3.8.13

Swapar é preciso

Por Antunes Ferreira
“NAVEGAR é preciso, viver não é preciso” escreveu Fernando Pessoa e cantou (e canta) Chico Buarque de Hollanda; a conjugação destes dois mestres (sem cuidar da dimensão de cada um deles) resultou em afirmação cantada que se tornou paradigmática em Portugal. Hoje, porém, Pessoa seria muito capaz de, iconoclasta como foi, versejar de outra forma: “Swapar é preciso, ter vergonha não é preciso”. E logo se levantaram vozes mais eruditas ou mais susceptíveis: Mas quem é este gajo que se dá ao luxo de inventar o “verbo” swapar?
Este caso dos já calinos e prostituídos swaps (continuo à espera de alguém que bondosamente tente traduzir a expressão para Português… mas numa só palavra, já que o que quer dizer é demasiado comprido e demasiado ininteligível para o pobre lusitano das classes médias, baixas e assim – assim) tornou-se em leit motiv, neste pobre País, seja em conversas, seja em debates, seja em audições na comissão que “investiga” os malfadados contratos, seja nas páginas dos jornais, seja ainda nas redes sociais cada vez mais soberanas.
A meio da semana e depois da ministra Maria Luís ter afirmado na dita comissão da Assembleia da República que não fora informada por ninguém sobre o escaldante assunto, o facto de ter reconhecido, antes, que sabia duns zuns zuns a respeito do caso, o assunto ainda mais aqueceu. Aliás já o ex-ministro Gaspar afinara pelo mesmo diapasão, o que não admira, pois a actual detentora do ministério tinha sido sua secretária de Estado das Finanças, e os swaps tinham sido motivo que o obrigara a desistir do cargo, para além dos inúmeros erros de contas e previsões falhadas et aliud, que ele próprio reconhecera na sua carta de demissão.
No entanto, a governanta, perdão, a governante, ao defender a honra conjunta de ministros encarregados dos assuntos financeiros, levou o tema mais longe, ao declarar que o ex-secretário de estado do Tesouro, Costa Pina do então titular, Teixeira dos Santos, não lhe dissera nada de importante a respeito dos tais swaps, o que correspondia, a chamar-lhe mentiroso.
Costa Pina não gostou. E não esteve com meias medidas; enviou uma carta à supracitada comissão em que acusou Maria Luís Albuquerque de deturpar as suas palavras e de omitir a informação que Vítor Gaspar lhe passou, mantendo tudo o que disse na comissão de inquérito aos swaps. Mas, não se ficou por aqui: garantiu que mantinha tudo o que dissera, depois da agora ministra das Finanças ter dito na terça-feira, em comissão, que ele tinha "falhas graves de memória".
Estavam as coisas neste pé, com a Oposição a exigir a demissão da ministra, quando Cavaco uma vez mais atirou achas para a fogueira. Porque Passos lhe garantira que Maria Luís era pessoa idónea e competente, ele, suposto PR - que nunca tem dúvidas e raras vezes erra - era da mesmíssima opinião: mantenha-se a ministra. Tantas trocas e baldrocas eram suficientes para outra atitude que Cavaco tomasse? Não eram. Além disso, o Senhor Silva não costuma ter atitudes. A não ser em favor do (des)Governo Portas-Passos, que é a ordem correcta.
Eis senão quando, a revista Visão, que é uma desmancha-prazeres do mais alto coturno, divulgou que o agora secretário de Estado do Tesouro, Joaquim Pais Jorge, à data (Julho de 2005) director do Citibank Coverage, terá proposto ao gabinete de José Sócrates a venda de três contratos de swaps ao Citigroup, com base em derivados financeiros. “Os Estados geralmente não providenciam [ao Eurostat] informação sobre o uso de derivados”, dizia o documento entregue no gabinete do então primeiro-ministro e também ao Ministério das Finanças e ao IGCP, organismo que gere a dívida pública. “Os swaps serão, efectivamente, mantidos, fora do balanço”, acrescentava o documento. Ora, como é sabido, o Eurostat é o gabinete de estatísticas europeu que calcula o défice orçamental e a dívida pública dos Estados-membros.
Aqui d’el Rei. Logo a negregada Oposição pediu a demissão de Pais Jorge, com relevo maior do BE e do PCP. João Semedo, o coordenador dos bloquistas afirmou mesmo que o caso dos contratos continuava a "adquirir contornos escabrosos", acrescentando que "temos uma ministra que contratou swaps enquanto gestora de uma empresa pública e temos agora um secretário de estado que, enquanto gestor de um banco, vendia esses contratos swaps. Ou seja, no mesmo governo temos quem os comprava e quem os vendia".
Perante esta salgalhada, quem se pode admirar de eu ter criado o verbo swapar?

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3 Comments:

Blogger José Batista said...

Também se pode tentar o aportuguesamento. Eu proporia: "suópes". Com o significado de patifarias financeiras feitas por entidades e pessoas pouco confiáveis com a intenção de sacar dinheiro a gente séria, desprevenida e desprotegida. E para dar mais consistência ao neologismo, invocava-se um acordo ortográfico restrito e específico, decompondo a palavra do seguinte modo:
- as primeiras três letras relacionar-se-iam (espuriamente) com "suor";
- a letra "p", a seguir, viria de pobres;
- a letra "e" significaria "escorropihchado" (que soa adequadamente, para o efeito);
- e a letra "s" significaria (duplamente) "sórdidas" e "sanguessugas".
E a quem argumentasse que um tal arrazoado não tem jeito nenhum repliar-se-ia que isso era obrigatório como condição para se aproximar o vocábulo do verdadeiro e último significado da coisa.
Confuso?
É como os suópes.

3 de agosto de 2013 às 10:28  
Blogger Henrique ANTUNES FERREIRA said...

O Zé Batista, eu escrevia Baptista, mas agora parece que é erro de palmatória, se não existisse tinha de ser existido. Continuo a gostar de fazer palavras novas.

Mas a sugestão dos "suópes" e a explicação dada não se coadunam com qualquer hipótese de crítica. Está bem feita e bem apresentada de mais. Ponto final. Nada de pontos: os meus parabéns a este Batista mascarilhado - outra palavra nova. Tenho de as registar. Ou registrar como dizem os Brasucas.

3 de agosto de 2013 às 23:40  
Blogger José Batista said...

Faz muito bem em inventar, caro Antunes Ferreira. E que invente por muitos e bons anos, com proveito meu e de outros.

Agora, este Batista não está mascarilhado. Terá sido um erro no registo de baptismo do meu avô, que sempre gostou da palavra assim mesmo, talvez por não praticar qualquer religião.

Aproveito para corrigir dois erros no comentário que tinha feito anteriormente:

- "escorropichado" e não escorropihchado";
- "replicar-se" e não "repliar-se".

4 de agosto de 2013 às 18:30  

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