17.6.05

«Acontece...»

Quando a televisão lusófona nasce em Madrid

FOI uma semana interessante. A ministra da Cultura de Espanha anunciou, há cinco dias, a criação de um canal de televisão cultural em línguas castelhana e portuguesa, de parceria com o Brasil e o México. Pouco antes, a imensa rede audiovisual ATEI ( Associação de Televisão Educativa Iberoamericana) firmava um acordo com a X Brasil, um operador de comunicação dedicado ao serviço público. Ontem soube-se que o prestigiado Prémio Príncipe das Astúrias vai para a escritora e jornalista brasileira Nélida Piñon. Enquanto Brasil e Espanha avançam decididamente para o reforço das suas relações culturais, Portugal olha para o outro lado, para a viela estreitinha do seu fado europeu, pobrete e obediente, à míngua do que lhe vai sobrar da gamela dos mastins enfurecidos.

O canal cultural em línguas castelhana e portuguesa foi anunciado durante a Conferência Iberoamericana de Cultura, em Córdoba, onde também se assinou uma Carta Cultural do Mundo Iberoamericano. A ministra espanhola Carmen Calvo explicou que é preciso fortalecer, entre outros sectores, a indústria audiovisual iberoamericana. Portugal não apoiou nem contestou, pela simples razão de que não tinha lá ninguém do seu Governo. De modo que o tal canal televisivo e a tal Carta Cultural vão passar-nos por cima da cabeça, em português e tudo.

Nada que não tivesse acontecido antes.

Em Novembro de há dezasseis anos (sim, 1989!) os chefes de estado e de governo dos países lusófonos assinaram, em São Luís do Maranhão, uma pomposa declaração para a criação de um pomposo Instituto Internacional de Língua Portuguesa. Para isso incumbiam a CPLP (a tal Comunidade dos Países de Língua Portuguesa que só existe quando troveja em Bissau) de dar “prioridade à activação” do dito Instituto. Tão robusta foi essa prioridade que ele ainda está por nascer. E a dita CPLP vai renovando alegremente os seus secretários-gerais enquanto cada novo primeiro-ministro de Portugal, em seus discursos de posse, afirma com firmeza que a lusofonia vai ser prioridade inquestionável. E não só primeiros-ministros: Freitas do Amaral, ministro de Estado, acaba de repetir exactamente o mesmo. Constância não nos falta.

O que se passou, entretanto, no mundo de fala castelhana? O oposto... e com vigor. Partindo com três anos de atraso sobre a verborreia de São Luís do Maranhão, uma cimeira iberoamericana de chefes de estado e de governo decide criar a ATEI, organismo para o desenvolvimento da educação na América Latina usando a televisão e outras tecnologias. Hoje essa Associação reúne 22 países e 175 membros (ministérios, televisões, rádios, universidades, organizações não-governamentais e outros) e emite diariamente programas culturais e educativos, cinco horas para a Ibéria e oito horas para as Américas. Usando a internet, há ali televisão, há rádio, videoconferências, foruns, bibliotecas virtuais, transmissões directas de acontecimentos (a recente cimeira América do Sul-Países Árabes em Brasília, por exemplo). Claro que o Brasil está lá, em força, com programas em português - e mais: uma rubrica para o ensino da língua portuguesa. De Portugal, só uma discreta presença solitária: a da Universidade Aberta.

Entretanto, nós por cá, vamos aguardando pelo tal Instituto criado há dezasseis anos em São Luís do Maranhão. E no entanto, não era forçoso que tivesse que ser assim.

Houve um tempo em que todas as televisões de língua portuguesa estiveram reunidas numa organização com estatutos e dinheiro para trabalhar. Foi em 1988, ano em que o espírito visionário de António Braz Teixeira (então na Administração da RTP e agora justamente condecorado no 10 de Junho) trouxe a Lisboa representantes de cinco televisões brasileiras (Globo, Manchete, Bandeirantes, Cultura e Educativa do Rio de Janeiro), das africanas dos cinco países lusófonos e da TDM de Macau. A esse primeiro Encontro seguiram-se um outro no Brasil, logo no ano seguinte, e depois um terceiro em Cabo Verde, em Agosto de 1991, aí já também com a TV Galiza como membro de pleno direito. Discutiram-se e aprovaram-se estatutos, constituíu-se um fundo financeiro, criou-se uma carteira de programas para uso gratuito por qualquer televisão (até a mercantilista Globo ofereceu programas!), alinhou-se uma rede de troca de notícias por satélite e instituiu-se um sistema de intercâmbio de formação profissional. A coisa funcionou de pronto: os programas fluíram, o Brasil enviou técnicos formadores a Maputo, a Galiza abriu sinal para co-produções, Lisboa trabalhou na Europa pelos seus parceiros lusófonos (nomeadamante conseguindo a sua admissão na URTI, em Paris). Foram três anos de fôlego, trabalho e consolidação. Estava criada e activa uma robusta Organização de Televisões de Língua Portuguesa (OTLP). Era obra!

Mas (ó Portugal, Portugal!) quando mudaram os governantes e mudou a Administração da RTP, tudo rapidamente se enterrou e tudo se esqueceu com azedume e acinte.

Já com Durão Barroso no Governo, brota novo arroubo. Chegaram ao Palácio Foz ministros de todos os países lusófonos, botaram-se discursos empolgados e fundadores, levantou-se outra vez o ideal de um entendimento de televisões, falou-se na importância da língua e na urgência da lusofonia como prioridade redescoberta. Na própria RTP, entretanto convenientemente remodelada à imagem dos novos donos, houve quem avançasse com projectos “inovadores”: outra vez estatutos, outra vez fundos, outra vez intercâmbios, outra vez... outra vez... E a Imprensa fez encomiásticas notícias da inédita criação de uma organização de televisões de língua portuguesa!...

Claro que nada disso durou ou funcionou, o governo caiu, outro lhe seguiu, e mais outro depois. Estou para ver quando é que este governo avança para a praça pública, de cinta vermelha assestada e barrete verde em riste, citando novamente o touro das televisões lusófonas. Se isso acontecer, acho que junto toda a papelada amarelecida dos meus arquivos da OTLP, faço cópias e envio-lhas com um cartão: “Repitam, se forem capazes. Repitam, porque o que havia a fazer já se fez e já se desfez. Caso contrário, esqueçam, desistam, distraiam-se, voltem-se todos para a Europa e dediquem-se por inteiro à gamela dos mastins. A ver se nos sobra qualquer coisinha dali...”

E o Brasil? É claro que lhe interessa muitíssimo mais estar com o mundo castelhano, por via das suas afinidades geográficas, económicas e culturais com o Mercosul, do que com os pobretes e alegretes lusófonos. Não haja aí ilusões, por muito que Mário Soares seja simpático aos seus amigos Fernando Henriques e Lula da Silva. É que, justamente, Mário Soares era um dos chefes de estado que estavam em São Luís do Maranhão, nesse Novembro de 1989 de que não resultou nada. Nenhumas dúvidas quanto ao apreço e cordialidade. Mas as relações racionais do Brasil passam, seguramente, mais por Madrid do que por Lisboa.
... De modo que o novo canal de televisão cultural castelhano-português vai-nos passar por cima do quintalinho. Chegaremos ao Brasil às costas dos espanhois.
-
(«A CAPITAL», 17 JUN 2005)

1 Comments:

Anonymous Odete Pinto said...

Passo a passo, divagarzinho, vai-se formando a Ibéria.
Talvez seja o Ovo de Colombo de Portugal no sec.XXI !

18 de junho de 2005 às 19:45  

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