26.11.07

Quando o comércio quiser

Por Alice Vieira
AS COMPRAS DE NATAL são sempre, para mim, momentos de enorme prazer. Nunca percebi muito bem as pessoas para quem as prendas desta época são uma obrigação instituída, uma coisa que tem que ser, uma espécie de competição para ver quem despacha mais e no mais curto espaço de tempo, tudo a correr e como se se estivessem a libertar de um terrível frete sazonal. De lista na mão, vão riscando os nomes, “a tia já está, a prima já está, o chefe já está”, e tudo tem um ar mercenário que me aflige muito.
Eu demoro imenso tempo a pensar no que cada pessoa gostará, porque o Natal é também isso, pensar mais um bocadinho nas pessoas, e fazê-las sentir que são importantes para nós, que não são apenas um nome no meio de uma lista, que aquela prenda que lhe damos foi pensada para ela, e só podia mesmo ser para ela.
E depois vêm ainda as horas que passo em casa a fazer os embrulhos, porque também esses têm de ser especiais - já para não falar dos cartões que os acompanham.
Resumindo: as compras desta época, para mim, são também um ritual, tal como espalhar pela casa os presépios todos, e armar a árvore, e enfeitá-la - e como tal necessita de tempo.
Começo sempre muito cedo, com as lojas ainda pouco movimentadas - mas nunca antes de finais de Novembro.
Mas este ano, não sei porquê, se calhar levando ao extremo aquela estafada frase de que “Natal é quando um homem quiser”, o comércio decidiu querer muito cedo - e apareceu um calendário estranhíssimo, e ao tempo que as lojas estão superlotadas, e as pessoas andam afadigadas nas compras.
Mas afadigadas mesmo: transpiradas, despenteadas, aos encontrões a todo o mundo, sem paciência e a berrarem pelos filhos pequenos que ficam parados diante dos monstros que abundam nas prateleiras infantis. Como se estivéssemos no dia 24 de Dezembro e elas tivessem descoberto que ainda lhes falta riscar os nomes da lista inteira.
Porque agora o Natal começa logo nos primeiros dias de Outubro - ou até antes. Acabamos o último mergulho na praia e já nos furam os tímpanos com o “jingle-bells”, o “I wish you a happy christmas”, ou a “noite feliz” em várias línguas, atirados pelos altifalantes de todas as grandes (médias, pequenas) superfícies comerciais. É uma overdose de cânticos que até eu, a indefectível, já dou por mim a escolher as lojas onde entro pela música que NÃO dão.
Por isso percebi tão bem a angústia daquela empregada que, há dias, me pedia “por favor, não passe diante daquele Pai Natal, porque os sensores fazem com que ele cante de cada vez que alguém se lhe atravessa na frente… Está ali há quase dois meses e eu já não o posso ouvir…”
Claro que lhe fiz a vontade. Até porque a pobrezinha me pareceu pálida, com olheiras, e instintos assassinos, coitada.
Mas se calhar era por causa das luzes especiais.
Também elas a caírem-lhe em cima há dois meses...
«JN» de 25 de Novembro de 2007

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3 Comments:

Blogger Unknown said...

Eu cá já comprei o presente lá para casa! Já estou 50% despachado!
Comprei um LCD Samsung LE40F86BD - Samsung LE40F86BD
E posso dizer que não estou nada arrependido! Tem Full HD 1080p (o que deixou os miúdos malucos para os jogos deles), tem imensas ligações e é fácil de montar e usar. Pessoalmente, estou muito satisfeito - dá para tudo o que preciso e mais.

Boas compras e Bom Natal

Sergio

26 de novembro de 2007 às 17:37  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Em breve, Alice Vieira vai oferecer, a leitores do SORUMBÁTICO, um ou dois livros seus, autografados.

26 de novembro de 2007 às 19:19  
Blogger R. da Cunha said...

Hoje em dia as pessoas não têm tempo para nada, é sempre tudo a correr desde a madrugada até ao adormecer. E também têm que dormir depressa. Refiro-me, obviamente, aos casais mais novos, com filhos, que residem nas periferias das médias/grandes cidades.
Quanto à empregada: se fosse a ela já tinha procurado avariar a maquineta. É um vício de todas as empresas darem-nos música em tudo o que sítio, até nos telefones e elevadores. É uma autêntica praga!

26 de novembro de 2007 às 23:15  

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