Etiquetas: autor convidado, Rodrigo
21.6.20
4.5.20
16.3.20
Entretanto...
.
Já tinha saudades do Rodrigo de Matos, cartunista do "Expresso", e que é "autor convidado" do Sorumbático.
A imagem de baixo é tirada de um vídeo, feito ontem, e que mostra a Marina de Lagos — sem mais comentários
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7.9.19
Contra a maioria absoluta
Por Carlos Fiolhais
Assistimos a uma disputa política com poucas novidades. São os mesmos a fazer o mesmo da mesma maneira. Cada vez menos gente acredita nos mesmos, tal como revela a crescente abstenção. Nas legislativas de 1975 foi de 8,5%, nas de 2015, foi de 44,1%, a mais alta de sempre. Nas europeias é diferente, mas nas últimas a abstenção foi de 69,3%! Existe o risco de uma maioria absoluta formada pelas pessoas que não querem saber. Esse absentismo é particularmente notório entre os jovens.
As pessoas não querem saber, porque não se revêem nos maiores partidos. Que estes funcionam em circuito fechado é bem nítido no modo como foram escolhidos os candidatos a deputados. No PS António Costa quer, pode e manda, fazendo escolhas que o partido aceita sem pestanejar, até porque o PS não passa actualmente de uma máquina de poder que distribui benesses e mordomias. No PSD Rui Rio quer, mas não pode nem manda. A luta que os carreiristas “laranjas” lhe movem deve-se precisamente à ânsia de manutenção das suas regalias.
Os eleitores não têm verdadeiramente escolha, pois encontram escolhas já feitas. Eu, por exemplo, recuso-me a escolher em Coimbra entre Marta Temido, a ministra da Saúde que assiste impávida ao descalabro do Sistema Nacional de Saúde, e Mónica Quintela, a advogada que se tornou mediática por defender um afamado criminoso. As duas podem ter ligação a Coimbra, mas nenhuma delas tem defendido a região: a primeira não tem sido capaz de decidir construir uma nova maternidade e à segunda não se conhece uma opinião sobre os graves problemas locais. Que escolha pode fazer um jovem em Coimbra? Como pode ele inuenciar o futuro de um sítio onde tem tão pouco futuro devido à manifesta centralização do país?
Era preciso uma reforma do sistema político, algo de que os partidos fogem como o diabo da cruz. Henrique Neto, que foi do PS muitos anos (saiu em 2017), descreve muito bem a circularidade do sistema, em artigo no Diário de Coimbra de 2/Setembro: “O secretário-geral escolhe os dirigentes das federações, os autarcas e os deputados da sua cor e estes elegem e protegem o secretário-geral.” Num quadro como este não admira que a corrupção e o nepotismo cresçam e, por isso, os cidadãos se alheiem. Neto dá um exemplo: “Que o próprio presidente do PS tenha toda a família e alguns amigos com empregos no Estado dá-nos uma ideia do sucesso partidário do modelo eleitoral.” Costa é um resultado perfeito do actual sistema, no qual ingressou em pequenino, e a última coisa que quer é mudá-lo. Desdenha da maioria absoluta, mas quer evidentemente comprá-la: basta ler Maquiavel para saber que o Príncipe anseia pelo poder absoluto. Por outro lado, Rio tem algumas ideias sobre a reforma do sistema político, no sentido de aproximar eleitos e eleitores, e merece crédito por isso: propõe alterar a forma de eleição dos deputados, limitar os mandatos e reduzir o número de deputados, para além de promover a ética na política. Mas está cheio de contradições e, apunhalado pelos mais próximos, não terá grande sorte. Pode não acreditar em sondagens, mas que las hay las hay.
A campanha eleitoral vai ser, está a ser, mais do mesmo. Ruído e pouca pedagogia. Não mobiliza ninguém, porque já ninguém acredita nos políticos prossionais. A “geringonça” que tem sido responsável pela governação apresenta-se completamente desengonçada. O que os partidos da “geringonça” dizem uns dos outros mostra como estão fora dos gonzos. Se querem continuar a governar, deviam estar unidos no essencial e não estão. Tacticista como é, Costa encontrará uma solução qualquer, nem que tenha de criar um serviço nacional de saúde para cães e gatos.
Merecerá o PS uma maioria absoluta, que poderá obter com 39%? Claro que não. Basta pensar, para além da degradação na Saúde, nas desilusões na Educação, na Ciência e na Cultura. Com um sistema político tão depauperado, concentrar ainda mais poder num líder e no seu séquito seria empobrecer a democracia. Não me vou abster no dia 6 de Outubro, para impedir a outra maioria absoluta, a da abstenção, que seria um mal maior para a democracia. Existem pequenos partidos, nalguns casos com propostas interessantes. Se conseguirem eleger deputados o Parlamento será mais plural e, portanto, melhor.
Público 5 Set 19Etiquetas: autor convidado, CF
15.3.18
HAWKING E OS MISTÉRIOS DA CIÊNCIA
Por Carlos Fiolhais
O Universo ficou mais pobre com a morte de Stephen Hawking (1942-2018), por se ter apagado um dos cérebros que melhor o pensava. Tanto quanto sabemos, o cérebro humano é, de entre toda a matéria do vasto Universo, a única porção que o consegue compreender. Não é fácil, mas é possível compreender o Universo. E Hawking foi, nos nossos tempos, alguém que se aventurou de forma mais ousada nos grandes mistérios do mundo: o Big Bang e os buracos negros.
Desapareceu também, ao mesmo tempo que o cientista, um excelente comunicador de ciência, talvez o cientista mais conhecido das massas. Há que reconhecer que esse conhecimento deriva não tanto do impacto da sua obra em física, que apesar de arrojada está longe de chegar aos píncaros atingidos antes por outros como Newton e Einstein, mas mais da sua grave deficiência física. O seu cérebro tão criativo vivia dentro de um corpo praticamente falido, um corpo que só se movia numa cadeira de rodas, e nós não podíamos deixar de ficar espantados como é que um pensamento tão ampliado podia vir de dentro de um corpo tão tolhido.
Hawking simboliza bem o triunfo da mente humana. Não tendo ele a produtividade científica de Einstein, o certo é que ficou quase com a mesma aura. As suas imagens na cadeira de rodas tiveram um efeito semelhante que as famosas fotos de Einstein, com bigode e cabeleira desgrenhada. Com a vantagem de Hawking ter vivido num tempo em que a Internet podia ampliar a sua imagem a uma escala planetária. Hawking foi um ídolo dos nossos tempos e esse ídolo dificilmente desaparecerá.
O facto é que precisamos de ídolos. Existem ídolos na arte, no desporto, na política e não há razão para dispensarmos os ídolos na ciência. Não que eles tenham de ser idolatrados (a ciência consiste precisamente não na admiração cega mas sim no exercício do espírito crítico), mas simplesmente porque ajuda a ampliar na sociedade a imagem da ciência. Ao tomarmos contactos com os livros de Hawking (que são muitos mais do que a “Breve História do tempo”) e com os seus filmes, de algum modo ficamos também detentores da ciência.
A ciência não é só dos cientistas, é de todos nós. E Hawking soube, como muito poucos nos tempos mais recentes, entregar-nos a ciência. Ele foi, sem poder falar a não ser pela voz metalizada de um sintetizador electrónico, um grande porta-voz da ciência. As perguntas que ele colocava sobre o início do e o fim do mundo são, ao fim e ao cabo, as perguntas que nós também colocamos. De onde vimos? Para onde vamos? Algumas respostas, naturalmente parciais e provisórias, foram-nos entregues. Acima de tudo foi-nos entregue a sensação de entrar nos mistérios do mundo. Tal como a mente de Hawking se maravilhou com os enigmas do Universo também a nossa, mesmo sem a posse das capacidades do extraordinário astrofísico britânico, o pode fazer.
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20.2.18
Tudo sobre Elina Fraga
Por Ferreira Fernandes
Devem ser das palavras mais sábias: "Não percebo..." Assim, com reticências, que é a forma sábia de sublinhar que se admite que deve haver por aí uma resposta, mas eu não sei qual.
Aconteceu-me tantas vezes nesta profissão em que me pagam para escrever, não perceber. E é tão importante. Algumas vezes, poucas, mandaram-me cobrir congressos de partidos e eu, de lá, mandava dizer o que via: a autoridade e solidão de Mota Amaral, a frouxidão de Seguro, a perfídia brilhante de Portas, o tanto que Marcelo gosta de si...
Aparentemente este género tão subjetivo de olhar para os protagonistas dos congressos nunca foi muito popular entre os meus diretores quando tocava mandar cobrir aqueles fins de semana que empolgaram sempre as redações e bastante menos o país. Tenho de admitir que o desdém talvez fosse fundamentado: eu não entendia as moções, escapavam-me os jogos de bastidores. Mas continuo a achar que num lugar onde se escolhem os chefes dos partidos vocacionados para mandar no país, nos congressos partidários, o mais interessante é caçar os protagonistas ou, ainda mais, assinalar os mistérios. Ah, estes últimos, o acidente, o acessório, o epifenómeno que sai da cartola como quem não quer a coisa... E, de repente, toda a gente a falar dele (ou dela) - houve vaias, deu indignações ("traição!", disse ex-ministra) e levou Marques Mendes a fingir o espanto: "Mas porquê Elina Fraga?!"
No estrebuchar que se seguiu encontraram-se logo investigações em andamento e anátema fácil: "Populista!" Recolham pois o acidente, o acessório e o epifenómeno: há razões maiores para esta propulsão, tanto mais que a senhora vem de um setor pestífero, a justiça.
Tal como um esquecimento é tantas vezes um sintoma de boa memória, dizer-se "não percebo" para a escolha de Elina Fraga revela que se percebe bem demais porque ela foi escolhida. É aí que eu estou: aqui há gato. Eu não sei ainda é qual.
DN de 20 Fev 18Etiquetas: autor convidado, F.F
19.2.18
Os recasados de Alvalade
Por Ferreira Fernandes
Por estes dias, como benfiquista, preocupam-me mais leituras de sentença em tribunal do que boicotes de leitura em assembleia geral dos outros. Quando soube daquelas excomunhões anticelulose (sportinguistas, nada de jornais em papel!) e anticatódicas (nem tevês!), pensei que era só o Sporting a dar-se conta da avalancha da era digital. Ontem, porém, vi o diretor de comunicação do clube - Nuno Saraiva, eu fazia-te o adeus amigo do costume, mas podes olhar para mim? - a aumentar a amplitude das proibições. Estas estendem-se também à rádio e às plataformas digitais.
No Sporting entraram em vigor os quatro macacos sábios: um tapa os ouvidos aos relatos, outro, os olhos à transmissão televisiva, o terceiro tapa o nariz à tinta impressa e o último entrapa as falanges contra a tentação de frequentar a internet...
Sou liberal, cada um faz o que quer entre os seus. Mas também sou egoísta e assustei-me por poder ser privado da escrita de Rogério Casanova no Expresso. Ele é um fanático sportinguista que de tão bem escrever me dá gozo até nas derrotas benfiquistas. Porque o meu temor era: se os sportinguistas não podem ler jornais, também não podem escrever neles, certo? E não me tranquilizava que o anátema do Bruno de Carvalho fosse contra "jornais desportivos". Como horas depois se confirmou, isto de proibir é como as cerejas...
Corri ao Twitter do Casanova a saber se ele suspendia a sua escrita no Expresso mas o meu ídolo nada dizia. Ele próprio estava a digerir a notícia de que um sportinguista também não podia fazer links dos textos dos jornais. Apesar de abalado, ele disse que ia escrever no Twitter, "sem os ler", sobre os textos dos famigerados jornais.
Então, a minha esperança renasceu: talvez ele continue a escrever os seus textos no Expresso, mesmo sem os ler - ainda assim serão bem acima da média.
E depois desta esperança acabo esta crónica com uma certa lascívia: vai ser excitante imaginar os sportinguistas como os recasados do cardeal. A comprar A Bola, mas a não a ler; a espreitar pelo canto do olho o Pedro Guerra, mas a não o ouvir. O pecado é tão enredado e tentador...
DN de 19 Fev 18
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28.1.18
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23.1.18
22.1.18
Disto hoje não se vai ouvir falar
Por Ferreira Fernandes
Estou em Luanda. Conheci um homem que persegue os emails que ele próprio envia. Palmilha Angola a estudar as estradas a construir. Depois manda um email para o ministério correspondente. Logo a seguir, vai lá. Diz à secretária: já recebeu o meu email? "Já." Já fez seguir? "Ainda." Mana, faz lá seguir... "Vou fazer." Mana, não espera, faz agora.
Depois, o homem sobe ao chefe de gabinete: já recebeu o meu email? "Acabei de receber." Já mandou para o diretor? "Vou mandar." Manda agora... "Ok"...
E assim por diante, o homem que ajuda a construir estradas, sobe escadas. Ele usa a @ tal como Fidípides, o maratonista de Atenas, usava as pernas: perseguindo, para o seu trabalho prosseguir. Bendito.
Como aquela quitandeira luandense que ontem vi subir uma calçada com uma carta na cabeça. Em cima da carapinha, um tabuleiro, em cima, um envelope e em cima deste uma pedrinha para a carta não voar. Ela levava sacos de fruta e os dedos estavam impróprios para levar a carta à mão. Então, ela arranjou-se para cumprir o que a encarregaram de fazer...
Eram histórias destas, de sal da terra, que eu gostaria de contar da minha terra. Histórias que nunca se ouvem, não é? Angola está sequestrada por uma ideia verdadeira e desgraçada, mas incompleta — se a julgamos só por ela, treslemos aquele país de gente que merece respeito. E de quem nunca se ouve falar.
No sábado, na televisão do Estado, a TPA, ouvi um debate entre quatro mulheres - uma socióloga, uma jornalista, uma ativista e uma advogada. Eu já ficaria encantado só de ouvir a minha língua falada da forma tersa e limpa, como o meu querido amigo Joaquim Pinto de Andrade me ensinou ser próprio dela. Mas foi mais do que isso. As quatro mulheres discutiam a corrupção.
Uma lembrou que falar de corromper pode deixar só vaga ideia, urge é falar de factos: corromper é menos escolas, uma indecência!
Outra avisou que já passou o tempo da pedagogia, hoje quer-se saber quem e o quê.
Outra, ainda, falou do inominável que é "roubar fundos do combate à malária." E outra fez o retrato de corpo inteiro da corrupção. Era o saque do bem comum, era a irresponsabilidade mas era também a traição. Uma nação a construir-se precisa de orgulho: "Outros países fazem-nos doações, coro de vergonha quando alguém de nós rouba até o que nos dão." Eu sorri, agradecido.
Quatro mulheres desencarceravam Angola da corrupção — não acabar com esta, mas lembrar que aquela é muito mais. Por exemplo, uma mulher com uma carta à cabeça subindo a calçada.
DN de 22 Jan 18Depois, o homem sobe ao chefe de gabinete: já recebeu o meu email? "Acabei de receber." Já mandou para o diretor? "Vou mandar." Manda agora... "Ok"...
E assim por diante, o homem que ajuda a construir estradas, sobe escadas. Ele usa a @ tal como Fidípides, o maratonista de Atenas, usava as pernas: perseguindo, para o seu trabalho prosseguir. Bendito.
Como aquela quitandeira luandense que ontem vi subir uma calçada com uma carta na cabeça. Em cima da carapinha, um tabuleiro, em cima, um envelope e em cima deste uma pedrinha para a carta não voar. Ela levava sacos de fruta e os dedos estavam impróprios para levar a carta à mão. Então, ela arranjou-se para cumprir o que a encarregaram de fazer...
Eram histórias destas, de sal da terra, que eu gostaria de contar da minha terra. Histórias que nunca se ouvem, não é? Angola está sequestrada por uma ideia verdadeira e desgraçada, mas incompleta — se a julgamos só por ela, treslemos aquele país de gente que merece respeito. E de quem nunca se ouve falar.
No sábado, na televisão do Estado, a TPA, ouvi um debate entre quatro mulheres - uma socióloga, uma jornalista, uma ativista e uma advogada. Eu já ficaria encantado só de ouvir a minha língua falada da forma tersa e limpa, como o meu querido amigo Joaquim Pinto de Andrade me ensinou ser próprio dela. Mas foi mais do que isso. As quatro mulheres discutiam a corrupção.
Uma lembrou que falar de corromper pode deixar só vaga ideia, urge é falar de factos: corromper é menos escolas, uma indecência!
Outra avisou que já passou o tempo da pedagogia, hoje quer-se saber quem e o quê.
Outra, ainda, falou do inominável que é "roubar fundos do combate à malária." E outra fez o retrato de corpo inteiro da corrupção. Era o saque do bem comum, era a irresponsabilidade mas era também a traição. Uma nação a construir-se precisa de orgulho: "Outros países fazem-nos doações, coro de vergonha quando alguém de nós rouba até o que nos dão." Eu sorri, agradecido.
Quatro mulheres desencarceravam Angola da corrupção — não acabar com esta, mas lembrar que aquela é muito mais. Por exemplo, uma mulher com uma carta à cabeça subindo a calçada.
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13.1.18
O ANO FEYNMAN
Richard Feynman
Por Carlos Fiolhais
Bem sei que em 2018 se comemora o bicentenário do nascimento de Karl Marx e da publicação de Frankenstein, a obra-prima de Mary Shelley, e o centenário do armistício que pôs termo à Primeira Grande Guerra e dos nascimentos de Nelson Mandela e de Leonard Bernstein, assim como o meio centenário do Maio de 1968 em França e da estreia de 2001 Odisseia no Espaço, a obra-prima de Stanley Kubrick. Mas, para mim, 2018 é principalmente o ano do centenário do físico americano Richard Feynman, Prémio Nobel da Física de 1965 pelo seu trabalho sobre a electrodinâmica quântica, a teoria quântica dos electrões e da luz, e uma das maiores lendas da ciência do século XX.
Nova-iorquino de ascendência judaica, o facto se só ter começado a falar aos três anos não o impediu de logo revelar uma voraz curiosidade. Licenciou-se em Física no MIT e doutorou-se em 1942 em Princeton, um sítio onde a grande figura era na época Einstein (este, que também começou a falar tarde, estava aliás presente no primeiro seminário que Feynman lá deu). A sua tese de doutoramento inaugurou uma nova maneira de trabalhar com a teoria quântica. O mundo estava em guerra e, no ano seguinte, Feynman foi recrutado para trabalhar no projecto Manhattan, que construiu as primeiras bombas atómicas. Ficou então lendária a sua capacidade de abrir cofres, adivinhando códigos. A seguir foi para Cornell, onde realizou o trabalho que havia de merecer o Nobel.
No início dos anos 50 passou um ano sabático no Brasil, onde aprendeu português para além de aprender a tocar bongo e frigideira. Depois aceitou uma oferta de Caltech onde alcançou o pícaro da fama como professor. Nos anos 60 revolucionou o ensino da física com as suas Feynman Lectures on Physics, um clássico em três volumes. Um livro que traduzi em jovem foi um conjunto de palestras gravadas pela BBC intituladas O carácter da lei física, que dão um cheirinho dessa obra maior. Os direitos dos vídeos foram adquiridos por Bill Gates que os colocou na Internet em acesso livre (Gates chamou a Feynman o ”melhor professor que nunca tive”). Tal como o seu contemporâneo Leonard Bernstein, também ele nova-iorquino e judeu, Feynman tinha uma fabulosa capacidade pedagógica, na qual se aliavam a mestria dos assuntos com a teatralidade da exposição.
Nos anos 80 saíram dois livros auto-biográficos de Feynman que retratam a sua excentricidade: Está a brincar Sr. Feynman! e Nem sempre a brincar, Sr. Feynman!, ambos traduzidos entre nós na Gradiva. Para proporcionar estes livros às novas gerações surgirão este ano nos Estados Unidos novas edições com um prefácio de Bill Gates.
Feynman já estava doente com cancro quando, como membro da comissão de investigação do desastre do Challenger, mostrou com uma experiência, durante uma conferência de imprensa, como uma anilha do vaivém se tinha quebrado no lançamento devido às baixas temperaturas. Declarou, criticando a NASA: “A realidade tem de estar à frente das relações públicas, já que a Natureza não pode ser enganada”.
Já no final da sua vida tentou visitar a república soviética de Tuva, no centro geométrico da Ásia, só porque em pequeno tinha coleccionado selos dessa república, então independente, mas o clima de guerra fria não o permitiu. Para compensar, o seu colaborador próximo Robert Leighton vai passar o próximo dia do aniversário de Feynman, 11 de Maio, na capital tuvana, que dá pelo nome de Kyzyl.
Nos anos 80 saíram dois livros auto-biográficos de Feynman que retratam a sua excentricidade: Está a brincar Sr. Feynman! e Nem sempre a brincar, Sr. Feynman!, ambos traduzidos entre nós na Gradiva. Para proporcionar estes livros às novas gerações surgirão este ano nos Estados Unidos novas edições com um prefácio de Bill Gates.
Feynman já estava doente com cancro quando, como membro da comissão de investigação do desastre do Challenger, mostrou com uma experiência, durante uma conferência de imprensa, como uma anilha do vaivém se tinha quebrado no lançamento devido às baixas temperaturas. Declarou, criticando a NASA: “A realidade tem de estar à frente das relações públicas, já que a Natureza não pode ser enganada”.
Já no final da sua vida tentou visitar a república soviética de Tuva, no centro geométrico da Ásia, só porque em pequeno tinha coleccionado selos dessa república, então independente, mas o clima de guerra fria não o permitiu. Para compensar, o seu colaborador próximo Robert Leighton vai passar o próximo dia do aniversário de Feynman, 11 de Maio, na capital tuvana, que dá pelo nome de Kyzyl.
Os interesses científicos de Feynman foram variados. Onde havia um problema, lá estava ele a propor uma solução. Onde havia uma possibilidade, lá estava ele a lançar um desafio. Fez em 1959 uma célebre conferência onde lançou a área, hoje pujante, da nanotecnologia. E, em 1982, propôs a ideia de computação quântica, um domínio hoje muito auspicioso. O mundo bem pode agradecer ao físico.
Feynman é hoje um herói popular: há filmes, peças de teatro, bandas desenhadas e até uma ópera sobre ele. Numa das peças aparece a querer ensinar física teórica a prostitutas de Las Vegas. Apesar de ter tardado a falar, Feynman não tinha papas na língua. Só quando morreu ficou sem palavras. As suas últimas, no hospital, continuam a ser citadas: “Não gostaria de morrer segunda vez. É tão aborrecido.”
Público, 2 Jan 18
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11.1.18
... e a propósito de pobres...
Um cartune de Rodrigo de Matos — já antigo, mas sempre actual...
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Manifesto pela canibal
Apelo à legalização da canabis, numa loja de brinquedos, em Lagos - Foto CMR
Por Ferreira Fernandes
Eu estou bem colocado para dar um pontapé no Pedro Marques Lopes caído no chão: somos amigos. Ele é amigo, dos melhores, daqueles que se conhecem tarde e se escolhem. Amigo com quem discuto tanto e com o consolo, meu, de ficar quase sempre claro, para mim, que sou eu a ter razão. É bom ter amigos assim.
Ontem, o Pedro escorregou como só ele, de forma original e com estardalhaço, com a ponta dos dedos. Escrevia ele um tweet sobre a momentosa questão expressa num título do Público, "Carta aberta pede legalização da cannabis para fins medicinais", e, então, ele postou: "Só há uma explicação para a canibal ainda não ser legal para fins terapêuticos: uma imensa ignorância."
Eis um assunto (refiro-me ao tratado pelo jornal Público) sobre o qual eu não tinha nada para dizer, mas com a incómoda suspeita de falhar a ocasião de defender uma causa justa. Porém, outro assunto (refiro-me ao tweet do Pedro) veio libertar-me da indecisão. Sei que vou aproveitar-me da partida que o corretor ortográfico lhe pregou e vou juntar-me à turba (quase toda risonha e simpática, aliás) que gozou ontem com o Pedro e a sua defesa de uma insólita causa: a inalienável urgência de tornar a canibal legal para fins terapêuticos. Em doses pequenas, simples mordidelas, também acho que a canibal devia ser legalizada. Até digo mais, não vejo a necessidade de qualquer doença para o consumo, moderado, da citada mesinha. O tipo de marcas que a canibal deixa é imediato, ao contrário do álcool que só tarde nos previne com um nariz vermelho, já quando é irremediável a decomposição de órgãos internos. Prevenidos com as dentadinhas dela, à canibal nunca a deixaremos chegar ao fígado.
Parabéns, pois, querido Pedro, pelo manifesto que ousaste, embora sem quereres. E voltando ao assunto de que eu não sabia como escrever por ignorar tudo, o aparecimento da canibal vem acompanhado de uma vantagem sobre a canábis: não vejo como aquela traga qualquer dependência.
.Ontem, o Pedro escorregou como só ele, de forma original e com estardalhaço, com a ponta dos dedos. Escrevia ele um tweet sobre a momentosa questão expressa num título do Público, "Carta aberta pede legalização da cannabis para fins medicinais", e, então, ele postou: "Só há uma explicação para a canibal ainda não ser legal para fins terapêuticos: uma imensa ignorância."
Eis um assunto (refiro-me ao tratado pelo jornal Público) sobre o qual eu não tinha nada para dizer, mas com a incómoda suspeita de falhar a ocasião de defender uma causa justa. Porém, outro assunto (refiro-me ao tweet do Pedro) veio libertar-me da indecisão. Sei que vou aproveitar-me da partida que o corretor ortográfico lhe pregou e vou juntar-me à turba (quase toda risonha e simpática, aliás) que gozou ontem com o Pedro e a sua defesa de uma insólita causa: a inalienável urgência de tornar a canibal legal para fins terapêuticos. Em doses pequenas, simples mordidelas, também acho que a canibal devia ser legalizada. Até digo mais, não vejo a necessidade de qualquer doença para o consumo, moderado, da citada mesinha. O tipo de marcas que a canibal deixa é imediato, ao contrário do álcool que só tarde nos previne com um nariz vermelho, já quando é irremediável a decomposição de órgãos internos. Prevenidos com as dentadinhas dela, à canibal nunca a deixaremos chegar ao fígado.
Parabéns, pois, querido Pedro, pelo manifesto que ousaste, embora sem quereres. E voltando ao assunto de que eu não sabia como escrever por ignorar tudo, o aparecimento da canibal vem acompanhado de uma vantagem sobre a canábis: não vejo como aquela traga qualquer dependência.
Um Ponto é Tudo - DN 11 Jan 18
Etiquetas: autor convidado, F.F
10.1.18
Os cartunes de Rodrigo de Matos
Em tempos, e se não me falha a memória, Rodrigo de Matos convidava os leitores a escrever um texto para inserir no "balão".
Mas para quê? Assim, "Sem palavras", está perfeito!
Etiquetas: autor convidado, Rodrigo
9.1.18
Os cartunes de Rodrigo de Matos
Faz agora 9 anos que o Sorumbático começou a publicar cartunes deste desenhador (como "autor convidado").
Este é o 16.º; os anteriores poderão ser vistos clicando em "Rodrigo" na "etiqueta" existente em rodapé.
Etiquetas: autor convidado, Rodrigo
O desbaste Santana-Rio
Nada mais incerto do que o prazo de um governo. Uma solução governamental nunca pode dormir sobre as boas notícias, mesmo sendo elas sobre aquilo que conta para toda a gente, os índices económicos. Um sopro de incêndio estival - ou, pior, outonal - pode abalar todos os otimismos. António Costa sabe disso, ficou outro depois de Pedrógão e a maldita sequela. Então, porquê o vazio de oposição, desde que o PSD perdeu a liderança? Refiro o vazio do PSD, não conto com o arreganho do CDS, que Assunção Cristas (apesar da performance para a Câmara de Lisboa) não corre para primeira nem para segunda, mas tão-só para um maior bocado de menos de metade da direita. Então (quero eu dizer, não havendo nada mais incerto do que o prazo de um governo), tendo Passos Coelho abandonado, porque não houve candidatos a sério a substituí-lo? Santana é refogado e Rio é acanhado. E a campanha mostrou, deste, não mais do que julgávamos e, daquele, ainda pior do que nos lembrávamos (já nos tínhamos esquecido do que ele em eleições era capaz).
À direita, a desesperança; à esquerda, o desejo errado na política: "Espero que ganhe, nos outros, o pior..." É que o pior dos outros nunca é garantido ser o adversário mais frágil contra nós - e, no caso de ele nos ganhar, perde o país.
Contra este dilema geral, porquê, num partido que se arrisca sempre a ganhar, não houve entre os bons um calejado que agarrasse, enfim, a oportunidade? Ou um novato que a ousasse já?
Chateia começar desasado 2018 quando as eleições são só para o ano.
-DN de 9 Jan 18
Etiquetas: autor convidado, F.F
8.1.18
A manada desceu à cidade
Por Ferreira Fernandes
Não nos deixemos influenciar pelo grupo patibular escoltado por robocops de capacete e viseira, pela rua pública aos gritos ou, mais assustador, marchando em silêncio.
Na luz molhada do fim da tarde parecia o fascismo de botas cardadas conquistando a cidade. Parecia, mas era só uma manada. Uma manada pendular, de um para outro estádio da Segunda Circular, segundo o calendário desportivo.
Desportivo, ofende tanto dizer isso... Tanto quanto dizer da manada que é do futebol. Ela desmente a tradição daquelas cores defrontando-se, que já foram de Espírito Santo e Peyroteo, cada um em nome do vermelho ou do verde, e da elegância de Jordão que fez sonhar, à vez, os fãs dos dois clubes.
Como pode aquela manada reclamar-se do flash que é o Gelson ou, se o percurso fosse inverso, do saber fazer do Jonas? Como podem os brutos usurpar, dos artistas, a atenção?
Ontem, uma escola fechou mais cedo por ser vizinha da Luz e outra, também por jogo, perto do estádio do Boavista. A miúdos de uma e de outra abrir-se-iam os olhos de deslumbre se vissem passar um jogador, mas tiveram de recolher a casa por causa do tropel da manada. As televisões foram interrogar uma diretora e foi constrangida que ela disse não querer expor os seus alunos ao perigo...
Pois nem assim se foi perguntar aos da manada se não tinham vergonha, nem à polícia o despropósito de guardarem chantagistas. Nem ao sr. Vieira e ao sr. Carvalho se pediram explicações pelo repetido absurdo.
Ontem, uma escola fechou mais cedo por ser vizinha da Luz e outra, também por jogo, perto do estádio do Boavista. A miúdos de uma e de outra abrir-se-iam os olhos de deslumbre se vissem passar um jogador, mas tiveram de recolher a casa por causa do tropel da manada. As televisões foram interrogar uma diretora e foi constrangida que ela disse não querer expor os seus alunos ao perigo...
Pois nem assim se foi perguntar aos da manada se não tinham vergonha, nem à polícia o despropósito de guardarem chantagistas. Nem ao sr. Vieira e ao sr. Carvalho se pediram explicações pelo repetido absurdo.
Enfim, as manadas existem e ocuparam a cidade. E muita sorte têm as escolas por, ao fechar, não serem acusadas de causar danos psicológicos às botas cardadas ou cascos ou lá o que é.
-"Um Ponto é Tudo" - "DN" 4 Jan 18
Etiquetas: autor convidado, F.F
20.1.15
O QUE É A LUZ?
Por Carlos Fiolhais
Vale
a pena, neste Ano Internacional da Luz, voltar a esta questão muito antiga. Ao
longo da história, foram-lhe sendo dadas diferentes respostas. Para os
atomistas gregos, a luz era, como aliás tudo
o resto, constituída por partículas. No início do século XVIII, o físico inglês
Isaac Newton recuperou esta teoria, uma vez que ela permitia explicar, entre
outros fenómenos ópticos, a propagação rectilínea da luz, a reflexão (embate da
luz na superfície de um espelho) e refracção (desvio da luz ao passar de um
meio para outro).
Contudo, um outro físico, o holandês seu
contemporâneo Christian Huyghens, conseguia explicar os mesmos fenómenos usando
ondas. Apesar do enorme prestígio de Newton, foi a teoria ondulatória que
acabou por prevalecer no século XIX: logo no início desse século, uma famosa
realizada pelo inglês Thomas Young, exibindo a interferência de luz que passa
por duas fendas, só podia ser compreendida com a ajuda de ondas. Uma partícula
nunca pode anular outra partícula, mas uma onda já pode anular outra onda. Assistiu-se
então ao triunfo da teoria ondulatória, para a qual muito contribuiu uma
memória de 1815 do francês Augustin-Jean Fresnel, sobre a difracção da luz
(espalhamento quando sai de um pequeno orifício).
Se a luz é uma onda, o que é que está a vibrar? Há 150 anos, o escocês James Clerk
Maxwell, ao juntar, na mesma descrição matemática, a electricidade e o magnetismo,
foi o primeiro a propor que a luz era uma onda que resultava da vibração do
campo electromagnético. O que é esse campo? Para explicar a força eléctrica e a
magnética à distância tinha-se introduzido a noção de campo. Existe um campo
magnético associado ao campo eléctrico e a luz mais não é do que a propagação
de uma perturbação periódica desses dois campos, conjunto a que chamamos campo
electromagnético. A velocidade da luz foi calculada a partir de propriedades
eléctricas e magnéticas. Apesar de essa velocidade ser constante, podiam
existir ondas com comprimentos de onda
muito diferentes. A luz visível corresponde a uma pequena “janela” no conjunto dos
comprimentos de onda. Luz invisível, como a ultravioleta e a infravermelha, é
tão luz como a luz visível, só diferindo desta por o comprimento de onda ser
menor ou maior. Com a detecção instrumental de luz invisível, a onda parecia
ter ganho à partícula!
Mas a
luz reservava-nos surpresas. Em 1905 as partículas de luz voltaram quando o físico
suíço Albert Einstein se viu obrigado a introduzir a noção de “pacote” de luz
(fotão) para descrever o arranque de electrões de um metal por luz
ultravioleta. Graças a Einstein Newton estava vingado… A energia do fotão
dependia do comprimento de onda: havia fotões ultravioletas, infravermelhos, e,
com uma energia intermédia, fotões azuis, verdes e vermelhos. Como conciliar a
descrição ondulatória, que funciona bem em certas circunstâncias, e a descrição
corpuscular, que funciona bem noutras? Uma estranha teoria – a teoria quântica
– conseguiu fazê-lo, impondo-se como a moderna teoria da luz. A luz propaga-se
no espaço como uma onda, mas pode ser produzida ou apanhada como partícula. Hoje
em dia conseguimos emitir luz fotão a fotão, evidenciando o seu carácter
corpuscular, mas, se colocarmos um obstáculo com duas fendas à frente dessa luz,
verificaremos que ela passa pelas duas, como seria de esperar de uma onda. A
experiência desafia o nosso senso comum. Quem diz que o mundo tem de estar
de acordo com o nosso senso comum?
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Texto saído na imprensa regional
Etiquetas: autor convidado, CF
3.11.14
Oiçam, jornalistas: não se faz
Por Ferreira Fernandes
O destaque dizia: "Estava sozinho num estado deplorável" - [diz] testemunha." É verdade e é mentira, como se vê nas duas páginas abertas do jornal. José não estava sozinho, estava acompanhado por canalhas que se aproveitaram dele inconsciente para o filmar. O facto imoral - não se abusa de um homem inconsciente - estava demonstrado pela indignidade do jornal que espalhava seis fotos do desacordado José, retiradas do vídeo. Testemunha não era quem falou - testemunha, pessoa que atesta a verdade de um facto, foram todos os leitores com o jornal nas mãos. Testemunha não era, como diz o jornal, "um dos rapazes que partilhou com Zeca uma das últimas noites de excessos, antes do ator decidir internar-se numa clínica de desintoxicação". Esse rapaz é só um chantagista que foi vender as imagens ao jornal, hipótese um, ou um tolo que em nome do sacrossanto direito de todos sabermos tudo foi dá-las ao jornal, hipótese dois. Hipótese dois que o jornal sugere, ilibando o rapaz da venda porca, mas não o iliba a si próprio, jornal, de meter nojo. Deplorável, enfim, não é a palavra certa. Deplorar é respeitar a fraqueza, e não o fizeram com José. Não sei quem ele é, além do que o jornal apresentou: um ator de telenovelas que anda perdido e se internou numa clínica de desintoxicação. As páginas, e não foram só aquelas duas, que o jornal dedicou àquele homem, de quem não ignora a aflição e o grito de socorro, não se fazem. Não se fazem, ponto.
«DN» de 3 Nov 14Etiquetas: autor convidado, F.F
















