28.8.13

António Borges

Por Baptista-Bastos
NO MESMO dia em que o Governo retirava o rendimento social a 136 mil pessoas; em que decrescia o número de alunos no básico, no secundário e nas universidades - nesse mesmo dia morreu, com um cancro no pâncreas, António Borges, um dos mais ortodoxos doutrinadores portugueses do neoliberalismo. Um homem implacável na aplicação das convicções ideológicas e indiferente às consequências que essas aplicações implicavam. Borges era partidário da redução de salários para equilíbrio da economia; do corte substancial de funcionários públicos; da diminuição do papel interventivo do Estado; das privatizações; do aumento das horas de trabalho; da entrega "faseada" da Educação, da Saúde, da Segurança Social porque entendia, e dizia-o, verbi gratia, que o sector privado era melhor gestor do que o público.
Sublinhava a opinião de que os portugueses viviam acima das possibilidades; de que estavam habituados a que a Nação suportasse a sua inércia histórica e a colectiva e tradicional ausência de criatividade e de "empreendedorismo"; e, enfim, de que precisávamos de mão de ferro para ser governados. De passagem, e num fórum público, declarou, irado, que os empresários não concordantes com estas sábias conclusões eram "ignorantes" e irremediavelmente condenados ao purgatório da História.
Frio nas decisões, os "objectivos" é que determinavam e, de certo modo, justificavam e explicavam este homem que não cultivava a pieguice, e em cujo vocabulário as locuções "compaixão" e "bondade" estavam ausentes. Segundo António Borges, a democracia existe para se adaptar às exigências da economia, e nunca o contrário, e a questão dos direitos culturais e sociais constitui um pormenor insignificante. A preservação das diversidades é uma pretensão, um pouco tola, de um humanismo serôdio, que se não compadece com as aspirações e as reclamações dos "novos tempos." E que são esses "novos tempos"? O todo humano é muito mais do que uma forma definível de contrato celebrado entre as partes envolventes. E as elites estão sempre no topo de qualquer definição de relações sociais, determinando o que julgam melhor para os outros.
O próprio António Borges exemplificou e personalizou a forma e o conteúdo nefastos, digamos assim, dos conceitos doutrinais de que era cruel paladino. Acaso mais rígido e áspero do que Vítor Gaspar, nunca se retractou nem abdicou, como aquele o fez, dos erros e dos maus compromissos advogados com obstinação e fé, e que tantos malefícios nos têm causado. Transmitiu esses ideais a Passos Coelho, numa concepção tão absurda como perigosa do mundo e do capitalismo. Pouco importa que o trabalho seja deliberadamente desprezado, pois esse "desprezo" corresponde à separação dos diferentes níveis económico, político, social e cultural prescritos pela prática do neoliberalismo.
António Borges foi, até ao fim, António Borges.
«DN» de 28 Ago 13

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4 Comments:

Blogger Ivete Ferreira said...

O seu comentário enferma dos esquerdimos serôdios que nao deixam evoluir o Pais. Devia ter mais respeito por quem morreu.

28 de agosto de 2013 às 09:30  
Blogger lino said...

Muito bem escrito, caro BB. Quem não respeitou os outros em vida não merece qualquer respeito depois de morto.

28 de agosto de 2013 às 16:10  
Blogger José Batista said...

Vivos e mortos todos são merecedores de respeito.
E respeitá-los é dizer sem subterfúgios o que pensamos deles.
Baptista Bastos não falta ao respeito à memória de António Borges. Apenas diz dele o que muitos pensam, com tristeza.
Eu sou um deles.

28 de agosto de 2013 às 22:58  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

As figuras-públicas, especialmente quando têm (tiveram) um forte papel político, entram para a História (nem que seja como "nota de rodapé"), dado que influenciaram a vida da sociedade em que se inseriram.

Assim sendo, a sua obra será sempre analisada em todos os aspectos.

Claro que, se a sua acção foi fortemente politizada, os analistas seus contemporâneos dificilmente serão isentos. O grande filtro será o tempo - e mesmo assim nem sempre (veja-se o caso do Marquês de Pombal, sobre o qual ainda há discussões apaixonadas!).

O que está em causa, pois, nesta crónica de B.B. é saber se o que ele escreve é verdade ou não.

--
A ideia de que "criticar um morto é faltar-lhe ao respeito" pode ser vagamente aceitável para um cidadão anónimo, mas não é válida para alguém que teve um papel político importante - como foi o caso de António Borges.

28 de agosto de 2013 às 23:19  

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