14.6.17

ÉVORA, anos 30 e 40. A ESCOLA PRIMÁRIA

Por A. M. Galopim de Carvalho
Visando banir os projectos educacionais da Primeira República, a orientação política estampada na Constituição de 1933, alterara a formação de professores, substituíra os programas, adaptando-os à nova ideologia, separara os sexos, além de que reduzira a escolaridade obrigatória para 3 anos.
Em 1936, com Carneiro Pacheco no Ministério da Educação Nacional (anteriormente chamava-se da Instrução Pública), reforçara-se o papel da Escola no controlo ideológico e orientação política dos alunos, na prevalência do livro único, no culto das virtudes nacionalistas e no elogio da vida modesta e rural. Nesse ano assistiu-se à criação da Obra das Mães pela Educação Nacional, organização no âmbito da mesma ideologia, tendo por objetivo estimular a acção educativa da família, assegurar a cooperação entre esta e a escola e contribuir, por todos os meios, para a plena realização da educação nacionalista da juventude portuguesa de então. O fervor patriótico e o cunho religioso enquadrados na ideologia oficial do Estado Novo estavam diluídos nas matérias curriculares, nomeadamente, na Leitura, na História e na Geografia, no propósito de, a partir dos bancos da escola, então com início aos sete anos de idade, estimular estas virtudes nos homens e mulheres do futuro.
No meu tempo de escola o ensino obrigatório terminava com o exame da 3ª classe (3º ano, como agora se diz), certificado por um diploma exigível, por exemplo, para ingresso nos lugares mais humildes da função pública, no comércio, como caixeiro, nos correios, como carteiro ou boletineiro e, até, para ser eleitor. Ler, escrever e contar era tudo o que o cidadão comum necessitava para fugir à vida do campo, ao aprendizado artesanal ou oficinal e a outros trabalhos que apenas fizessem uso da força braçal. Esta habilitação mínima, o Primeiro Grau, como era chamado, vigorou durante anos. Só mais tarde, em 1960, ainda sob o mesmo regime, a escolaridade obrigatória para os dois sexos, aumentou para 4 anos.
No discurso de Salazar proferido em 12 de maio de 1935, na sede da Liga 28 de Maio, Salazar disse “Oiço muitas vezes dizer aos homens da minha aldeia :«Gostava que os pequenos soubessem ler para os tirar da enxada». E eu gostaria bem mais que eles dissessem: «Gostaria que os pequenos soubessem ler, para poderem tirar melhor rendimento da enxada».

Colada à Igreja de S. Mamede (séculos XIII-XIV e século XVI), classificada como Monumento Nacional (2001), a Escola Primária, que frequentei, entre 1939 e 1943, ocupando um edifício antigo mal adaptado e sem o mínimo de requisitos pedagógicos, era sombria, triste e gélida no inverno. Os professores, quase todos homens, eram severos, chegando nalguns casos a serem cruéis, criminosos, mesmo, à face da lei actual. A pedagogia estava na ponta da régua, versão escolar da tradicional palmatória ou menina de cinco olhos. As reguadas, às meias dúzias e às dúzias, estalavam nas mãos das crianças “por dá cá aquela palha”, quer por motivos de disciplina, quer por erros nos ditados, nas contas e em quaisquer outras matérias. Dei entrada nesta escola, na 3ª classe, aos 9 anos de idade e pude constatar, nas palmas das mãos, essa realidade. Certamente que havia excepções, mas ficaram-me na memória alguns nomes que, então, só de pensar neles tremia.
A ideologia do Estado Novo era-nos veiculada através do textos leitura da 1ª à 4ª classes, nas capas de cadernos e livros e, até, nos impressos oficiais dos diplomas. Na História de Portugal dava-se ênfase às nossas vitórias sobre os sarracenos, numa cruzada contra os infiéis, e contra os castelhanos, na defesa da independência nacional, e exaltavam-se os nossos feitos e os nossos heróis. Na Geografia, o mapa do Império Colonial Português, pendurado na parede, realçava toda a extensão territorial do Portugal do Minho a Timor. E, para além de um crucifixo e dos retratos do Dr. Oliveira Salazar e do Presidente da República, o então General Óscar Carmona, pendurados na parede, frente aos alunos, havia em todas as salas de aula os quadros murais com “A Lição de Salazar”, focando as grandes transformações da vida nacional e a grande virtude da família de condição popular, humilde, mas feliz, amante da Pátria e abençoada por Deus. A mesma ideologia penetrava, ainda, na escola através das actividades da Mocidade Portuguesa que, com excepção das marchas do “um, dois, três, esquerdo, direito” e das paradas ao estilo da tropa, tinham aspectos que iam ao encontro dos gostos dos rapazes.

Ao contrário de hoje, em que, estupidamente, os programas escolares menorizaram o grau de aprendizagem das crianças, a escolaridade primária desses anos tinha um nível de exigência incomparavelmente superior, com notável estimulação da memória e exercitação do raciocínio matemático, como se demonstra pelo tipo de problemas que éramos levado a fazer, na 4ª classe e no exame de admissão ao Liceu: «Um tanque com oito metros de comprimento, por cinco de largura e dois e meio de fundo, recebe água de uma torneira que debita sessenta e dois litros por minuto. A meia altura tem uma bica que descarrega a terça parte ... Quanto tempo...?»…

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2 Comments:

Blogger 500 said...

Aprendi esse exercício do tanque. E a somar fracções.
rdacunha

14 de junho de 2017 às 17:55  
Blogger Ilha da lua said...

Fui para a instrução primária em 1954,e,penso que os programas pouco mudaram relativamente ao tempo do professorFaziamos exames na terceira e quarta classe e a admissão ao liceu Na verdade o grau de exigência era grande Ainda hoje,me consigo lembrar de muitos textos dos livros de leitura e de problemas que envolviam várias operações,que treinavam o raciocínio...

14 de junho de 2017 às 23:10  

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