24.7.05

A seca inventada - II

ESTE simpático animal (que aqui vemos, já com 17 anos de idade, a dormir uma bendita a sesta), morreu no dia 2 de Novembro de 2004.

E refiro isso (a propósito da seca - pasme-se!) por um motivo muito simples:

É que nessa tarde de Outono estava a chover imenso e eu interrogava-me como é que iria enterrar o bicho. E não me esqueci da data porque (por curiosidade que fixei) desde esse dia, nunca mais tive de abrir o guarda-chuva!

Vem isto a propósito, ainda, da opinião de Pedro d' Anunciação (ontem referida) que acha que a seca actual, à semelhança do arrastão de Carcavelos, é uma fábula dos media...
*
Mas depois dessa verdadeira anedota, falemos a sério:
Tal como o petróleo, a água não falta, pura e simplesmente, de um dia para o outro, mas vai escasseando, mais ou menos lentamente.
A precipitação diminui, os caudais (dos rios e dos furos) vão baixando, os níveis de água nas albufeiras também; vão-se procurando captações alternativas... mas (quanto mais não seja recorrendo a auto-tanques), e ainda durante algum tempo, vai sempre havendo alguma água.

Daí, a declarar que a seca é um mito porque continuamos a ter água nas torneiras, é um curto passo que um citadino tonto, vivendo completamente a leste da realidade do mundo rural, facilmente dá.

Ainda ontem estive na Várzea de Sintra, onde pude ver furos que acabavam de secar. A água dos SMAS lá vai chegando - mas pouca (e com metade da pressão habitual), e só de vez em quando.

O mesmo se passa na zona da Beira-Baixa onde vou com frequência, cuja população desespera pela falta de pastos e pelas culturas perdidas (pela ausência de chuva) e onde os furos deitam cada vez menos água.

Mas talvez eu tenha visto mal...

7 Comments:

Anonymous Anónimo said...

e o pior ainda está para vir...porque o verão ainda agora vai a meio... mas lá para finais de setembro, principio de outubro, quando a água continuar a teimar em não cair dos céus... como é que vai ser?? Com certeza que nós vamos continuar a conseguir alguma água, nem que seja engarrafada, trazida do supermercado... mas que vai ser da fauna e da flora deste desgraçado país?
Pus uma taça cheia de água lá fora no quintal. Vejo cada vez mais frequentemente aproximarem-se para beber, melros, piscos, rolas, pombos e pardais durante todo o dia. Com o anoitecer, aparecem coelhos, gatos e até um ou outro porco-espinho. Cada vez menos envergonhados, já nem esperam que eu me afaste, porque a sede aperta até demais. Fico apreensiva a pensar no que vai ser de tantos animais, com todos os riachos e lagoas secos. As árvores mais frondosas, as poucas que escaparem à ganancia dos construtores, ainda vão sobrevivendo, apesar de já bastante murchas, porque as raizes são suficientemente profundas para conseguirem alguma frescura...
É tudo isto que passa despercebido a quem vive nas grandes cidades.

24 de julho de 2005 às 18:30  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Sugestão:

Como se sabe, este blogue permite comentários anónimos.

No entanto, quando há muitos comentários sucessivos, torna-se difícil, por vezes, perceber "quem responde a quem".

Assim, talvez os leitores pudessem meter, sempre, umas iniciais ou um pseudónimo.

24 de julho de 2005 às 18:38  
Anonymous Anónimo said...

Imagens (brejeiras...) sobre a falsa seca:

http://ww3.voyeurweb.com/main/fsg31/FS77920tzm/index.html

http://ww3.voyeurweb.com/main/fsg31/FS77921teb/index.html

24 de julho de 2005 às 19:58  
Blogger Semiramis said...

Chove no Porto! Aleluia!

Se a seca é preocupante, a perda de recursos florestais, ano após ano, ainda vem agravar mais a situação. Poderá chover torrencialmente, no próximo Outono, que a bendita água se reverterá rapidamente numa nova catástrofe: inundações, deslizes de terras e desmoronamentos. E tudo devido à perda de cobertura vegetal tão necessária à retenção da água doce e à manutenção dos recursos hídricos. Assim a água correrá rapidamente para o mar, sem que exista um receptáculo para a recolher. Para o ano, a nossa floresta estará ainda mais degradada e a seca será ainda mais prolongada.

Não é loucura pensar-se que num futuro próximo se matará, por causa da água.

25 de julho de 2005 às 11:39  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

«Não é loucura pensar-se que num futuro próximo se matará, por causa da água».

Nem tenha dúvidas...

Será só uma questão de tempo até que sucedam "guerras da água" como agora há "guerras do petróleo".

25 de julho de 2005 às 11:45  
Anonymous Anónimo said...

Na segunda quinzena de Junho estive no Sudoeste Alentejano a gozar alguns dias de repouso. Para meu grande espanto, as pessoas que lá viviam desperdiçavam a água que ainda existia em quantidades verdadeiramente obscenas. Vi de tudo: desde jardins regados ao meio-dia, com o sol a pino (em que a água nem chegava a cair sobre a relva porque se evaporava, mal saía das mangueiras) até piscinas a transbordar de água e pavimentos "varridos" a jactos de água (dá muito trabalho pegar numa vassoura e varrer; é muito mais cómodo pegar numa mangueira e empurrar as folhas secas com litros e litros de água). Isto tudo em pleno Alentejo!

Decididamente, nós merecemos a seca que temos. Enquanto há água, gastamo-la irresponsavelmente. Quando ela acaba, desatamos a berrar «aqui d'el rei» que o governo tem que tomar medidas! Há momentos em que sinto vergonha de ser português.

nu e cru

25 de julho de 2005 às 14:37  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

"Nu e cru",

Quando um determinado bem, que já é escasso (como o espaço para estacionamento, a água ou o petróleo), começa a faltar em exagero, as soluções acabam por ser só duas (separadas ou em conjunto):

Ou aumento de preço ou racionamento.

As nossas sociedades actuais glorificam o consumo, e isso vai ser pago caro.
O pior é que há certas consequências que são demoradas (como o aquecimento global), e não chegam a afectar os seus autores.

A frase "O Homem só aprende por catástrofes" também nem sempre é verdadeira.
Veja-se o que toda a gente disse a seguir ao tsunami de 26 Dez 04 e o que é que foi feito até agora em Portugal - NADA, evidentemente.
Nem mesmo informação/formação cívica.

25 de julho de 2005 às 16:56  

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