19.9.06

Uma grande guerra? (*)

TUDO parece indicar que em vários lados se prepara uma grande guerra religiosa. Só assim se podem entender as palavras do Papa Bento XVI no passado dia 12 na universidade alemã de Ratisbona. Teólogo, ou seja, racionalizador dos mistérios da fé, foi certamente com a cabeça fria que o actual bispo de Roma recuou até uma polémica ocorrida no século XIV, entre o imperador bizantino Manuel Paleólogo e um erudito persa, sobre o lugar da violência no confronto religioso. É verdade que Ratzinger adora a História das Ideias e ama ressuscitá-la com novidade e surpresa. Também é verdade que, como papa e bispo de Roma, se dirigia às elites alemãs na Alemanha católica do bispo colegialista Lehman: um antagonista religioso externo como o Islão pode ajudar à unidade hierárquica interna da Igreja. Situar essas declarações na Alemanha natal ainda faz sentido pelo menos por mais duas razões: por causa da existência naquele território de uma vasta comunidade muçulmana e pela aliança implícita que vários dirigentes islamitas estão a propor à RFA.
Bento XVI não ignorava certamente que as suas declarações sobre o modo como um dos últimos chefes do Império Romano do Oriente se referira ao contributo de Maomé para as guerras religiosas poderia ajudar a cavar o fosso entre cristianismo e islamismo. De certa maneira Bento XVI acaba de terminar com um longo período de paz entre o Vaticano e o mundo islâmico, ilustrado por entendimentos visíveis desde Jerusalém a Bagdade. Porquê? Essa é a grande discussão.
É verdade que o discurso de Ratisbona se destinava a um público ilustrado e que por isso mesmo se coloca intelectualmente numa atitude metacrítica sobre o que lhe é proposto. É verdade que o Vaticano está em plena transição entre a administração de João Paulo II e de Bento XVI, e que os novos responsáveis da Secretaria de Estado e da Secretaria das Relações com os Estados da Santa Sé, os cardeais Tarcisio Bertone e Dominique Mamberti ainda não entraram verdadeiramente em funções. É verdade que o Papa já lamentou mais do que uma vez as interpretações fundamentalistas dadas às suas declarações quer no Ocidente que no mundo islâmico.
É verdade que os esforços de apaziguamento da Cúria Romana impendem um imediato aproveitamento político do discurso de Ratisbona pelos fundamentalistas islâmicos e pelos ocidentais fundamentalistas. Mas o que a Igreja Católica anunciou pela voz do seu máximo representante foi o lugar que ela ocupará caso haja uma grande guerra religiosa, desencadeada ou não pelos fundamentalistas islâmicos. E este sinal é poderoso na comu- nidade católica europeia e mundial.
Não que eu acredite em guerras religiosas desde as cruzadas à jihad. São enganos do Espírito sobre as razões dos comportamentos violentos entre povos. Seria certamente incapaz de suportar a dogmática islamita em estados teológicos. Por isso admirei Kemal Attatürk e ainda hoje vejo na entrada da Turquia na União Europeia uma espécie de homenagem ao seu esforço de laicização do Estado e até da sociedade. Por isso também temo, e lamento, que as palavras de Bento XVI sejam aproveitadas para adiar esse confronto da União Europeia com uma real diversidade cultural. Afinal mais um teste à racionalidade das sociedades europeias depois das guerras religiosas...
Somos todos muito ciosos da nossa capacidade de assimilar a diferença de culturas e de valores sobretudo fora das fronteiras da nossa civilização. O edifício racional organização da sociedade é aquilo que se sabe, sempre dependente de acidentes e de pavores. Depois das Luzes a Europa já teve a deriva dos totalitarismos e do racismo. A soberba dos intelectuais ocidentalistas usufrutuários das liberdades públicas, que foram tão dificilmente conquistadas e reconquistadas e que são sempre reversíveis, não ajuda a entender o momento internacional que se vive. Ainda agora neste episódio do discurso de Ratisbona quantos violentos não se sentiram lesados pelas lamentações posteriores de Bento XVI? Esses são os partidários de uma grande guerra religiosa.
Não quero deixar de assinalar que o director do DN, António José Teixeira, num editorial lúcido e corajoso marcou um caminho de reflexão sobre as razões do discurso de Ratisbona.
Criticar as caricaturas também faz parte da liberdade de expressão. E Bento XVI sabe as matérias em que é falível.
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(*) Crónica de José Medeiros Ferreira no «DN» de hoje, aqui transcrita com sua autorização

7 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Filosofia, teologia e hipocrisia

"É preciso saber filosofia": a frase foi dita anteontem na SIC Notícias pelo bispo Januário Torgal Ferreira em defesa do controverso discurso do Papa na Universidade de Ratisbona. Ou seja: "É preciso saber filosofia" para compreender o sentido das palavras de Bento XVI e o motivo que o levou a citar uma frase de um imperador bizantino do século XIV, Manuel II Paléologo, que deu origem a um generalizado e por vezes violento movimento de protesto entre os muçulmanos de todo o mundo. Dirigindo-se a um interlocutor persa, o imperador afirmara:
"Mostra-me então o que Maomé trouxe de novo. Não encontrarás senão coisas demoníacas e desumanas, tal como o mandamento de defender pela espada a fé que ele pregava."

Pode lamentar-se que o mundo em geral ou as autoridades e as massas muçulmanas em particular não saibam filosofia bastante para distrinçar a complexidade e as subtilezas do discurso papal. E que essa ignorância tenha sido aproveitada e manipulada para um remake das cenas de fanatismo vingativo desencadeadas pela chamada crise dos cartoons.

Acontece, porém, que Bento XVI não é um caricaturista dinamarquês, um cidadão comum exercendo o direito de livre opinião reconhecido nas sociedades democráticas, ou apenas um professor de teologia investido transitoriamente nas funções de Papa: é uma das mais influentes autoridades espirituais contemporâneas, o dirigente supremo da Igreja Católica e, por acréscimo simbólico, um chefe de Estado.

As suas palavras ganham assim um significado e uma gravidade que não deveriam prestar-se a interpretações dúbias ou erróneas, como se verificou neste caso. É obrigação do Papa saber isso, mesmo quando fala para uma audiência universitária. E também que, na sua boca, não há citações inocentes. Ora a citação de Paleólogo é tudo menos inocente - e corresponde, no fundo, ao conceito de superioridade matricial do catolicismo que Bento XVI já por diversas vezes reivindicou, pelo menos implicitamente ou com fórmulas ambíguas e oblíquas, ao abordar o tema do diálogo com outras religiões. Não foi, aliás, por acaso que algumas eminentes personalidades católicas, incluindo padres e teólogos, se atreveram desta vez a criticar o Papa. Ou será que eles foram igualmente influenciados pelos sound bites que jornalistas irresponsáveis puseram a circular e que suscitaram os apelos à révanche lançados pelos extremistas muçulmanos, como pretende o director do Público?

A verdade é que há, em todo este episódio, muitíssima e inconfessada hipocrisia. Porque se o Papa recusa efectivamente a tese do choque das civilizações - já agora, das religiões - e advoga um diálogo entre culturas inspirado pela razão e pela fé, é difícil de compreender a forma apenas velada como se referiu às responsabilidades históricas da Igreja Católica nas cruzadas contra o islão. Porquê uma citação sobre as "coisas demoníacas e desumanas" trazidas por Maomé sem uma outra correspondente às "coisas demoníacas e desumanas" praticadas em nome de Cristo (e que João Paulo II, por exemplo, corajosamente assumiu)?

Se um dos objectivos de Bento XVI era reflectir sobre as actuais derivas do fanatismo religioso e a conversão pela violência (que hoje são, sem dúvida, protagonizados essencialmente pelo islamismo extremista), porque é que não cuidou de separar as águas entre os seguidores de Maomé, como se moderados e fanáticos fizessem parte do mesmo espaço? O facto é que o Papa apenas contribuiu para juntar episodicamente essas partes separadas das comunidades islâmicas no protesto contra o seu discurso e até deu azo a que o principal chefe religioso iraniano, Kahmenei, passasse por um moderado inofensivo e pacífico.

Evidentemente, uma coisa são as susceptibilidades e indignações morais e outra a histeria das manifestações, os incêndios de igrejas ou as ameaças terroristas. Também aqui é preciso separar as águas. Só que, precisamente, seria suposto Bento XVI conhecer esse estado das coisas num mundo onde a irracionalidade das "identidades assassinas", como lhes chama Amin Maalouf, é largamente alimentada pelo ressentimento face ao Ocidente e ameaça ganhar terreno através do universo muçulmano.

Não é possível dialogar com as identidades assassinas, mas por isso mesmo é fundamental não alienar todos os que resistem ao seu apelo, dentro e fora das referências religiosas. De nada serve clamar contra o relativismo moral ou contra o divórcio entre a fé e a razão se a Igreja Católica se fechar cada vez mais num círculo de opacidade teológica e absolutismo doutrinário que Bento XVI ostensivamente cultiva.

O Papa lamenta o desvio da esplêndida inocência das suas palavras. Pouco importa que seja sincero: a inocência é, nas igrejas, um simulacro demasiado frequente da hipocrisia. E não é preciso saber filosofia para perceber isso.

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Vicente Jorge Silva

http://dn.sapo.pt/2006/09/20/opiniao/filosofia_teologia_e_hipocrisia.html

20 de setembro de 2006 às 14:09  
Anonymous João XXI said...

O Ratzinger é um académico, como o VPV acentuou num artigo no Público que o Medina Ribeiro também devia transcrever.E que sabe os assuntos em que é falível como o Medeiros ironiza no final do artigo.Só não estava à espera de ser lido noutra lingua...

20 de setembro de 2006 às 17:50  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

João XXI,

O texto do «Público» não está online.
Se tiver o texto, e fizer o favor de mo enviar, transcrevo-o, com muito gosto.

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Já agora, veja se me arranja, pf., o editorial do Vítor Malheiros sobre o assunto.

Pela minha parte, vou tentar encontrar os do Fernando Madrinha, do Marcelo Rebelo de Sousa e do Nuno Rogeiro que também fizeram análises interessantes e lúcidas.

21 de setembro de 2006 às 09:40  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

O do Fernando Madrinha já apareceu.
Quem tiver mais textos sobre o assunto, esteja à vontade para os divulgar - aqui, ou no "post"-aberto de amanhã.

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Gasolina na fogueira

Quem tenha notícia do que dizem sobre os “cruzados” certos mulás e políticos muçulmanos só pode sorrir com a hipersensibilidade dos países que já reagiram a uma lição de Teologia que o Papa deu na Baviera. Tal como sucedeu com as caricaturas de Maomé, essa reacção destemperada é mais um pretexto e um indício de como há quem queira estender a lógica da mordaça ao Ocidente e ao próprio Papa. Mas temos de reconhecer que, lá por citar um imperador romano do séc. XIV, Bento XVI não se desresponsabiliza do sentido da citação: “Maomé só trouxe coisas más e desumanas, como o preceito de defender com a espada a fé que ele pregava”. Ratzinger é um teólogo de ideias firmes e esclarecidas. Mas nem tudo o que pensa Ratzinger pode ser dito por Bento XVI. É também por isso que um cardeal muda de nome quando chega a Papa. Nos dias de hoje, a infeliz citação é gasolina numa fogueira. E aquilo de que o mundo menos precisa é de um Papa incendiário.

[Fernando Madrinha-«Expresso» de 16 Set 06]

21 de setembro de 2006 às 09:49  
Anonymous Anónimo said...

O VPV?

Aquele que foi deputado do PPD e pouco depois saiu a dizer mal do partido?

Aquele que agora deu em "belicista de teclado e rato", um daqueles "heróis da rectaguarda" que gritam «Vamos a eles!» enquanto procuram abrigo?

Se é esse, reconheço que é divertido de ler (como todos os que escrevem sob o efeito de úlceras ou de azia), mas tem de se lhe dar o desconto; ou, então, lê-lo como "colunista de humor rançoso" - o que não é necessariamente um defeito.

Ed

21 de setembro de 2006 às 10:10  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Mais opiniões sobre este assunto em:

http://dn.sapo.pt/2006/09/19/internacional/e_o_papa_pedisse_desculpa_um_erro_is.html

e

http://radioclube.clix.pt/programas/nuno_rogeiro.asp

(O 2º o endereço é onde poderá ser ouvida a tal crónica de Nuno Rogeiro. É de 2ª feira passada, e estará online até ao próximo domingo)

21 de setembro de 2006 às 10:59  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

E ainda:

A opinião (resumida) de JPP no «Abrupto»:

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É tudo tão evidente - a maioria, a maioria esmagadora das pessoas que na imprensa comenta o discurso do Papa, nunca o leu. Conhecem quando muito a meia dúzia de transcrições a pender para o sensacional que a imprensa divulgou. Para quem leu o texto é tão evidente, tão evidente... Pura negligência, é como servir comida estragada. Nós estamos muito preocupados com a "segurança alimentar" e bem pouco com a "comida para o cérebro".

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Em «A Quadratura do Círculo» (na SIC-N, repetição hoje, 5ªf, às 13h05m de Lisboa) o assunto também é abordado demoradamente.

21 de setembro de 2006 às 11:30  

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