27.6.20

«É a Economia, estúpido!» (*)

EMBORA a C. M. de Lagos tenha decidido que os parques infantis e biossaudáveis deviam encerrar para evitar a propagação do Coronavírus, o certo é que os três do Parque da Cidade se mantiveram escancarados até ao dia 6 de Maio, como aqui se referiu no mês passado. 

Como se não bastasse terem decorrido sete longas semanas desde a declaração do Estado de Emergência até que fossem colocadas fitas dissuasoras, ainda foi possível assistir à sua remoção por grupos de ADULTOS, que se permitiram fazê-lo ostensivamente! 

A partir daí, a situação foi-se sempre degradando, com os parques a serem utilizados como se não estivéssemos até em Estado de Calamidade — tudo facilitado pelo facto de, já há anos, terem sido quebrados os fechos das portas dos parques infantis.

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INDIVÍDUOS como esses costumam argumentar que “morre mais gente de gripe sazonal” do que de Covid-19. Talvez não saibam que existem 7 coronavírus, 4 benignos e 3 letais. O da gripe sazonal faz parte dos primeiros, e para ele já existe vacina; ao invés, o da Covid-19 (o SARS-CoV-2) é um dos segundos, pelo que é incorrecto, quando não mesmo desonesto, considerar que se equivalem, não só em termos de SAÚDE, como de ECONOMIA.
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IMAGINE-SE, p. ex., uma fábrica que faz parte de um “cluster” industrial, e onde aparecem uns quantos trabalhadores com gripe sazonal. O que sucede? Simples: irão para casa e voltarão quando estiverem recuperados; mas, entretanto, a actividade da empresa prosseguirá. E se, por qualquer motivo, um deles morrer? Bem... certamente, alguns colegas irão ao funeral e haverá uma referência no obituário da casa; mas, também nesse caso, a produção não deverá sofrer interrupções de maior.
Imagine-se agora que, em vez de uns quantos trabalhadores com a gripe sazonal havia um — e apenas um! — que morria com Covid-19.
Ah!, nesse caso, tudo seria bem diferente pois, como a doença só se manifesta ao fim de alguns dias, seria altamente provável que ele tivesse, entretanto, desencadeado uma cadeia de contaminações, e não apenas no seu local de trabalho; e então, com os testes e quarentenas que se seguiriam, tudo ficaria de pantanas, afectando inclusivamente a empresa-mãe, mesmo que nela não tivesse havido um único infectado.
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TODOS sabemos que esse exemplo não é ficção. Mas então como se explica o referido estado-de-negação relativamente ao flagelo com que o mundo está confrontado?
As explicações são várias: antes de mais, existe a ideia generalizada de que a doença só é perigosa para os velhos; depois, surgiu uma barragem de “fake news” (com origem e motivações bem conhecidas), intimamente relacionada com o facto de a situação obrigar a uma escolha POLÍTICA entre SAÚDE e ECONOMIA — uma quadratura-do-círculo onde todos os países esbarram, pois sem saúde a economia fica fragilizada, e sem uma economia saudável não haverá dinheiro para a saúde. E isso tem levado muito boa gente a um estado de esquizofrenia, como quando, no dia 16 de Maio, António Costa apelou para que se saísse à rua, enquanto, no dia seguinte, uma resolução do seu Conselho de Ministros dizia exactamente o contrário! 
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À DATA em que escrevo, a zona de Lisboa e Vale do Tejo debate-se com um inesperado surto de Covid-19 que se traduz em centenas de novos casos por dia. Pelo contrário, Lagos continua a ser poupada, uma realidade que para nós não tem preço, pelo que há que a preservar a todo o custo, evitando facilitismos tontos, pois o perigo continua à espreita, não faltando quem queira vir para cá — menos por amor à nossa terra do que para usufruir das vantagens de um “porto seguro” que, até agora, Lagos tem sido.
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(*) – Frase criada por James Carville, o estratega da campanha de Bill Clinton nas eleições de 1992 contra George Bush (pai).
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C. Medina Ribeiro
“Correio de Lagos” de Jun 20

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4 Comments:

Blogger " R y k @ r d o " said...

Bom dia:- Resido na zona de Lisboa, coladinho à capital. Conheço o estado de calamidade que existe em relação aos infectados. No entanto, nas rarissimas vezes que saio de casa, continuo a ver ajuntamentos de pessoas, novas e menos novas, sem usarem máscara, viseira, ou outro qualquer tipo de protecção. Assim o vírus até se anda a rir.
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Saudação amiga
Bom fim de semana

27 de junho de 2020 às 10:11  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Logo a seguir ao envio deste texto para o jornal, decorria uma festa no concelho, de onde resultaram, até hoje, 19 infectados, incluindo 19 crianças.
Quanto ao que refiro (ausência de protecções e fechos nas portas dos parques) está tudo na mesma, o que motivou uma queixa minha à ASAE, que é a responsável pela fiscalização dos espaços.

27 de junho de 2020 às 10:28  
Blogger José Batista said...

Parabéns pelo texto, CMR.

27 de junho de 2020 às 12:06  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Corrigindo:
Onde escrevi "19 infectados", leia-se "119"...
Hoje, por sinal, já há mais 2.

28 de junho de 2020 às 19:08  

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