4.11.11

Política

Por João Paulo Guerra

QUATRO em cada dez portugueses reconhecem que não têm qualquer interesse pela política, de acordo com os dados do último inquérito European Social Survey.

Estes serão certamente os portugueses que vêem a política como mero folclore, um festival de demagogia e uma feira de vaidades, e não como alguma coisa que lhes mexe nos bolsos e no destino. Ou então, o que é mais provável, os que entendem que a política, embora tendo a ver com o seu presente e com o futuro dos seus filhos, se desenvolve independentemente da sua intervenção, pelo que tanto faz como fez que tomem posição, prestem testemunho, participem.

Porque verdadeiramente sinistro entre os dados do European Social Survey é o que revela que os portugueses registam a maior percentagem dos europeus que dizem que não têm confiança alguma nas instituições. Claro que há aqui um peso ancestral dos tempos em que os portugueses eram ensinados a pensar que a sua política era o trabalho e, já agora, a obedecer sem questionar fosse o que fosse. Ainda há portugueses desse tempo mas, bem pior, é que essa mentalidade se instalou como uma virtude nacional, uma sabedoria popular ou esperteza saloia. O 25 de Abril quebrou esse enguiço mas foi sol de pouca dura.

Depois, há que ter em conta que a realidade política e social em Portugal não tem sido de molde a inspirar confiança aos cidadãos. A falta de palavra como regra da actividade política, a política dos interesses pessoais e de grupo, a manipulação das opiniões apresentando como imutáveis as desigualdades, como inevitáveis a riqueza de uns e a pobreza de outros, são instituições que desacreditam a democracia e enxovalham a política. O que dá muito jeito a uma concepção de política em que só as moscas mudam.
«DE» de 4 Nov 11

Etiquetas: ,