17.7.20

O JORNALISMO QUE DEVÍAMOS CONHECER

Por Joaquim Letria
A história do jornalismo português está por fazer. Encaremos alguns exemplos dum estudo que nunca foi feito: Fialho de Almeida em “Os Gatos” e nas duas espantosas páginas da morte e do enterro de D. Luís.
Recordemos a sua obra póstuma, em “Figuras de destaque”. Fialho foi chefe de Redacção de “O Repórter”, cujo director era o historiador Oliveira Martins, também ele prosador maior.
Raúl Brandão, o criador de “Húmus”, livro majestoso e único, foi chefe de Redacção do República, com particulares simpatias pelos mais desfavorecidos e pelas lutas operárias daquele tempo. Escreveu grandes reportagens, de elevado recorte literário. Uma delas, recolhida em livro, é um notável documento duma reunião sindical secreta, com o ar sombrio das escadarias do prédio onde a reunião se realizava.
Ramalho Ortigão, que n’”As Farpas”, com a ajuda parcial de Eça de Queiroz, fez o retrato de Portugal numa prosa lindíssima. Silva Pinto, amigo de Cesário Verde, de quem editou o famoso livro de poemas dedicado a Camilo. Os seus dois volumes, de “Combates e Críticas”, ainda hoje se podem ler com proveito e muito prazer.
A cultura portuguesa está repleta de equívocos e de confusões, por leviandade e falta de estudo, em boa parte pelos profissionais de Imprensa cuja história ignoram tão escandalosamente quando patenteiam uma indesculpável falta de conhecimento e de cultura.
Ainda hoje se diz nos meios académicos que Fernão Lopes foi o pai da Reportagem. Não é verdade. Fernão Lopes é o nosso maior cronista. Os seus textos não são apenas luminosos, são também profundas reflexões do que é ser português. Lopes não se limitou a descrever o que viu. Ele escreveu baseado em códigos, informações e documentos recolhidos de diversos tombos, sempre tomando partido: a defesa da arraia miúda, a qual sempre fez com uma desenvoltura e caracter inigualáveis.
A crónica moderna é um produto característico da Imprensa. Ninguém escreve crónicas directamente para livros. Escrevem-na para jornais e revistas e, mais tarde, consoante o desejo, ou não, do autor, reúnem-as em volume.
A Reportagem, essa, nasceu na obra-prima de Pero Vaz de Caminha, “Novas do Achamento ou Carta a El Rei D. Manuel I”. Caminha tinha 63 anos em 1500, muito velho para a época, e exercia funções secundárias de escriba. Morreu pouco tempo depois assassinado por piratas em Calecute. Mas a sua “Carta” é um extraordinário documento, uma grande reportagem colorida e cuidadosa, repleta de pormenores e minúcias que constituem um estudo exemplar e incomparável.
Se soubermos folhear e ler as páginas imortais daqueles que nos antecederam, encontramos lá tudo aquilo que precisamos de saber sobre quem fomos e quem somos. E encontramos ainda os sentimentos que em muitos momentos dessa leitura nos enchem de emoção e de orgulho.
Publicado no Minho Digital

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1 Comments:

Blogger Carlos Esperança said...

Joaquim Letria:

É um gosto viajar pela história da imprensa num português imaculado e com as mais estimulantes referências de quem ama a língua em que escreve no país que somos.

Serve para jornalistas e leitores.

Obrigado.

Carlos Esperança

17 de julho de 2020 às 11:14  

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