19.6.20

DEIXEM-NOS SER COMO SOMOS

Por Joaquim Letria
Todos nós ouvimos dizer, na fase final do estado de emergência, que a pandemia era terrível mas fora boazinha em certas coisas, como, por exemplo, até nos terá transformado em melhores pessoas. O Presidente da República, falando à nação, foi muito simpático e chegou mesmo a dizer que nós éramos verdadeiros heróis e até éramos os melhores do Mundo.
Sem desejar contrariar ninguém, sempre senti que quando a pandemia passar nós voltamos a ser o que éramos, com os mesmos defeitos e qualidades. E, infelizmente, ainda estamos muito longe do fim da pandemia, para além desta abertura às facilidades —  sem grande controle  para nos fazerem respeitar as indicações sanitárias — que ainda nos vai levar a piores resultados, como já sucede em Lisboa e Vale do Tejo.
Quando os ingleses começarem a desembarcar no aeroporto de Faro, os espanhóis a darem cabo dos bons resultados do Alentejo— e Lisboa, Porto, Gaia, Póvoa, Setúbal e Costa da Caparica a albergar festas de rua, comícios e a vender álcool nas bombas de gasolina até de madrugada — vão dizer que somos ainda melhores do que éramos e transformam-nos em verdadeiros super-heróis.
Esta coisa de sermos bonzinhos tem, como com muitas outras coisas, que ver com a educação, o civismo e o respeito pelos outros que nos ensinaram e cada um de nós aprendeu. E o que sabemos de tudo isso é o que já sabíamos. Por outro lado, as consequências sociais da gravíssima crise económica e as novas dificuldades para encontrarmos um sítio onde nos albergarmos da miséria, agravarão o salve-se quem puder que compreensivelmente já se começa a fazer sentir.
Portanto, o que importa – sem adjectivos nem elogios – é cuidarmos  da nossa saúde  e tratarmos o melhor possível da vida de todos nós.
Temos quase 900 anos de História e conseguimos manter-nos juntos e fazermos muitas coisas notáveis e outras menos boas. Mas chegámos até aqui pelos nossos meios e à nossa custa. E desta vez vai continuar a ser assim. Não precisamos que nos chamem bonzinhos, bons, heróis ou super-heróis.
Deixem-nos ser como somos, ajudem-nos e não estraguem as coisas boas que somos capazes de fazer, com todos os nossos defeitos e qualidades.
Publicado no Minho Digital

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