3.10.13

A intransigência é sempre um boato

Por Ferreira Fernandes
A VELHA máxima "maluco, maluco, mas não senta o cu no fogão" diz-nos que há esperança de que as estribeiras não são nunca totalmente perdidas... Quer dizer, maluco, maluco, individualmente, ainda talvez os haja: Silvio Berlusconi, por exemplo, parecia capaz de dar, num país à frente do precipício, o passo em frente. Condenado a quatro anos de pena de prisão e em risco de perder a imunidade parlamentar, Berlusconi resolveu arrastar o seu partido (PDL) no tudo por tudo. No sábado, os seus cinco ministros anunciaram a demissão, saindo da coligação que tirara, há poucos meses, a Itália do impasse político. Seria que o PDL ia suicidar-se ou pelo menos chamuscar o rabo? Parecia que sim. Angelino Alfaro - o ministro da Justiça, fidelíssimo de Il Cavaliere (como Brutus por Júlio César) - foi o porta-voz das demissões. O velho Presidente Napolitano e o primeiro-ministro Letta não aceitaram as demissões e pediram, ontem, um voto de confiança no Parlamento. Berlusconi continuou intransigente e (pensávamos nós) com ele o seu partido: "Vamos votar contra." Na terça, porém, na mão de Alfaro apareceu o punhal (também conhecido por "horror" pelos fogões) que costuma aparecer nos fidelíssimos e apelou a votar a favor do Governo. Surpreendido, como todos os que andam à frente sem olhar para trás, o próprio Berlusconi recuou, ontem. Se já estar sentado no fogão é incómodo, sozinho é insuportável.
«DN» de 3 Out 13

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