7.1.08

Sócrates e a liberdade

Por António Barreto
EM CONSEQUÊNCIA DA REVOLUÇÃO DE 1974, criou raízes entre nós a ideia de que qualquer forma de autoridade era fascista. Nem mais, nem menos. Um professor na escola exigia silêncio e cumprimento dos deveres? Fascista! Um engenheiro dava instruções precisas aos trabalhadores no estaleiro? Fascista! Um médico determinava procedimentos específicos no bloco operatório? Fascista! Até os pais que exerciam as suas funções educativas em casa eram tratados de fascistas.
Pode parecer caricatura, mas essas tontices tiveram uma vida longa e inspiraram decisões, legislação e comportamentos públicos. Durante anos, sob a designação de diálogo democrático, a hesitação e o adiamento foram sendo cultivados, enquanto a autoridade ia sendo posta em causa. Na escola, muito especialmente, a autoridade do professor foi quase totalmente destruída.
EM TRAÇO GROSSO, esta moda tinha como princípio a liberdade. Os denunciadores dos “fascistas” faziam-no por causa da liberdade. Os demolidores da autoridade agiam em nome da liberdade. Sabemos que isso era aparência: muitos condenavam a autoridade dos outros, nunca a sua própria; ou defendiam a sua liberdade, jamais a dos outros. Mas enfim, a liberdade foi o santo e a senha da nova sociedade e das novas culturas. Como é costume com os excessos, toda a gente deixou de prestar atenção aos que, uma vez por outra, apareciam a defender a liberdade ou a denunciar formas abusivas de autoridade. A tal ponto que os candidatos a déspota começaram a sentir que era fácil atentar, aqui e ali, contra a liberdade: a capacidade de reacção da população estava no mais baixo.
POR ISSO SINTO INCÓMODO em vir discutir, em 2008, a questão da liberdade. Mas a verdade é que os últimos tempos têm revelado factos e tendências já mais do que simplesmente preocupantes. As causas desta evolução estão, umas, na vida internacional, outras na Europa, mas a maior parte residem no nosso país. Foram tomadas medidas e decisões que limitam injustificadamente a liberdade dos indivíduos. A expressão de opiniões e de crenças está hoje mais limitada do que há dez anos. A vigilância do Estado sobre os cidadãos é colossal e reforça-se. A acumulação, nas mãos do Estado, de informações sobre as pessoas e a vida privada cresce e organiza-se. O registo e o exame dos telefonemas, da correspondência e da navegação na Internet são legais e ilimitados. Por causa do fisco, do controlo pessoal e das despesas com a saúde, condiciona-se a vida de toda a população e tornam-se obrigatórios padrões de comportamento individual.
O CATÁLOGO É ENORME. De fora, chegam ameaças sem conta e que reduzem efectivamente as liberdades e os direitos dos indivíduos. A Al Qaeda, por exemplo, acaba de condicionar a vida de parte do continente africano, de uma organização europeia, de milhares de desportistas e de centenas de milhares de adeptos. Por causa das regulações do tráfego aéreo, as viagens de avião transformaram-se em rituais de humilhação e desconforto atentatórios da dignidade humana. Da União Europeia chegam, todos os dias, centenas de páginas de novas regulações e directivas que, sob a capa das melhores intenções do mundo, interferem com a vida privada e limitam as liberdades. Também da Europa nos veio esta extraordinária conspiração dos governos com o fim de evitar os referendos nacionais ao novo tratado da União.
MAS NEM É PRECISO IR LÁ FORA. A vida portuguesa oferece exemplos todos os dias. A nova lei de controlo do tráfego telefónico permite escutar e guardar os dados técnicos (origem e destino) de todos os telefonemas durante pelo menos um ano. Os novos modelos de bilhete de identidade e de carta de condução, com acumulação de dados pessoais e registos históricos, são meios intrusivos. A videovigilância, sem limites de situações, de espaços e de tempo, é um claro abuso. A repressão e as represálias exercidas sobre funcionários são já publicamente conhecidas e geralmente temidas. A politização dos serviços de informação e a sua dependência directa da Presidência do Conselho de Ministros revela as intenções e os apetites do Primeiro-ministro. A interdição de partidos com menos de 5.000 militantes inscritos e a necessidade de os partidos enviarem ao Estado a lista nominal dos seus membros é um acto de prepotência. A pesada mão do governo agiu na Caixa Geral de Depósitos e no Banco Comercial Português com intuitos evidentes de submeter essas empresas e de, através delas, condicionar os capitalistas, obrigando-os a gestos amistosos. A retirada dos nomes dos santos de centenas de escolas (e quem sabe se também, depois, de instituições, cidades e localidades) é um acto ridículo de fundamentalismo intolerante. As interferências do governo nos serviços de rádio e televisão, públicos ou privados, assim como na “comunicação social” em geral, sucedem-se. A legislação sobre a segurança alimentar e a actuação da ASAE ultrapassaram todos os limites imagináveis da decência e do respeito pelas pessoas. A lei contra o tabaco está destituída de qualquer equilíbrio e reduz a liberdade.
NÃO SEI SE SÓCRATES É FASCISTA. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu governo. O Primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas.
TEMOS DE RECONHECER: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. A passividade de tanta gente. Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo...
«Retrato da Semana» - «Público» de 6 de Janeiro de 2008
NOTA (CMR - 9 Jan 09) - dado que os comentários a esta crónica foram retomados quase 1 ano depois, pede-se aos interessados no assunto que "passem" ao post que dedicado a ele - [aqui].

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14 Comments:

Blogger António Viriato said...

Excelente e oportuno artigo de António Barreto. Talvez lhe devêssemos chamar depoimento corajoso, a denunciar a presente cegueira política, dos que olham mas não vêem, ouvem mas não entendem, lêem mas não alcançam.

Um dia, que já não virá longe, os socialistas, os verdadeiros, os de conveniência e os que não sabem sequer o que são, terão vergonha da sua mudez, da sua cegueira, da sua omissão, da sua conivência com a mistificação socrática.

Entre os comentadores de tribuna dourada, valha-nos São Barreto, São VPV, São BB e poucos mais. Com eles, ainda conservamos alguma dignidade. Mesmo se improfícua.

AV_07-01-2008

7 de janeiro de 2008 às 01:59  
Blogger João Ricardo Vasconcelos said...

Bem... Artigo muito poderoso.
Mais um entre os diversos que, de forma assertiva, têm sido escritos por António Barreto nos últimos meses criticando o Governo de Sócrates.
De qualquer modo, não pode passar despercebida a seguinte frase:
"O Primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade (...) que Portugal conheceu nas últimas três décadas."
Vinda de António Barreto, diria que é uma das acusações mais ferozes feitas ao Governo PS nos últimos tempos.

7 de janeiro de 2008 às 02:38  
Blogger maria_maia said...

Nos tempos que correm, todas as palavras de ALERTA, são bem-vindas e necessárias, no combate à apatia ou cegueira generalizadas, que se instalaram no povo português, que persiste em manter a tradição dos seus “brandos costumes”... isto é, na maioria das vezes, o “come e cala”...

A minha vénia a todos os que sabem fazer tão bom uso da palavra escrita.

Pena que não haja mais e melhores hábitos de leitura entre os portugueses. Só mentes esclarecidas conseguem vencer e ultrapassar os seus próprios medos...

7 de janeiro de 2008 às 03:17  
Blogger Cidadão do Mundo said...

Antes de mais devo dizer que nunca simpatizei com Antonio Barreto (acho que por causa da antiga história da reforma agrária) mas este seu comentário é o essencial que nos une neste momento e isso é o que interessa. Parabens!

7 de janeiro de 2008 às 13:09  
Blogger joshua said...

O que vai calando os Portugueses é a covardia: há depois um movimento inverso ao que conduziu à Revolução de Abril. Se o desejo de reunião e de associação eram então intensos, hoje o atomismo dos indivíduos, a sua reclusão defensiva atrás dos seus computadores ligados à Internet, a sensação de isolamento e solidão fazem-nos presas fáceis das Fauces Terríveis de uma Maria de Lurdes e de um Correia de Campos ou, claramente, de um Sócrates.

Mas isto pagar-se-á caro. O que o António Barreto denuncia ainda é eufemismo. A realidade, essa dói.

Abraço
PALAVROSSAVRUS REX

7 de janeiro de 2008 às 14:11  
Blogger Jack said...

Mais uma crónica de AMB que, como já nos habituou nestes últimos tempos, é, infelizmente, a mais pura verdade, quer o nosso ego goste quer o repudie. A frase com que ele termina o artigo “tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos” atingiu-me, fez-me sentir a dor da inactividade, a dor dos que não têm coragem para se opor aos que nos governam, nos dominam e quase nos retiram o ar que respiramos. Como se isto não bastasse, de seguida, caio desamparadamente no solo quando AMB acrescenta “A passividade de tanta gente”, sim, “passividade” é o termo mais correcto para classificar o nosso comportamento medroso ao longo de séculos de história. “Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo...” Seja o que for, já é por demais tempo de mudar o destino negro que a história nos tem dado. Se bem me recordo, disse um tal de “Wellington”, em tempos que já lá vão, referindo-se aos portugueses que combatiam as invasões francesas “com estes homens conquistava o mundo”. Pois é, mas quem disse a este e a outros líderes de ocasião que nós, povo, queremos conquistar o mundo? A nós, povo, basta-nos que os líderes que nos têm calham na rifa, sejam eles líderes por destino real, seja por azar no plebiscito eleitoral, conquistem o direito a uma sociedade mais justa, mais livre e solidária. Se o conseguirem, de certeza que os problemas económicos e outros deixarão de existir.

R Morais

7 de janeiro de 2008 às 14:45  
Blogger Contacte-nos said...

Segundo A.B. percebo toda a lógica do texto e deixo aqui os meus mais sinceros parabens ao autor...agora ligar medidas de combate ao terrorismo que estão a ser adoptadas por todo o Mundo Civilizado e reduções na carga burocrática destas páginas amarelas de impressos que é Portugal a despotismo parece-me novamente um salto assim que, vá lá, para o Quântico; só me causa embaraço tanta insistência em dizer mal, porque será?
Desculpem a sinceridade.

7 de janeiro de 2008 às 21:13  
Blogger leao said...

Concordo por regra com os comentários do António Barreto, são isentos e nada pretensiosos. Neste caso ainda que aborde um problema real, penso que não fundamentou convenientemente. A politica de "pechisbeque" do governo, precisa de ser contestada com factos. Desenvolvimento e modernidade, não se consegue por decreto, como nos querem fazer crer.

8 de janeiro de 2008 às 09:46  
Blogger fátima rolo duarte said...

O mesmo António Barreto que escreve e cito: «A vida portuguesa oferece exemplos todos os dias. A nova lei de controlo do tráfego telefónico permite escutar e guardar os dados técnicos (origem e destino) de todos os telefonemas durante pelo menos um ano. Os novos modelos de bilhete de identidade e de carta de condução, com acumulação de dados pessoais e registos históricos, são meios intrusivos. A videovigilância, sem limites de situações, de espaços e de tempo, é um claro abuso. A repressão e as represálias exercidas sobre funcionários são já publicamente conhecidas e geralmente temidas. A politização dos serviços de informação e a sua dependência directa da Presidência do Conselho de Ministros revela as intenções e os apetites do Primeiro-ministro.» é o mesmo António Barreto que no blog onde publica este panfleto contra o controle dos cidadãos e meios intrusivos de controle das actividades dos cidadãos, dizia, este António Barreto é o mesmo que se serve de um contador de hits e tráfego, que controla o IP de quem o visita, hora a hora, minuto a minuto? Um contador invisível a olho nu e apenas disponível no view source deste blog?!

Estará António Barreto a escrever na mais pura das ignorâncias do que lhe suporta as palavras online ou isto tudo não passa de uma enorme farsa onde o termo «fascista» é pensado de uma forma que deixa perplexo qualquer leitor que tente descortinar algum sentido nestas palavras?

Cumprimentos

FRD

7 de janeiro de 2009 às 18:12  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Cara FRD,

Como 'webmaster' dos 2 blogues onde A. Barreto escreve (Sorumbático e Jacarandá), o seu mail deixou-me preocupado e - mais ainda - intrigado!

Que contador é esse, que diz se invisível?
Em qual dos 2 blogues está ele (além dos dois, bem visíveis, em rodapé)?
E, se o que diz está invisível, como é que o viu?

Agradeço-lhe que, com brevidade, me esclareça para eu perceber o que se passa e - se for caso disso - corrigir.

7 de janeiro de 2009 às 18:37  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Cara Fátima,

Retomando o assunto, que não tenciono deixar cair:

O seu comentário, no que toca a António Barreto (e que, pelo que agora percebo, se refere concretamente ao 'Sorumbático'), é completamente descabido por um motivo muito simples:

Quando A.B. entrou para este blogue, já o 'site-meter' existia há muito (e até já houve outros).

No entanto, e como o problema que levanta é muito interessante, colquei-o há momentos à discussão em 'post' próprio onde espero poder contar com a sua participação.

7 de janeiro de 2009 às 21:05  
Blogger fátima rolo duarte said...

Carlos Medina Ribeiro,

Veja bem que me escapou à vista o que à vista está.
Recapitulando então: onde Barreto perora contra o controle e porque torna e porque deixa e se Sócrates será fascista, será que? Bom, nesse sinuoso caminho que nos leva aos saltos por entre pedras e pedregulhos, oh, sim, neste lugar, onde, existe uma «câmara» de vigilância às claras, declarada com logótipo e tudo. Pois existe. E se a mim me escapou a dita «coisa» de controle que dizer da falta de vista de António Barreto? Não poderá Barreto alegar ignorância, pois não? Não. Está mesmo às claras.
Ei-lo,aí em baixo, o nobre sitemeter que tem muito que contar.
Melhor explicando: sobre práticas de controle das práticas dos cidadãos estamos conversados o que torna esta discussão ainda mais interessante.

Agradecida pela atenção e disposta a perceber por onde nos leva este caminho.

FRD

8 de janeiro de 2009 às 21:36  
Blogger leao said...

Complicados estes comentadores!

8 de janeiro de 2009 às 22:33  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Dado que este "post" já tem mais de um ano, coloquei o tema à discussão, ontem, num outro:

(http://sorumbatico.blogspot.com/2009/01/parania-ou-receios-justificados_08.html)

Peço, pois, que a partir de agora, coloquem nele os comentários relacionados com o problema levantado por FRD.

9 de janeiro de 2009 às 10:07  

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