2.5.08

A Quadratura do Circo

Os burros somos nós
Por Pedro Barroso
POIS SE ATÉ O PANCRÁCIO, - ou o Ambrósio, Anacleto, ou enfim, não me lembro o nome, - mas ao que parece, o chimpanzé mais distraído do planeta aprende a reciclar! Não acreditam? Foi provado por aqueles senhores, com ar de competentes e doutores. Tudo gente inteligentíssima, está visto.
No entanto - espantai-vos, oh gentes - eu não sei o que é do azul e do amarelo. Com esta idade, imagine-se, só sei o verde. Resultado – no fundo, eu não sei. Perdi. Uma vergonha.
Por uma questão de antiguidade e pergaminhos, sou - ao que posso provar historicamente com provas dadas em obra acabada, labores, criações e exemplos pessoais – aquilo a que, com facilidade e justiça, se deveria apelidar de um ecologista histórico.
Gosto do campo; vivo no campo; sei podar e conhecer as sementeiras e seus prazos; jardino; rego; identifico um plátano de uma tília. Estive na luta contra Ferrel. Gravei discos contra a poluição do Almonda. Assinei abaixo assinados mil sobre fumos, cheiros, Etares, efluentes furtivos, atentados vários á Natureza e ao Ambiente. Tenho a consciência tranquilinha e nunca pertenci ao Partido da Terra.
Revolto-me com os erros que se fazem contra o Ambiente, mas também, algumas vezes, em nome do Ambiente. Acho, como qualquer cidadão mais atento, que a consultoria de algumas organizações ambientalistas nem sempre é clara e transparente como devia. Mas respeito que haja quem se dedique a tal jogo do gato e do rato com os planos dos sucessivos Governos e disso vá fazendo sobrevivência…
Nunca fui fundamentalista, nem especialmente alinhado. Nunca me viram protegendo acaloradamente o ninho da lagartixa ibérica em desfavor da necessária auto-estrada. Com efeito, as lagartixas que eu conheço, em geral, são espertas e escolhem rapidamente - sem traumas ou depressões de maior - um novo local de passeio e, alegremente, que eu saiba, constroem novos e felizes lares, sem grande problema. Descobrem também rapidamente que por ali vão passar carros a alta velocidade, e que estes são bem mais velozes e pesados que elas. Com bonomia e adequada atenção pedagógica, ensinam aos seus lagartixos filhos que não devem frequentar tais alcatroados sítios, e pronto.
Com maioria de razão, as mães cegonhas, carraceiras, abetardas e estorninhas, recomendam o mesmo aos seus filhotes, com a vantagem suplementar de que estes têm asas e voam, pelo que lhes é muito mais fácil evitar atropelamentos e deslocar suas vidas futuras uns cem metros para o lado. Não morrem por isso, acho eu.
Mas esta mania que os grandes recicladores de lixo nos incutiram de que devemos fazer o trabalho por eles, nunca me cheirou a acto que me paguem, ou que eu deva a ninguém.
Pago os meus impostos, logo dividam o lixo, se faz favor. OK, eu ponho os vidros no vidrão e se tiver pilhas velhas na mão - o que seria um acontecimento estranhíssimo na minha vida andar a passear pilhas velhas nos bolsos, mas enfim, pode acontecer…- eu também as ponho naqueles contentores à porta do supermercado, não me custa nada.
Mas o exagero anda por aí. No outro dia, dei por mim num local com instruções para que só o papel limpo fosse para os cestos de secretária; para facilitar o aproveitamento e, mais que provavelmente, a poupança em mão-de-obra dos grandes magnatas do ramo. Papel com cola - tais como envelopes de cartas abertas, postits, etc. - teria de ser separado.
Fantástico. Um novo mundo se cria, cheio de perspectivas e seduções. Vejamos como é recreativo. Só temos que aprender. E como ninguém quer passar por burro e os chumbos estão proibidos por lei, todos teremos de passar a viver de outro modo.
Portanto. Vejamos.
Embalagens aqui, sim, mas se não tiverem alumínio, ou revestimento a chumbo ou pratas. Logo, temos de confirmar. Há que demonstrar publicamente a nossa mais cívica e ecológica sabedoria. Os vizinhos estão vigilantes.
A coisa continua. Resíduos animais e restos de comida ali, é certo, mas temos de assegurar-nos de que não estejam ossos de costeleta de boi, o que poderia avariar as máquinas da central recicladora. Latas de refrigerante? Muito bem, mas só previamente esborrachadas, tal como as garrafas de água. Aliás, nestas, há que separar as tampas que são de um plástico mais rijo e, como tal, pertence a uma recolha própria, muito divulgada para associações de caridade animal.
Na mesma ordem de ideias, os cartões em geral, são permitidos, mas primeiro têm de desdobrar-se as caixas, planificar e atar de forma a ocupar um espaço justificado. Tinteiros usados, é favor reciclar também. Os lixos de entulho só no depósito de Tegumenha de Cima, que fica no concelho limítrofe, e os restos de jardinagem não devem ser postos nos contentores normais. Monos como o frigorifico da falecida tia Miquelina só às quintas-feiras e tem de telefonar-se a confirmar. Se o cão morrer provavelmente tenho de chamar os bombeiros. O raio do cão pesa cem quilos, sai ao dono, é uma bisarma monstra. Uma gaita.
Enfim.
Como se vê, primeiro, os grandes do petróleo, para reduzirem custos, puseram-nos a sujar as mãos e a servir combustível ao nosso automóvel, porque lhes apeteceu ter apenas um empregado na caixa, em vez de doze a servir nas bombas. Espertos.
Depois, os grandes armazenistas e multinacionais do abastecimento puseram-nos a correr e empurrar carrinhos, quilómetros fora, em longos corredores de prateleiras intermináveis, acabando com o comércio de bairro e obrigando-nos a todos a sermos um misto de atletas de maratona, campeões de paciência e halterofilistas, em intermináveis compras, tudo no mesmo sítio, para poupar. E mais; eles pagam a seis meses aos seus fornecedores. Nós pagamos no acto da compra, logo ali. Finos.
Juntemos a isso os self-services de todos os ramos; os Office-centers, os Ikeas de acarreta aí seu burro, e é se queres o móvel mais baratito, os Aki e Moviflores de tipo monta tu essa gaita nem que nunca saibas, partas tudo e a tua mulher goze contigo, etc. etc.
Pois é, amigos, toda a coisa cai em nós. Se queremos atravessar agora a passadeira, já não há o simpático sinaleiro que nos indicava com um sorriso quando o devíamos fazer. Carregamos nós no botão, se houver, ou esperamos pelo sinal abrir e depois arriscamos.
Em tudo a tendência é: faz tu o que nós mandamos, pois queremos ganhar mais. Poupando em mão-de-obra, salários, transportes, segurança social. Pondo-nos a fazer o serviço.
Somos os novos escravos deles, quase sem dar por isso. Em tudo.
A coisa, com efeito, não está fácil. Pelo meio, bombardeiam-se os media com conceitos moralistas do viver em sociedade, consciência ecológica, civismo, regra, ordem, disciplina colectiva. O costume. E o pessoal encolhe-se, tem vergonha de não cumprir. Faz.
Então muito bem. Pensem o que quiserem, tenho as costas largas.
O lixo é lixo. Só separo as garrafas. Sou, portanto, Anacleto em part-time.
Paciência. Não me apetece brincar ao jogo dos magnates avarentos. O raio que os parta.

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7 Comments:

Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Como o Pedro Barroso, tal como eu, está muito tempo em Lagos e em Lisboa, já se deu conta, decerto, que as embalagens do tipo Tetrapack são colocadas no ecoponto amarelo, na capital (onde é considerado 'embalagem'), e no azul, no Algarve (onde é considerado 'papel')...

2 de maio de 2008 às 10:57  
Blogger Blondewithaphd said...

Bem, das melhores coisas que tenho lido ultimamente!! Subscrevo, corroboro, concordo e só tenho pena de não ter sido eu a escrever uma coisa destas! Fabulástico!!
Eu que já fui fundamentalista ambiental e vivi num país que cobra multas (à séria) se não pusermos o lixo muito bem separadinho à porta de casa, confesso que hoje me deixei de reciclagens! Venham cá buscar os desperdícios a casa e é se quiserem, se não quiserem, olhem, paciência!
Enquanto me cobrarem os horrores que cobram nas facturas da água por causa dos resíduos sólidos, bem podem reciclar por mim!!

2 de maio de 2008 às 15:41  
Blogger Joaquim Duarte said...

Excelente texto. Mas não pense que é fácil demonstrar aos amigos e/ou colegas de trabalho aquilo que óbvio, ou seja a transformação do cidadão comum numa espécie de funcionário comum de todas e quaisquer empresas interessadas em ganhar umas belas somas sem gastar dinheiro em salários...! É que eu tenho tentado fazer essas demonstrações mas sem qualquer sucesso. Parece que o politicamente correcto é a grande religião do dias de hoje, portanto se alguém utilizar uma linguagem soft e sofismos "demonstrando" que todos devemos trabalhar de borla para todas as empresas que se lembrem de tal, só temos é que concordar e o fazer para o bem "geral"...!

Os exemplos que citou são claros, mas deixo aqui apenas mais um exemplo que me irrita de tal forma que já deixei de frequentar esses lugares - os cafés e/ou restaurantes que teimam em nos fazer de funcionários dessas empresas à força - obrigando-nos a pagar antecipadamente e a levar a comida, pratos, talheres, copos, tabuleiros, etc, até à mesa escolhida...! Existem até "restaurantes" que nos "obrigam" a levar a louça suja até ao local mais próximo da respectiva máquina de lavar!

Aquilo que mais me envergonha é a falta de vontade de o comum dos mortais reflectir sobre aquilo que se passa à sua volta, ao ponto de trabalhar de borla para estas empresas...!

Sinais dos tempos?

3 de maio de 2008 às 18:15  
Blogger rc said...

No caso em apreço, não posso de deixar de discordar do autor.

A separação do lixo é um acto de civilidade, como qualquer outro. Encará-lo como uma concessão aos capitalistas é não ter noção do problema. Se o não separar a probabilidade do seu lixo acabar enterrado para sempre num Aterro Sanitário é muito grande. Ora, não só estes aterros custam fortunas, como são problemas ambientais perenes, ocupando áreas cada vez mais importantes do território.

E perde-se a matéria-prima que esses materiais ainda constituem. Se há maneiras de recuperar os recicláveis que vão misturados com o lixo? Há.
A mais eficaz continua a ser o meio humano. Isto é, ter pessoas a trabalhar com as mãos no seu lixo, expostas a tudo e mais alguma possibilidade (seringas, munições, granadas, por ai...veridico).

Os meios mecânicos, não só representam um enorme investimento, como são ineficazes quando a contaminação é elevada.

Face a esta realidade, a cada um cabe decidir. Eu prefiro saber que as pessoas que trabalham neste ramo estão a separar manualmente os meus resíduos correctamente separados, sem contaminações de resíduos orgânicos e toda a espácie de material, do que pô-las a vasculhar no lodo por um pedaço de plástico ou cartão que eu tive preguiça de colocar correctamente no lugar.

6 de maio de 2008 às 12:42  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

RC,

A foto da esquerda e a do meio do "post" que coloquei a seguir a este (conjunto de 3) dão-lhe razão: sendo o cidadão o principal interessado, é natural que lhe caiba pelo menos uma parte do esforço.

A foto da direita (desse mesmo conjunto de 3), juntamente com as que escolhi para ilustrar esta crónica do PB, fazem-nos desabafar com expressões como "Vão-se lixar!"

Ou seja: pelo menos em Lisboa, são INÚMERAS as situações em que o cidadão faz o que pode, e a Câmara não corresponde a esse esforço:
levamos até aos ecopontos o lixo devidamente separado, apenas para descobrir que estão a transbordar; vamos a outros, e estão na mesma...

6 de maio de 2008 às 13:06  
Blogger rc said...

Caro CMR,

Compreendo esses motivos e penso que são precisamente contra as Câmaras que não conseguem proceder a uma recolha eficaz, que os munícipes devem protestar.

Felizmente onde moro (Cascais), a Câmara avançou muito no sentido de melhorar o sistema e é raro encontrar um ecoponto cheio. A sua dispersão também foi bastante melhorada.

O sentido do texto pareceu-me ser outro, e quando se fala nos "magnatas do ramo" acho que se está a apontar na direcção errada.
Recordo que o sistema em Portugal é na sua totalidade público no que toca ao tratamento dos resíduos sólidos urbanos (vulgo lixo), apenas na recolha dos resíduos já se assiste a alguma subcontratação de serviços a privados. Sendo a minha Câmara um desses exemplos, depois de uma primeira experiência que correu mal, o novo modelo parece-me de enorme sucesso.

O texto ia no sentido contestário que julgo que não leva a lado nenhum. Ao invés de apontar a crítica a quem era dela merecedora, estendeu-se a mesma ao fenómeno da separação e reciclagem de lixo. Estendeu-se ainda mais a outros ramos em nada comparáveis, onde a redução dos meios humanos devido à automatização ou auto-serviço, reduz os postos de trabalho (até neste caso, falamos de algo que acontece há mais de 100 anos, nada que não se adivinhasse...).

Penso que o debate deste tema é importante e a civilidade obviamente não se trata apenas de separar lixo.
É usar a sua voz, a sua opinião, o seu voto, para fazer aqueles que ainda gerem este assunto de maneira ligeira, mudarem radicalmente a sua postura.

6 de maio de 2008 às 14:28  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

RC,

Correcto.

6 de maio de 2008 às 15:55  

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