias, da ONU e da NATO à UE e à FIFA, circula uma quantidade de anedotas alusivas sem paralelo na própria DREN.
De qualquer modo, eis um excelente motivo para nos despacharmos. Por interessantes que sejam as reflexões acerca dos solos, dos ventos, do relevo, dos acessos e, não esquecer, das verbas, tais minudências perdem importância quando comparadas com o que de facto conta: a imagem do país no estrangeiro. E se o estrangeiro nos dá seis meses para escolher a localização do aeroporto, convinha ultrapassar polémicas e chegar depressa a um consenso. Vital é não ficarmos mal lá fora.
E não se vê razão para nos limitarmos ao ramo aeronáutico. Podíamos adiantar serviço e poupar embaraços futuros, decidindo em quinze dias tudo o que houver para decidir nos próximos anos. A regionalização? Ouça-se o povo, mas decida-se. O casamento de "gays"? Ouça-se o povo, os noivos, a Opus Gay e a Opus Dei, mas decida-se. A legalização da bestialidade sexual? Ouça-se o povo, os perpetradores, os veterinários e os animais, mas decida-se. Uma candidatura às Olimpíadas de 2044? Ouça-se o povo, os fundistas do Sporting e decrete-se a construção de dezasseis novos estádios, mas, pelo amor de Deus, decida-se: os olhos dos outros estão postos em nós.
Não falha: o atávico pavor do ridículo leva os portugueses a um ridículo maior. Estranhamente, esse não os embaraça. Nem em termos internacionais, nem, o que nos sai mais caro, em termos nacionais.
«DN» de 17 de Junho de 2007 - [PH]

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