23.1.06

Passeio Aleatório

A atmosfera de Caronte (*)

Por NUNO CRATO

PLUTÃO, deus dos infernos, tinha um génio que lhe trazia os mortos.
Era o barqueiro Caronte, que transportava os defuntos até à sua morada definitiva, no outro lado do rio da morte. Na mitologia romana, Caronte era um velho feio e de mau hálito.


(**)

Plutão moderno é o nono planeta do sistema solar. Quando foi descoberto, em 1930, verificou-se que estava tão distante do Sol que as profundezas geladas em que habita lhe valeram o nome do deus dos mortos. Quando em 1978 se descobriu que tinha uma lua (hoje pensa-se que poderá ter três), deram-lhe o nome do ajudante mítico de Plutão, o génio Caronte. Mas, ao contrário do temível ser da mitologia romana, o satélite do nono planeta não tem mau hálito.

Não tem, aliás, nem bom nem mau hálito. Astrónomos norte-americanos e franceses acabam de descobrir que Caronte não tem atmosfera. Como podem os cientistas tirar tais conclusões sobre um corpo celeste quase invisível em telescópios e que nenhuma sonda espacial ainda visitou?

Curiosamente, o método que os astrónomos agora usaram foi o mesmo que permitiu aos observadores do séculos XVII e XVIII concluírem que a Lua não tem atmosfera, facto que na altura constituiu uma surpresa.
Com efeito, chegou-se a pensar que a atmosfera terrestre se estenderia até ao nosso satélite, pelo que seria possível viajar da Terra à Lua respirando sem problemas. No século XVII, havia quem acreditasse que os pássaros podiam fazer essa travessia, como o atestam os escritos de um célebre bispo de Hereford. Na mesma altura, o poeta francês Cyrano de Bergerac (1619–1665), conhecido pelo seu grande nariz e irascível humor, especulava sobre métodos de viagem até ao nosso satélite. Nesses tempos, havia quem ironizasse e dissesse que bastava a Cyrano estender o seu inacreditável nariz para facilmente atingir a Lua. Mas essas chacotas circulavam entre sussurros, pois a espada do poeta era ainda mais temível que o seu apêndice nasal.
As grandes dúvidas começaram a surgir quando se fizeram observações telescópicas da superfície lunar. No século XVIII, começou-se a notar que a superfície da Lua se apresentava sempre da mesma forma, sem as alterações que seriam naturais verificar se existisse uma atmosfera lunar.

O alemão Tobias Mayer (1723–1762), um dos grandes cartógrafos da Lua — selenógrafos, como se começou a dizer — notou um outro facto curioso. À medida que a Lua se move pelo firmamento, as estrelas desaparecem bruscamente por detrás do bordo lunar. Esse desaparecimento brusco e nítido, raciocinou Mayer, mostrava que a Lua não podia ter uma atmosfera significativa. Se a tivesse, a ocultação das estrelas seria mais suave, devido à refracção.

Os astrónomos que agora mediram a atmosfera de Caronte seguiram a pisadas do pioneiro alemão do século XVIII. Esperaram pela passagem do satélite de Plutão em frente a uma estrela, e mediram o desaparecimento do seu brilho. Ao contrário do que se passa com o longínquo planeta, que tem uma atmosfera significativa, a ocultação da estrela por Caronte foi muito brusca, pelo que concluíram que esse satélite não tem atmosfera.
No decorrer das observações, os astrónomos conseguiram ainda medir a dimensão do astro, pois a ocultação verificou-se em momentos diferentes em diferentes observatórios. Concluíram que Caronte tem um raio de cerca de 605 quilómetros. Quem diria que tais medidas seriam possíveis para um astro que nem os melhores telescópios conseguem visualizar com clareza?


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(*) Adaptado do Expresso.

(**) Ocultação da estrela C313.2 por Caronte, a 11 de Julho de 2005. Em cima: imagem antes da ocultação. O objecto mais brilhante é Plutão, encontrando-se a imagem conjunta de Caronte e C313.2 mais abaixo e à esquerda. Em baixo: durante a ocultação, C313.2 desaparece e só se vê Caronte, que é muito menos brilhante. As imagens foram obtidas com o Telescópio Clay, de 6,5m, no Observatório de Las Campanas (Chile), munido de instrumentação especialmente concebida para a observação de ocultações, eclipses e trânsitos. Crédito: MIT/Williams College/NASA/A. Gulbis et al.
http://www.portaldoastronomo.org/noticia.php?id=609

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2 Comments:

Blogger ""#$ said...

Caro nuno crato ,vou ser provocador(no bom sentido) e dar-lhe uma alfinetada.
Não tente imitar o blog do pacheco pereira falando de planetas e estrelas ...... e metendo imagens dizendo "os novos decobrimentos".

23 de janeiro de 2006 às 11:48  
Blogger Mónica said...

Não há forma mais bela e poética do que falar (e escrever) sobre Astronomia recorrendo à Mitologia... A imagem está perfeita! De resto, bom-humor e preciosismo científico tornaram o texto ainda mais interessante!

23 de janeiro de 2006 às 12:38  

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