30.4.14

O repórter esquecido

Por Baptista-Bastos
Revejo-lhe o sorriso claro, o sentido religioso da vida, a beleza sem mácula de gostar dos outros, a capacidade de compreender a grandeza dos desventurados, essa reserva no sofrimento e essa total deposição de glória. José Antunes, meu camarada, meu parceiro de andejos por montes e vales, no varejo da reportagem, no garimpo do oiro da notícia. E ouço-o: "Vamos a isto, amigo Bastos!, vamos a isto!" Sempre me tratou assim, amigo, num laço de afecto que durou até ao fim da sua vida. "Como é que está o amigo Bastos?", perguntou à mulher, sabedor de que eu fora internado, pela mesma ocasião em que, a ele próprio, a cirurgia tentava extrair um tumor no cérebro. Dias trágicos, dramáticos ou radiosos, esses, em que, no Diário Popular, oferecemos tudo o que havia a oferecer. Ele com a máquina fotográfica sempre pronta a disparar; eu com o coração sem rugas a procurar descobrir o que se escondia, nos outros, para lá do meu olhar.
Percorro, agora, os jornais, as revistas e as televisões que recuperam muitas e muitas imagens obtidas pelo meu amigo, há quarenta anos, na festa de Abril. Nem uma leva o nome do autor, num anonimato obsceno, que tem muito que ver não só com ignorância, mas também com inveja e com o desprendimento ético do meu amigo. Durante esses dias tumultuosos e febris o Zé Antunes fotografou tudo o que era imprescindível fotografar. Uma tarde, revelou-me que tinham "desaparecido", do laboratório do jornal, três rolos de negativos por ele considerados "históricos." Disse-o sem lamúria nem queixume, acentuando, apenas, que desconfiava de quem fora o usurpador.
Um mestre no fixar do instante mágico; um artista que apreciava a incomparável ternura humana, e detestava a brutalidade da fome, da miséria e do infortúnio marcante nas classes pobres de onde ele e eu provínhamos. Era, acaso, essa origem que nos aproximava, dois feitios opostos, ele calmo, sereno e conciliador; eu, brigão, agitado, mas também cheio de compaixão pelos outros.
O Pedro Foyos, da mesma, já rara, estirpe antiga, chegou a organizar um livro de fotos do amigo comum. Mas o grande acervo de imagens talvez a família ainda o retenha: um modo diferente, mas muito belo, de olhar a cidade e de a cidade falar como quem olha e fala da coisa amada.
Anda por aí um bulício de aplausos e uma cerimónia de entrega de louros imerecidos, a quem somente tem sabido sobreviver às contingências do momento. O Zé Antunes foi um dos maiores repórteres fotográficos deste país; um jornalista cujo génio se escondia numa modéstia elegante. Mergulhou no tempo que lhe coube viver com a consciência de quem quer dizer dos outros a natureza da sua pessoal grandiosidade. Com uma máquina fotográfica que, nas mãos dele, possuía alma e coração.
«DN» de 30 Abr 14

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1 Comments:

Blogger brites said...


Ainda bem que há alguém que não deixa cair no esquecimento total pessoas com mérito profissional e pessoal.
vai sendo crescentemente raro homenagear Gente.
a tendência é plantar medalhas na gentalha que se serve dos lugares apenas para promoção pessoal e familiar e os abutres como eles, que fazem giro... até as promessas e os favores serem pagos.

2 de maio de 2014 às 14:06  

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