17.2.08

O belo e o moderno

Foto AB
Por António Barreto
RAZÕES QUE NÃO VÊM AO CASO levaram-me esta semana para Norte. Quase sempre de comboio, que é a melhor maneira de viajar. Primeiro até ao Porto e Gaia. Depois, Régua. Finalmente Pocinho, fim da linha do Douro que já não vai até Barca d’Alva. O regresso foi feito pela mesma via e quase sempre do mesmo modo. Numa parte do percurso, tive a sorte de viajar numa carruagem que permitia uma visão de mais de 180 graus à minha volta. Apesar de Transmontano e Duriense e mau grado já ter feito esta viagem muitas vezes (de comboio, de carro e de barco), as sensações são dificilmente descritíveis. O que poderia ser monótono, vinhedos e mais vinhedos, socalcos e mais socalcos, não o é de todo. A beleza muda de modo, da doçura à rudeza. A paisagem também, do brutal despenhadeiro à suave colina. E mesmo o que é monótono, a sucessão de socalcos e de vinhedos, adquire beleza pela sua geometria, pela sua ligação com as curvas de nível, esposando-as ou contrariando-as. As albufeiras do rio, feitas pelas barragens na segunda metade do século XX, inventaram um novo Douro, mais suave, mas igualmente majestoso. O solo varia, da terra ao calhau, do cascalho de xisto à rocha de granito. As quintas sucedem-se, raramente abandonadas, ricas e imponentes, solares e casebres, pobres e pequenas, de pequenos proprietários, de lavradores médios, de novos empresários e de proprietários absentistas. No Douro, as boas terras produzem e as más trabalham-se. Casas em ruínas são muitas, sinais de outros tempos de cultivo e de outra sociedade, muitas vezes paredes caídas desde as crises da filoxera, do míldio e do oídio, na segunda metade do século XIX. Os socalcos são a imagem de marca, mas a sua variedade é enorme, exibindo diferentes práticas de cultivo e diversas técnicas. Hesito em escolher o que mais me impressiona, se a natureza, se o colossal trabalho humano que foi necessário para tornar aquela região fértil e produtiva. Uma certeza me fica: a de que é possível viver, produzir e trabalhar num sítio, sem estragar nem degradar tudo quanto vive ou quanto existe. Fora das cidades, onde reina a desordem e a sujidade, o Vale do Douro, os seus vinhedos e as suas quintas formam uma região de incalculável beleza.
É verdade que há ameaças. Especuladores turísticos, predadores de toda a espécie, agências de modernização, algumas criaturas vorazes nas autarquias e uns tantos loucos no Estado central querem construir, abrir estradas e auto-estradas, erguer viadutos e pontes sobre os vinhedos: é o que eles chamam desenvolvimento, progresso e aposta no futuro. Mas também há, entre os lavradores, nas localidades, nalgumas autarquias e até no Estado central quem tenha percebido que um certo tipo de desenvolvimento é simplesmente a morte. Responsáveis da Comissão de Coordenação, da “Unidade de Missão” e de certas autarquias mostram-se preocupados com as pressões “modernizadoras”. O Douro vale pelo vinho. Mas também por si próprio. É uma das raras paisagens do país, da Europa e do mundo que associa a natureza à vida económica e a beleza ao património. O Douro já é moderno, não é miserável e arcaico. Mas não destruiu a sua natureza. Vive dela.
VER O DOURO sugere pensar no resto do país. Já nem falo das áreas metropolitanas, nos subúrbios de Lisboa e Porto, nos arredores de algumas cidades de média dimensão, como Viseu ou Braga, sem esquecer as cidades algarvias: nessas, tudo parece perdido, o espaço público destruído, descuidado ou inexistente, com a poluição sonora e visual, o lixo, a ausência de equipamentos colectivos e a natureza destruída. É preciso ser-se muito optimista, com capacidades de resistência moral a toda a prova, para imaginar que será possível, um dia, dentro de décadas, trazer algum conforto, um módico de beleza e um pouco de paz a esses locais. Mas aquilo em que pensei mais foi no Portugal rural, já não necessariamente agrícola, depois do abandono de centenas de milhares de agricultores.
O mundo rural português, cada vez mais despovoado, porque esta é a força das coisas, vai também ficando abandonado e desaproveitado, ou então, em pior estado, queimado e desmazelado. E essa já não é uma inevitabilidade. O descuido e o não aproveitamento são fruto dos homens, sejam eles proprietários ou lavradores, autarcas ou governantes. Ao lado daquele, as áreas rurais que se vão urbanizando, perto das cidades, em volta das áreas de Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Setúbal, Gaia e outras. Esse é o mundo rural feio, sujo e desordenado.
Olhemos em volta, de Norte a Sul. Que sobra de interessante, aproveitado, arranjado e belo em mais de três quartos do território? Uma fracção do Gerês. O Alto Douro. Pequenas áreas de Trás-os-Montes. Um pouco da Serra da Estrela. Parte do Alentejo. Quase todos os Açores, com certeza. E pouco mais. Estas são áreas onde o campo ou é aproveitado e produtivo, mas ainda equilibrado; ou onde é possível encontrar locais pacíficos e repousantes, onde os urbanos podem encontrar reparação, esta que é uma função essencial do campo ou do interior.
OS POLÍTICOS gostam de prometer programas impossíveis e absurdos como os da “revitalização do interior” ou da “fixação das populações nas suas regiões de origem”. Pensam que assim conseguem a adesão do eleitor. Em vez disso, deveriam tão só pensar em tratar as novas áreas despovoadas, cuidar das regiões naturais e proteger e desenvolver a floresta ou outros produtos naturais. Não se trata de cultivar esperanças bucólicas. Mas apenas de ser realista. A urbanização é inevitável e as cidades são o meio natural de vida contemporânea. Para que assim seja, o mundo rural oferece ainda todas as recompensas: natureza, árvores, floresta, caça, pesca, passeio, repouso e reparação. Até turismo, com cuidado. E tudo isto com utilidade económica, desde que cuidada. Conhecem-se áreas despovoadas em França, na Itália, na Escócia, na Irlanda e na Alemanha, sem falar na Escandinávia, onde o campo é rico e cuidado, tem proveito económico e serve os homens, sobretudo os que partiram. É difícil, mas não é impossível imaginar Portugal com o interior rural ou natural belo e cuidado. O montado alentejano, os socalcos durienses e a floresta do Gerês merecem-no. A beleza merece-o.
«Retrato da Semana» - «Público» de 17 de Fevereiro de 2008

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1 Comments:

Blogger JAM said...

Excelente esta reflexão do Senhor Professor António Barreto. Fez-me sentir alguma esperança e desejar que o ideal de belo e o moderno evocado no texto fosse tido como modelo para os decisores do Estado. Infelizmente existem muitas realidades locais nas regiões rurais que demonstram a persistência de erros estratégicos no desenvolvimento sustentável do interior. Eis um exemplo, com foto já desactualizada de 2005, porque a situação visualizada entretanto piorou muitíssimo: http://malveiro.blogspot.com/2007_09_01_archive.html#5565019121781374041.

17 de fevereiro de 2008 às 22:33  

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