16.3.08

A luta de classes não é o que era

Por António Barreto
PARECE QUE A LUTA DAS CLASSES está animada. Anunciam-se, para os próximos meses, manifestações e greves de vária ordem. Sindicatos e partidos apressam-se a aproveitar o que consideram uma vaga de fundo e uma oportunidade a não perder. A manifestação dos 100.000 professores deixou marcas. Outras manifestações, antes e depois, deram um ar de graça. O PCP afirma ter feito desfilar, semanas antes, mais de 50.000 militantes na sua manifestação, estritamente partidária. A CGTP ainda hoje recorda a sua, de há poucos meses, que, pela amplitude e mobilização, surpreendeu toda a gente. Durante duas semanas, manifestações de professores decorreram em quase todas as cidades de alguma dimensão. Nas cidades afectadas pelo processo de reorganização dos centros de saúde, das maternidades e dos serviços de atendimento e urgência, repetem-se as manifestações e as demonstrações de protesto e resistência. Além das manifestações, ensaiam-se, aqui e ali, pequenas greves, na esperança de provocar o efeito de mancha de óleo. A última em data, desta sexta-feira, em Lisboa, foi da responsabilidade da CGTP e de alguns sectores da Função Pública. Os sindicatos reclamam taxas de greve da ordem dos 70 por cento. O governo garante que estas foram de meros 6 por cento. Estas mentiras, provavelmente de ambos, não disfarçam nem escondem certos factos. Há agitação social. O governo está em dificuldades. As manifestações e greves têm natureza diferente.
O PCP E O BLOCO tentam envolver-se o mais possível nestes movimentos, o que têm conseguido. O governo ajuda, quando considera que é tudo obra dos comunistas, suspeitos habituais. O secretário-geral do PCP já fala mesmo de “ruptura democrática de esquerda”, teoria radical e conceito nebuloso, mas que não esconde ambições e esperanças. Muitos socialistas, mais ou menos envergonhados, juntam-se a várias lutas, sobretudo as da educação e da saúde. Agora, até o PSD, tapando o nariz, diz estar empenhado nos processos de luta. Finalmente, o governo e o seu partido, o Partido Socialista para quem já não se lembra, decidiram mostrar que também comandam a rua e os espíritos populares: nada mais calhado do que uma manifestação de apoio ao governo. A fazer lembrar as célebres manifestações de desagravo de outros tempos. Parece haver qualquer coisa no ar.
MAS A SENSAÇÃO de que se trata de um “agudizar” da luta das classes, como se dizia há tempos, é ilusória. Na verdade, patrões e trabalhadores quase não se defrontam. Os sindicatos, nas empresas e nos sectores privados, estão fracos. O trabalho precário é muito, o que enfraquece as organizações. Efeito igual resulta da imigração. O desemprego e a estagnação dos rendimentos de quem trabalha não encorajam à luta. Os sindicatos estão realmente interessados nos sectores públicos, onde o patrão governo, único e atento às eleições, é melhor adversário. As lutas são cada vez mais “sociais”, no sentido de alargamento dos participantes à sociedade em geral, e cada vez menos clássicas ou laborais. Os sectores da saúde e da educação oferecem oportunidades para essa mutação das lutas. Os movimentos sociais têm mais participação e mais receptividade do que as lutas laborais e as manifestações sindicais.
OS PATRÕES estão desinteressados das lutas ou negociações com os sindicatos. A situação económica, acima referida, dá-lhes trunfos. As verdadeiras preocupações deles residem em poucas prioridades: redução da carga fiscal, alteração das leis laborais e benefícios ao investimento e aos mecanismos de distribuição de lucros. Nada disto se trata com os sindicatos, mas sim com o governo. O que, actualmente, calha bem e traz vantagens. O governo está preocupado com o investimento, nacional ou externo, os concursos públicos e as obras. Os patrões também. Por isso se entendem. Em poucas palavras, sindicatos e patrões ignoram-se ou evitam-se. Patrões e governo entendem-se. Governo e sindicatos afrontam-se. Tudo isto, no quadro de uma situação social difícil, de desigualdades crescentes e de perda ou estagnação de rendimentos. Acontece que os movimentos sociais podem ser mais devastadores do que as velhas lutas de classes. Podem mesmo, a prazo, pôr em causa o papel dos partidos políticos e o funcionamento das instituições. A este propósito, a divisão sindical e a dependência das organizações de trabalhadores relativamente aos partidos políticos são perigosas e enfraquecem trabalhadores e cidadãos.
A ASSOCIAÇÃO, fusão ou federação, entre a CGTP e a UGT seria seguramente um dos mais notáveis acontecimentos políticos e sociais da década. Dessa novidade beneficiariam os trabalhadores, sem qualquer dúvida, mas também os cidadãos. A excessiva concentração de poder actual nas mãos do governo e dos grandes grupos económicos poderia assim ser moderada. As reformas sociais seriam mais negociadas. É possível que a actual crispação social diminuísse. Os sindicatos ficariam menos dependentes dos partidos e menos orientados para a luta política. Os movimentos sociais seriam talvez mais organizados e eficientes. Só alguns velhos dirigentes dos aparelhos partidários perderiam alguma coisa. Até os partidos poderiam ganhar, renovando-se. E as associações patronais, incapazes, até hoje, de se unir ou federar, poderiam seguir o exemplo. Apesar de tudo, talvez esta feliz união não se faça nunca. Há tempos assim: os privilégios de poucos sobrepõem-se às vantagens da maioria. Surgirá uma nova oportunidade? Dentro de anos? Talvez. Mas pode ser que seja tarde.
«Retrato da Semana» - «Público» de 16 Mar 08

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2 Comments:

Blogger Al Cardoso said...

De facto, enquanto os partidos de alguma maneira controlarem as centrais sindicais, so tem a perder os trabalhadores!

Um abraco dalgodrense.

17 de março de 2008 às 05:08  
Blogger César said...

O regresso da luta de classes? E, ainda por cima, logo agora, que o PSD parece ter renegado a sua dissidência marxista com a "uniseta", pá... há dias em que um tipo nunca devia ter saído da cama.

17 de março de 2008 às 16:33  

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