27.9.19

Velórios e a Arte do Adeus

Por Joaquim Letria
Os organizadores de eventos sociais, como agora se diz, deviam dedicar mais atenção aos velórios. Cada vez parecem mais rápidos, menos sentidos e servirem de pretexto para marcar reuniões, almoços e jantares, mas apresentam-se muito descuidados.
Antigamente é que havia velórios a sério. Ia-se para a igreja de farnel, ou esperava-se pelo pequeno almoço e um velório de alguém que se prezasse levava os familiares do ente querido a irem a casa tomar banho ou dormir um bocadinho. As viúvas e viúvos eram esposos a sério naquela circunstância…
Juro que nunca fiz isso, mas tinha uns amigos malandrecos que saíam das sessões de cinema da meia noite, ou dum bar ou cabaret e iam comer a um velório qualquer, já que muitos tinham mesa posta e estes marotos mostravam um ar compungido, cumprimentavam os familiares e abancavam no corredor da igreja onde estavam expostas as vitualhas. Ninguém perguntava quem era quem, e só os amigos malandrecos do lado do defunto percebiam a martingala.
Estes velórios a sério acabaram quando ladrões de verdade começaram a limpar estas reuniões, sacando relógios, anéis, carteiras e dinheiro vivo. As igrejas e as famílias marcaram então horário até à meia noite e hoje um velório é um corpo estendido num caixão e uns amigos que passam por lá e já está. Também em vez do silêncio respeitoso ou do ar compungido que todos deviam mostrar, assim que os gatos pingados soldam o caixão e o despacham porta fora começam a bater palmas que em vez de parecerem significar aplauso e gratidão por uma vida preenchida mais parecem estar a pôr o extinto a andar.
Dizer adeus é uma arte. Não é fácil lidar com a perda dos outros, saber como nos devemos comportar nestas despedidas, principalmente quando anda tudo, ou vai andar, nas redes sociais. Ainda antes de se chegar ao cemitério, para aqueles que participam num funeral, acompanhando o féretro, já vem tudo no Facebook ou no Instagram, dizendo que a ex foi mal recebida pelos filhos da actual, que fulano se mostrava inconsolável ou que sicrana teve o descaramento de se apresentar no velório. Claro que no meio disto tudo há aqueles que dizem ter sido muito amigos do defunto na esperança de aparecerem na TV ou serem vistos nas redes sociais.
Hoje só conta quem ganha e tem uma vida de êxitos. Morrer é perder. O busílis é que a gente pode passar uma longa vida a ganhar tudo que acabamos todos por perder tudo. Assim nós possamos perdurar ao nosso próprio velório.
Publicado no Minho Digital

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3 Comments:

Blogger 500 said...

Em tempos que lá vão, os velórios eram feitos em casa e duravam a noite inteira, havendo comes bebes e onde apareciam, como diz, os intrusos que só lá iam para o efeito. E havia também outra espécie: as carpideiras. Não raras vezes o soalho cedia e ia tudo, padre e defunto incluídos, parar à loja do porco.
Hoje, é como diz.

27 de setembro de 2019 às 18:15  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

E que tal o gajo que chega a um velório e pergunta:
— Desculpe. Sabe dizer-me a password do Wi.Fi?
— Respeite o morto, cavalheiro!
— Com maiúsculas?

27 de setembro de 2019 às 20:39  
Blogger Ilha da lua said...

Exactamente ,porque dizer adeus tem arte...poderemos escolher,antecipadamente,quem se irá despedir de nós

27 de setembro de 2019 às 21:25  

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