14.9.19

No "Correio de Lagos" de Ago 19

«Considerando apenas os “grandes fogos” (mais de 100 ha), a área ardida, em Portugal e nos últimos 30 dias, foi superior à de Espanha, França e Grécia juntas»
(Lab. Fogos Univ. Trás-os-Montes e Alto-Douro)
QUANDO chega a “época dos fogos”, a conversa é sempre a mesma e inclui, invariavelmente: as alterações climáticas, o desordenamento florestal, os pirómanos, os “negócios do fogo”, a Protecção Civil, o SIRESP, os concursos para os meios aéreos, a actuação dos bombeiros, os eucaliptos... além das mais diversas descoordenações, incompetências e corrupções — sem contar com as intermináveis reportagens das TV, pontuadas por intervenções de políticos que, entre uma e outra lágrima de crocodilo, nos garantem que “a culpa é do governo anterior”. 
Mas, e salvo melhor opinião, a floresta arde, porque não pode deixar de arder: as árvores estão lá, mas não os seus donos; o mato está lá, mas não quem o roce; já não há cabras, essas incansáveis sapadoras; o alarme, quando é dado, é muitas vezes tardio, por falta de quem o dê a tempo; os que acorrem em pessoa já são poucos e idosos — e por aí fora, porque o país, como sucede no mundo todo, deixou de ser “rural”: os poucos que ainda por lá andam estão sem forças, já que os outros há muito debandaram dessas paragens. E quanto a reverter o irreversível... responda quem souber.
A propósito disso, vale a pena ler o que Tolstoi escreveu em “Guerra e Paz”, faz agora 150 anos, acerca do famoso incêndio de Moscovo, quando, em finais de 1812, Napoleão ocupou a cidade:

«As [suas] causas não podem imputar-se concretamente a ninguém. Moscovo ardeu porque se encontrava colocada em tais condições que qualquer outra cidade construída em madeira devia arder de forma análoga, independentemente de poder ou não recorrer às suas 130 bombas. Moscovo devia arder porque os habitantes partiam. Era tão inevitável como a inflamação dum monte de aparas sobre o qual, durante vários dias, caíam faúlhas. Uma cidade construída de madeira, na qual, mesmo quando ali se encontravam os proprietários e a polícia, se produziam todos os dias incêndios, não podia de maneira alguma deixar de arder quando já não havia habitantes (...). O patriotismo feroz de Rostoptchine e a selvajaria dos franceses não entram aqui para nada. Moscovo ardeu por causa dos cachimbos, das cozinhas, das fogueiras, da falta de cuidado dos soldados habitantes, mas não proprietários das casas. Mesmo se houve incendiários (...) não é possível pô-los em causa, porque, sem eles, teria sido a mesma coisa. Por lisonjeiro que seja para os franceses acusar a ferocidade de Rostoptchine e para os russos a barbaridade de Bonaparte, ou, mais tarde, pondo um facho heróico nas mãos do seu povo, não se pode deixar de ver que tal causa imediata de incêndio não podia existir, porque Moscovo devia arder, como deve arder toda a cidade, fábrica ou casa cujos amos partiram (...). Moscovo foi queimada pelos habitantes, é certo, mas por aqueles que partiram e não por aqueles que ali ficaram».
CONCLUSÃO: Diz-se que “O Homem só aprende por catástrofes”, mas não faltam casos em que nem com elas aprende — e a prova de que o flagelo dos fogos é um deles é que esta crónica é, quase sem tirar nem pôr, a que publiquei em 14 de Agosto de 2010 no blogue ‘Sorumbático’ (sorumbatico.blogspot.com).

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1 Comments:

Blogger C. Eliseu said...

Grato pelo texto de Tolstoi.
O cenário extremo, oposto ao que Junot achou em Lisboa, a ausência da Corte.
O incêndio de Roma. E também o declínio do califado de Córdova: consecutivos incêndios sucediam-se nas revoltas internas - até à divisão em 'taifas' e depois a extinção - pela exigência de benefícios.

14 de setembro de 2019 às 13:11  

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