28.11.08

Os Taxistas

Por Maria Filomena Mónica
VIAJEI RECENTEMENTE acompanhada por uma mala pesando trinta e cinco quilos. O taxista britânico que me foi buscar a casa carregou-a da porta até ao carro com um sorriso. Ao longo dos setenta quilómetros que separam Oxford de Heathrow, não ligou o rádio nem meteu conversa. Tudo em nítido contraste com o que se passaria no aeroporto de Lisboa. Ao ver o rótulo «Heavy» na mala, o taxista ficou especado, esperando que alguém – eu, o polícia, o passageiro seguinte? – a metesse na bagageira. Como ninguém se voluntariasse para a tarefa, conduziu-me pela cidade a uma velocidade incrível.
Uma época houve em que a Câmara Municipal de Lisboa condicionava o número de alvarás, o que contribuía para que o uso de táxis implicasse uma luta feroz entre os clientes. Nos últimos anos, porém, o número de carros aumentou, o que deveria ter feito com que as leis da oferta e da procura se alterassem a nosso favor. Não foi isso que aconteceu.
Os taxistas nacionais dividem-se em três grupos: os que gostam de falar dos problemas da Pátria, os que conduzem com o rádio aos berros e os que se comportam civilizadamente. De acordo com o primeiro, o mais numeroso, não fora a classe dos políticos, e as soluções - fuzilar os drogados, envenenar os velhos e expulsar os imigrantes - estariam à vista. Numa vã tentativa para não os matar, recordei a frase de Terêncio «Homo sum, humani nil a me alienum puto». Tentei depois encontrar uma explicação para o seu comportamento. Talvez a causa do mau humor fosse o trânsito, mas deparei-me com um problema insolúvel: e se fosse a profissão a atrair os seres mais perturbados e não o contrário? Até que percebi que todas estas reflexões eram inúteis, pelo que tomei a decisão de só dar uma gratificação aos taxistas que demonstrassem ser prestáveis. Se o não faço no caso dos condutores de autocarros, dos maquinistas da CP e dos pilotos de avião, qual o motivo que me leva a dar-lhes gorjeta? Se a quiserem, doravante terão de a merecer.

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10 Comments:

Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

A propósito de taxistas simpáticos, sugere-se a leitura da história «Táxis Simpatia - Onde você não é mandado para a sua tia» - [aqui]

28 de novembro de 2008 às 09:04  
Blogger Florêncio said...

Antes de mais, queria saudar a "chegada" de MFM a este blogue!

Depois, queria sugerir-lhe (e aos leitores interessados) que, no aeroporto da Portela, ignorasse a praça de táxis das "chegadas" (onde a maioria dos taxistas são umas bestas) e se dirigisse à das partidas, a poucos metros dali.

São taxistas completamente diferentes, e nunca, com eles, tive chatices.

28 de novembro de 2008 às 09:59  
Blogger Mr. Shankly said...

"Ao longo dos setenta quilómetros que separam Oxford de Heathrow"

Qualquer taxista de Lisboa ficaria satisfeito se tivesse uma corrida de 70 km...o aeroporto de Alcochete vai pelo menos trazer mais alegria aos taxistas.

De resto, concordo consigo e assinalo com agrado a sua estreia no blogue.

28 de novembro de 2008 às 11:04  
Blogger Luis Bonito said...

Caríssima MFM:
Vai fazer 2 anos em Dezembro que mudei a minha vida, deixei Portugal e vim viver para a Alemanha.
Antes de mudar fui a algumas livrarias e trouxe um monte de livros portugueses.
Na bagagem vieram uns quantos livros seus: Visitas ao Poder, Vida Moderna, Cenas da Vida Portuguesa e Bilhete de Identidade. Os quais saboreei e devorei logo nos primeiros meses da minha nova vida no estrangeiro.

Depois desta pequena introdução, aqui fica o meu comentário.
Na Alemanha os taxistas foram um tema quente esta semana. Foi divulgada uma apreciação dos taxistas em várias cidades alemãs. O estudo foi efectuado pela ADAC (uma espécie de Automóvel Clube). A apreciação baseou-se em aspectos como: tarifário, escolha do percurso, gentileza, ajuda na bagagem, etc.
Foi dada relevância a pormenores como este, por exemplo: quando o cliente se aproxima do carro com bagagem. o taxista deve sair do táxi e ajudar a colocar a bagagem dentro do porta-bagagem.
Os taxistas de Hannover foram considerados os piores; os de Nuremberga, os melhores.

Penso que muitos portugueses, especialmente entre os que vivem em Lisboa, tiveram uma vez na vida uma entrada num táxi e ouviram o taxista dizer: “Que azar! Estive aqui à espera uma hora e agora tenho um serviço para uma distância tão curta!”
Talvez em Lisboa existam muito taxistas “emigrantes de Hannover”...
Fico também feliz por poder ler os seus textos neste blogue.
Cumprimentos.

28 de novembro de 2008 às 14:27  
Blogger Jorge Oliveira said...

Subscrevo inteiramente a sugestão do leitor Florêncio.

A praça de táxis do lado Chegadas é de evitar. Aquilo não é uma praça de táxis. Pelo que me contaram, é um ajuntamento de malfeitores.

A outra praça, do lado Partidas, é quase tão acessível como a das Chegadas e os motoristas são muito diferentes.

Soube desta triste história há poucas semanas. Habitualmente tenho um familiar que me vai buscar ao aeroporto e raramente recorro a táxis, mas desta última vez tive de apanhar um e quase inadvertidamente dei comigo na praça de táxis das Partidas.

Percebendo que eu estava de chegada, o motorista pensou que eu estaria a evitar deliberadamente a outra praça e falou-me no assunto, elogiando a minha opção.

Perante a minha ignorância contou-me uma história de arrepelar os cabelos. Fiquei atónito e até um pouco descrente, pensando que aquele motorista, que era o proprietário do táxi, estaria a exagerar e a puxar a brasa à sardinha. Pessolmente, embora tenham sido poucas as vezes, nunca tinha tido problemas com táxis do outro lado. Admiti que os tempos tivessem mudado.

Só que, uns dias depois, falando com um amigo da GNR, tive a confirmação. Nem com a polícia que anda por lá se consegue evitar o comportamento daquela canalha.

Nem só de colorinho branco se veste o comportamento execrável.

28 de novembro de 2008 às 14:43  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

E há um outro absurdo: o inexplicável atraso dae expansão do Metro até lá.
Está previsto que lá chegue... quando o aeroporto se mudar!

Melhor do que isso, só o Metro chegar a S. Apolónia, e António Costa começar a falar na desactivação da Estação!

28 de novembro de 2008 às 15:02  
Blogger Táxi Pluvioso said...

Os passageiros são feitos da mesma massa. Não se percebe porque os portugueses falam na terceira pessoa, como se fossem cantores pimba.

29 de novembro de 2008 às 16:30  
Blogger JSA said...

Nunca fui de táxi ao chegar a Lisboa, apenas os usei quando fui para o aeroporto, ou seja, de partida. Nesses casos tive realmente bom atendimento e atitude por parte dos condutores. A forma de resolver o problema dos táxis é realmente deixar o metro seguir até lá.

Por outro lado, pergunto se faz assim tanta diferença a tanta gente usar o autocarro. Basta apanhar a linha que segue até à Gare do Oriente (e que chega em 5 a 10 minutos, se bem me lembro) e, a partir daí, usar o metro ou o comboio. Mais rápido, confortável e provavelmente barato.

Claro que Maria Filomena Mónica poderá não se interessar por esta opção. Sou dos que não saúda a sua chegada. A sua escrita é realmente de qualidade, mas as suas opiniões não são, para mim, minimamente interessantes. Pergunto-me até o que faz ela em Portugal. Por esta altura, com tanta queixa sobre os portugueses e elogios aos ingleses, já poderia ter-se mudado para terras de Sua Majestade. Imaginem o que não beneficiaria no comportamento dos taxistas...

1 de dezembro de 2008 às 13:04  
Blogger Paloma said...

Bem, que antipatia tão gentil, a do comentário anterior.

Eu saúdo-a. E peço-lhe que escreva mais. E muito.

Quanto ao tema, também tenho pouca sorte com taxistas. E o que mais odeio é quando não percebem que, ali, só procuro um pouco de silêncio.

2 de dezembro de 2008 às 23:12  
Blogger Paloma said...

Bem, que antipatia tão gentil, a do comentário anterior.

Eu saúdo-a. E peço-lhe que escreva mais. E muito.

Quanto ao tema, também tenho pouca sorte com taxistas. E o que mais odeio é quando não percebem que, ali, só procuro um pouco de silêncio.

2 de dezembro de 2008 às 23:12  

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