18.6.21

ETERNIDADE NA ARENA RESPEITOSAMENTE DEDICADA À SRA. MINISTRA DA CULTURA

Por Joaquim Letria

Restam hoje na galeria da minha memória, etiquetados conforme cada caso, muitos amigos meus chamados a Deus servir mas todos eles arrumados na secção geral da grande saudade.

Um dos casos mais marcantes terá sido o desaparecimento de D. António Ordoñez, Senhor de Ronda, em cuja praça pontificava com cultos goyescos e a arte eterna de figuras e gestos irrepetíveis, daqueles a quem entendia merecerem a graça que lhes concedia de nos transcenderem na areia morena daquele rincão andaluz.

Durante muitos anos, quase todos os da minha infância e muitos da minha adolescência, segui-lhe os passos por terras de Espanha, dele se servindo quem em aulas práticas me exemplificou e ensinou o que era a sua arte, coragem, rasgos de estética, beleza da cadência, elegância do toureio. Quando cortou a colecta e se retirou para o que haveria de ser o seu labor de empresário, foi para mim como quando os padres deixaram de celebrar em latim.

Essa mesma verdade que Ordoñez fora para mim fora para outros Paco Camiño, António Bienvenida, ou Curro Romero. No caso particular de Curro Romero e desde os meus 14 anos de idade, na Praça do Montijo, fiquei e perceber que à verdade adulta se pode acrescentar a medida de alguns exageros, convertendo-se o racionalismo sensível numa crença quase religiosa, sujeita a uma muito particular liturgia de fracassos e desmaios sem que com tal se possa perder a fé. Na arte de Curro cabem todos, mesmo aqueles para quem o Mestre continua a ser Antoñete. Muito especialmente, depois de ambos pedirem licença para aos 67 anos voltarem a paramentar-se e a celebrarem o rito, patenteando a dignidade dum bispo e a sabedoria dum cardeal. Já lá vão 20 anos.

Antoñete é grande e inolvidável a sua faena. Mas toureia Curro e o Guadalquivir pára, o vento amaina, as nuvens desfazem-se, o sol brilha com mais força porque os elementos compreendem a busca do milagre. Os milagres são fugazes como sabem os exorcistas, por isso uma verónica suspensa, um natural desmaiado, compensam meses de horas e horas de desespero e humilhações, quilómetros e quilómetros de fiéis sofredores e seguidores.

Se Ordoñez era Bach, Antoñete era Beethoven e Curro foi Mozart, o génio de todos eles merece mais do que a simples paciência. Como disse o meu amigo  Burgos, Curro fez tudo na Real Maestranza menos a Primeira Comunhão. Antes da pandemia eu seguia Juli e Jesulin por Olivenza, Albacete, Nimes, Madrid e Pamplona, às vezes também em  Quito, Cali, Lima e México onde igualmente pregam Enrique Ponce e José Tomás, a magia religiosa do toureio continua monoteísta, a ter um único Deus e esse é Curro Romero. Um toureiro com mais de 60 anos é algo muito especial. E Curro com os seus 87 anos é eterno.

Publicado no Minho Digital

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1 Comments:

Blogger Fernando Ribeiro said...

"Olivenza" com Z?!!! OLIVENÇA com C cedilhado, que a cidade não é espanhola, sr. Letria!

19 de junho de 2021 às 01:42  

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