16.6.10

Poupem-nos as fífias

Por Joaquim Letria

QUANDO O TITANIC se afundou, a orquestra começou por se concentrar nos salões da Primeira Classe, tentando assim que os passageiros de mais categoria não perdessem a calma nem a esperança. Mais tarde, os músicos de bordo reuniram-se na popa, procurando obter os mesmos resultados dos passageiros da segunda e da terceira classes. A orquestra nem deixou, sequer, de tocar quando a tripulação teve a certeza absoluta de que o navio se afundaria. Hoje, entre nós, diante das músicas que se podem orquestrar, continua a fazer-se ouvir as notas da partitura destinada a acompanhar o esbanjamento dos dinheiros públicos, associado à má gestão económica, que se mantém e não deixa de se fazer sentir e escuta-se, em fundo, o “de profundis” que ilustra a negra e injusta colecta de impostos agravados. O que ainda está por tocar são aquelas enérgicas marchas para acompanhar a criação de emprego, bem como as alegres notas musicais que geram riqueza, para não falar das partituras que permitem oxigenar as empresas cuja sobrevivência depende de receberem, a tempo e horas, aquilo que o Estado lhes deve e não paga. Vamos lá a ver se, mesmo com estes músicos a tocar de ouvido, há quem afine a banda e nos poupe, pelo menos, as fífias.
«24 horas» de 16 Jun 10

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