5.9.06

O longo adeus a Plutão (*)

A SAÍDA de Plutão da selecta lista de planetas não é um acto arbitrário dos astrónomos, é o resultado de uma descoberta que se soma a outras.
Raramente um debate científico terá sido tão dramaticamente seguido pelo público. Ao longo de semanas, vinha-se anunciando a possibilidade de Plutão ser relegado para uma classe menor do sistema solar. Mas o mais provável parecia ser o alargamento da lista de planetas. E a proposta primeiramente apresentada à assembleia da União Astronómica Internacional (IAU) salvaguardava o estatuto de Plutão, esse mítico nono planeta, jamais visitado e apenas entrevisto pelos melhores telescópios.
Os planetas e planetas anões do sistema solar, segundo a nova classificação adoptada pela IAU
A meio do longo encontro da IAU em Praga, começou a perceber-se que os astrónomos estavam divididos e que era provável que, ao invés de ser aumentada, a lista de planetas fosse reduzida. E assim aconteceu de facto nessa tarde de 24 de Agosto. De braço no ar, os astrónomos reunidos em Praga aprovaram uma nova definição, que reduz para oito os astros considerados planetas.
Se formos ao início dos inícios, à astronomia da Antiguidade Clássica, reconhecemos planeta como sendo um astro errante que não segue o movimento uniforme das estrelas. O vocábulo, aliás, tem origem no grego planétes, que significava errante ou vagabundo. Errantes eram Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno, assim como o Sol e a Lua. Os planetas eram sete. A Terra não estava incluída. Só com Copérnico, Galileu e Kepler, se entende inequivocamente o sistema solar com o Sol no centro e astros a orbitá-lo. O Sol e a Lua deixaram de ser considerados planetas, juntando-se a Terra a este distinto grupo.
Com a invenção do telescópio vão-se descobrindo novos planetas: Úrano, em 1781, e Neptuno, em 1846. Entretanto, em 1801, descobre-se um astro em órbita entre Marte e Júpiter, que veio a ser chamado Ceres. A princípio, suspeitou-se tratar-se de um cometa, depois de um planeta. Mas, quando se descobriram muitos outros pequenos astros na mesma órbita, colocou-se um dilema: devia Ceres ser considerado um planeta, e portanto muitas dezenas de outros (mais tarde, centenas) também? Ou deviam Ceres e seus companheiros serem considerados planetas menores? Como se sabe, foi esta última ideia que vingou, com a designação de «asteróides».

Noutra escala, os corpos menores comparados com a Terra e Lua

Plutão só foi descoberto em 1930, depois de uma pesquisa épica. Durante décadas nada se passou. Até que, nos fins do século XX, começaram a descobrir-se astros que tinham uma órbita para lá de Neptuno, tal como Plutão, e confirmou-se que estes faziam todos parte de uma larga cintura, chamada de Kuiper, em honra ao astrónomo que postulara a sua existência. O dilema de Ceres repetiu-se: sendo Plutão apenas o primeiro astro conhecido dessa cintura, será que muitos outros de dimensão semelhante iriam ser descobertos?

Em 2002, descobriu-se Quaoar, com um diâmetro de 1.200 km. No ano seguinte, descobriu-se Sedna, com um diâmetro de quase 1.800 km. São dimensões muito inferiores às da Terra, que tem quase 13.000 km de diâmetro, ou mesmo da Lua, que tem 3.476 km. Mas são dimensões comparáveis às de Plutão, que tem 2.390 km. A descoberta mais séria foi depois feita por Michael Brown. Foi a de um astro que este designou por Xena (2003 UB313), e que há cerca de um ano se verificou ter um diâmetro que é vez e meia o de Plutão.

Manter Plutão na classe de planetas obrigaria a aí incluir também Xena tal como, possivelmente, Quaoar e Sedna. E tal como, seguramente, muitos outros que entretanto virão a ser descobertos.

Os astrónomos agora reunidos em Praga definiram planeta como sendo um astro que orbita o Sol, que tem massa suficiente para a sua gravidade o obrigar a assumir forma aproximadamente esférica e que consegue dominar gravitacionalmente a região da sua órbita. Plutão não cumpre este terceiro critério, a sua órbita cruza-se com a de Neptuno. Ficou classificado como «planeta anão».

Curiosamente, há cerca de um ano, em 4 de Agosto de 2005, noticiámos a descoberta de Xena com uma crónica intitulada «Descoberto menos um planeta». Tal foi de facto o efeito dessa descoberta: obrigar a uma redefinição de planeta. E essa redefinição, como era já então plausível, obrigou a despromover aquele astro que era, até há dias, o nono planeta do sistema solar.

Feito o balanço, o sistema solar não passou a ter menos astros. A reclassificação dos satélites do Sol é o resultado de grandes descobertas astronómicas. É o resultado do progresso da ciência.

(*) Adaptado do «Expresso»

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Nós já estávamos tão habituados a plutão que o considerávamos da nossa família. Os astrónomos são uns ingratos, Plutão faz parte do nosso imaginário colectivo e por isso já possui um estatuto que as outras pedras que estão agora a ser descobertas nunca possuirão.
Para não haver confusão acerca do que é ou não planeta, e visto que já existem tantas regras, bastava criar mais uma: só se considera planeta do sistema solar, toda a pedra de determinadas dimensões(a estipular), que orbite o sol e com um semieixo maior da órbita inferior a 40 U.A. (6.000.000.000 kms).

5 de setembro de 2006 às 11:30  
Blogger Fernando Martins said...

Concordando em absoluto com o Doutor Nuno Crato, tomei a liberdade de citar este post, na íntegra e com citação de origem e autor, nos Blogues Geopedrados e AstroLeiria.

7 de setembro de 2006 às 16:19  

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