16.6.10

Jamais

Por João Paulo Guerra

UM ANTERIOR MINISTRO do actual Governo garantiu aos portugueses que a A23, a auto-estrada “sem custos para o utilizador” (SCUT) que liga Torres Novas à Guarda nunca seria alvo do pagamento de portagens. Jamais. A promessa valeu tanto como o “jamais” da localização do novo aeroporto de Lisboa no deserto da margem sul do Tejo. Não está em causa a pessoa do ministro que, como qualquer outro membro de qualquer outro governo, só dispõe da palavra que o primeiro-ministro lhe dá. Porque a grande questão é esta: os líderes políticos passaram a achar muito natural dizerem hoje uma coisa e amanhã outra, prometerem e não cumprir. Até houve um primeiro-ministro português que perguntava para os seus ministros quando tinha que anunciar uma medida: “como é que os vamos enganar?”. “Os”, neste caso, eram os portugueses, cidadãos, eleitores, contribuintes.

A introdução de portagens nas auto-estradas “sem custos para os utilizadores” é a última exibição de velhacaria política. Os políticos prometem para chegar ao poder e, chegados ao poder, não cumprem. Ou, pelo menos, procuram não cumprir. Porque no caso das SCUT há quem sustente que a cobrança de portagens simplesmente não será possível. Há mesmo um amigo meu, o Carlos Medina Ribeiro, grande praticante da blogosfera, que já apostou um almoço de lagosta – e já ganhou um, embora não tenha recebido a aposta – sobre a inviabilidade da inexplicável e inexplicada forma de cobrança de portagens nas SCUT por meios 100 por cento electrónicos. Ou seja, um pagamento semelhante à Via-Verde, necessariamente associado a uma conta bancária, que ninguém pode ser obrigado a ter.

Mas para o caso das SCUT o que conta é a intenção. E a intenção do Governo é não cumprir a palavra dada, segundo a qual, portagens nas SCUT, jamais.

«DE» de 16 Jun 10

NOTA (CMR): fiquei de boca aberta quando, hoje, vi o meu nome escarrapachado nesta crónica! Mas mantenho tudo o que disse, nomeadamente [aqui], com especial destaque para a aposta que nem os mais fervorosos adeptos do Governo aceitam! Será que sofrem todos de colesterol, ou do curioso complexo do padre ateu?

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6 Comments:

Blogger Mg said...

O Medina Ribeiro quer é almoçar à pala de um membro do Governo! :)

Essa é que é essa!

Não empate os homens, homem... :)

16 de junho de 2010 às 12:39  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Esclareça-se que o que eu tenho escrito sobre este assunto nada tem a ver com o facto de as autoestradas terem ou não terem portagens.

Tem apenas a ver com o aspecto técnico das anunciadas portagens 100% electrónicas.

Agora, anuncia-se o bizarro aluguer de identificadores com caução, e hoje lê-se na imprensa o regresso da ideia de fotografar as matrículas - e mandar a conta para casa, suponho.
Com a eficiência actual dos nossos CTT, esta é mesmo para rir, não é?

--

E tudo isto a 2 semanas de "a coisa" entrar em serviço...
Trata-se, a meu ver, de um bom exemplo do que é governar em cima do joelho...

16 de junho de 2010 às 13:09  
Blogger Manuel Brás said...

"Panem et circenses" para...

Este país afidalgado
porta-se como um charlatão,
tantos fundos tem estragado
edificando muito betão.

A matéria febricitante
dessas obras estruturais
ganha um fragor irritante
em comportamentos tão florais.

Esta lógica indigente
gastadora de muitos milhões
é abertamente pungente
ao parasitar os mexilhões.

16 de junho de 2010 às 17:53  
Blogger R. da Cunha said...

Para além do mais (e é muito), as SCUTs que vão ser pagas têm troços sem pagamento, por não haver (nem poder haver) pórticos. Isto é, pode circular-se neles sem pagamento, sendo que, em contíninuo, tudo é pago. Mas quem entra sem pórtico e sai com pórtico, paga o quê. E vice-versa.

16 de junho de 2010 às 19:27  
Blogger Sepúlveda said...

SCUT significa Sem Custos para o UTilizador?

Vai passar a ser CCUT? Não dá jeito nenhum dizer CCUT. Podem ser Com Alguns e assim já fica CACUT. Já parece mais kaput.

17 de junho de 2010 às 10:37  
Blogger GMaciel said...

A idiotia não paga imposto e percebe-se porquê: o governo em peso seria o primeiro pagante.

Pena, talvez com esse imposto se saldasse a dívida externa.

17 de junho de 2010 às 17:21  

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