14.8.20

A Multa que os Pariu

Por Joaquim Letria
Um querido amigo meu anda desoladíssimo por ter sido multado. Não pelo valor da multa, que foi elevado e que ele prontamente pagou mas pela injustiça que lhe estragou o cadastro limpo há décadas e o fez perder pontos na carta de condução até aí imaculada.
Homem sério e de posses não foi por ter de esportular o dinheiro da multa que ficou muito magoado, foi pelo critério do agente que, no seu entender, muito injustamente o multou. E explicando-me as circunstâncias, obviamente que tinha razão.
Mas se este meu amigo anda com este estado de espírito por ser vítima duma injustiça, tenho um outro que aqui há tempos também foi multado e ficou para sempre com um estado de alma do qual nunca se refez. Mas esse não foi na estrada que o multaram nem perdeu pontos na carta. Foi num combóio alfa pendular que usava todas as semanas em viagens de longo curso e de ida e volta no mesmo dia. Com mais de 65 anos de idade, esse meu amigo comprava sempre um bilhete de ida e volta com direito a preço reduzido por ter a idade dos  reformados. De manhãzinha cedo, ao chegar à bilheteira, reparou que não trazia consigo o cartão de cidadão que atestava o seu direito àqueles bilhetes. Porém, simpaticamente, o funcionário da bilheteira disse-lhe para não se preocupar, assim como já a bordo o mesmo lhe disse o revisor.
No início dessa noite o meu amigo voltou a apanhar outro combóio para regressar a casa.
— Mostre-me o cartão de cidadão — pediu o revisor que já o conhecia doutras viagens.
O meu amigo explicou que se esquecera dele e referiu a simpatia do senhor da bilheteira e do revisor do comboio de ida e teve ainda uma ideia:
— O senhor já me conhece, mas eu telefono à minha mulher e ela vai estar à  nossa chegada com o cartão de cidadão para o senhor comprovar.
— O regulamento diz que o senhor tem de viajar acompanhado por um documento comprovativo. Portanto isso não serve de nada. Vou cumprir as normas do regulamento.
Para encurtar razões: o meu amigo desembarcou como qualquer carteirista escoltado por dois agentes da PSP chamados para o efeito, que o conduziram à esquadra onde tomaram conta da ocorrência. Moral da história: o meu amigo recorreu à administração da CP, mas ocupada a destruir a companhia ela remeteu-o para o Instituto da Mobilidade e Transporte que também desperdiçou essa oportunidade para comprovar ter alguma utilidade, não respondendo sequer ao meu amigo que, para evitar juros de mora e mais maçadas pagou uma multa de 800 euros.
— Ide para a multa que os pariu! - disse-lhes ele depois de pagar. Não sabemos se foram…
Publicado no Minho Digital

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2 Comments:

Blogger opjj said...

Não sei sei o porquê de tanta admiração? Isto é um país de gente muito séria!
Isso aconteceu-me à entrada do Continente.
Pior do que isso é quando estão escondidos com uma caçadeira nas mãos nas estradas Á ESPERA DE COELHOS!
Li que importaram mais 70 máquinas para desenvolver a indústria da multa!
Bem haja

14 de agosto de 2020 às 19:45  
Blogger Dulce Oliveira said...

Assustador para gente como eu que anda sempre com a a cabeça no ar.
Já me aconteceu não me venderem o bilhete (com o desconto, claro) por não ter CC comigo

16 de agosto de 2020 às 14:15  

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