27.8.20

UM CRIME CONTRA O PATRIMÓNIO NATURAL

 


Por A. M. Galopim de Carvalho

Neste momento estamos a viver um período em que temos outras urgências bem mais gritantes (a da saúde, a da economia…) não é oportuno insistir na concretização do projecto de construção do Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo (Carenque), anexo à jazida com pegadas de dinossáurio, da antiga pedreira de Santa Luzia, aprovado pela autarquia sintrense em 2001, há, portanto, quase vinte anos.

Mas é necessário e urgente travar a degradação e destruição, em curso, da laje que contém as pegadas, protegendo eficazmente o que resta da jazida, na espera de melhores dias.

Mas também é necessário denunciar um crime contra um importante património natural, classificado oficialmente, como Monumento Natural, em 1897 (Decreto nº 19/97, de 5 de Maio), por proposta minha, enquanto director do Museu Nacional de História Natural. E esse crime é o total abandono deste património, ao longo destes quase vinte anos, por parte dos responsáveis, por lei, em protegê-la, não obstante as muitas insistências que foram feiras, quer directa e pessoalmente, quer através da comunicação social.

Diz o Artigo 7º, do mesmo Decreto, que cabe ao Instituto de Conservação da Natureza “e das Florestas” e à Câmara Municipal de Sintra a fiscalização e, portanto, a protecção deste Monumento Natural 

A verdade é que, nestes quase 20 anos, gastos que foram cerca de 8 milhões de euros (na abertura dos dois túneis da CREL) a jazida está transformada numa autêntica lixeira, onde a vegetação arbustiva e arbórea cresce livremente, destruindo a delgada laje que contém as pegadas. 

 

Lembremos que a dita laje corresponde a uma camada de calcário argiloso muito delgada (10 a 15 cm de espessura) e frágil, com cerca de duas centenas de pegadas, de onde sobressai, pela sua excepcional importância, um trilho com 132 metros de comprimento, no troço visível, formado por marcas subcirculares, com 50 a 60cm de diâmetro, atribuídas a um dinossáurio bípede. Além deste, considerado, na altura (e ainda é), o mais longo trilho contínuo da Europa, identificaram-se, na mesma superfície, pegadas tridáctilas, atribuíveis a carnívoros (terópodes), parte delas igualmente organizadas em trilhos.

A topografia do terreno permite uma boa adaptação do local aos fins em vista, dispondo do lado SW de um pequeno relevo (residual da exploração da pedreira) adaptável, por excelência, a miradouro, de onde se pode observar, de um só golpe de vista e no conjunto, toda a camada – uma imensa laje pejada de pegadas – levemente basculada no sentido do local do observador, numa panorâmica de justificada e invulgar grandiosidade. 

 

Sempre procurei mostrar que o grande potencial turístico deste Monumento Natural está ainda no facto de a jazida se situar na vizinhança de uma grande metrópole e numa região de intensa procura turística (Sintra, Queluz, Belas) e, ainda, o de ser servida por duas importantes rodovias, a via rápida Lisboa-Sintra (IC-19), por Queluz, e a Circular Regional Externa de Lisboa (CREL-A9) que a torna acessível pelo nó de Belas e, no futuro, mais comodamente, pelo de Colaride.

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1 Comments:

Blogger Carlos Esperança said...

Caro Amigo:

Sinto raiva da falta de eco da sua luta nos média, mais interessados na intriga do que na defesa do património, mas felicito-o pela persistência, exercício da cidadania e exemplo cívico que nos dá. Um abraço.

27 de agosto de 2020 às 11:13  

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