26.7.07

AÍ ESTÃO OS PREDADORES

Por Baptista-Bastos

"Falemos de política, discutamos de política, escrevamos de política, vivamos quotidianamente o regressar da política à posse de cada um, essa coisa de cada um era tratada como propriedade do paizinho." - Jorge de Sena
O INCONCEBÍVEL ACONTECEU, três décadas depois de Abril: as quatro confederações patronais reclamaram a mudança de artigos da Constituição: um, o 53.º, acaso o mais significativo, proíbe o "despedimento sem justa causa por motivos políticos ou ideológicos". Querem, também, limitar o direito à greve, e modificar as prerrogativas das associações sindicais e a contratação colectiva. Mas o projecto restritivo é muito mais amplo e por igual sombrio. O documento do patronato fornece, com nitidez, a imagem de quem o subscreve. Além do que fundamenta um profundo desrespeito pela democracia. É a ressurreição dos predadores.
Há duas semanas tive oportunidade de ler o discurso de Francisco Balsemão, no jantar da Confederação Portuguesa dos Meios de Comunicação Social, em que apostrofou o ministro Santos Silva. É um documento discutível. Menos num dos princípios: o da liberdade de expressão. Aí, o velho capitão de jornais permanece devotadamente fiel aos ânimos da juventude. Tudo o que agrida a livre enunciação das ideias encontra nele um tenaz adversário. Sei do que falo: trabalhámos juntos, durante anos, dando corpo a um projecto grandioso: o Diário Popular. A esmagadora maioria da Redacção era de Esquerda ou, pelo menos, desafecta ao regime. Trinta e cinco jornalistas, 150 mil exemplares diários de venda. A tese era a seguinte: "Neste jornal ninguém corta nada a ninguém." O estrondoso êxito do vespertino é devido, acima de tudo, a essa caução de liberdade.
Em 1969, no período eleitoral marcelista, dois redactores do Popular participaram, activamente, como candidatos da Oposição: Mário Ventura Henriques e o autor desta crónica. Balsemão, pela Acção Nacional Popular. Nenhum dos patrões, nenhum deles obstou à nossa actividade. Tanto eu quanto o Mário Ventura assumimos as consequências imprevisíveis dos nossos actos, e não traímos os testamentos éticos que resguardavam a grandeza da nossa profissão. Quando regressámos, as nossas bancas de trabalho esperavam-nos.
Relembro o episódio como paradigma. Francisco Balsemão interpreta a reafirmação de uma luta que nunca está definitivamente ganha, e que vale sempre a pena recomeçar. Aqueles senhoritos, confederados no lucro a qualquer preço, pertencem ao ranço da História, à parte mais reaccionária da sociedade portuguesa, que dificulta o progresso social e põe em causa valores e modelos que deveriam ser intocáveis.
Saibamos expulsá-los do futuro.
«DN» de 25 de Julho de 2007

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3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Bravo!
Adorei este texto e vamos "..expulsá-los do futuro.".
Abraço

26 de julho de 2007 às 23:34  
Anonymous Anónimo said...

A ver se a gente se entende, caramba. Alguns dos tais "senhoritos do lucro" são quem pagou esta crónica ao Sr. BB porque donos do novo DN em formato mercantilista onde ela foi publicada e de onde foram expulsos cronistas íntegros. E o Sr. BB não rejeitou esse dinheirito, claro. Ou seja: com uma mão guarda a massa, com a outra dá bofetada em quem lha passou. Que tal?

28 de julho de 2007 às 11:20  
Anonymous Duarte R. said...

O que o "anónimo" anterior refere é um velho - velhíssimo! - paradoxo:

Quando alguém escreve um livro anti-capitalista numa editora capitalista;
ou quando faz um filme (ou uma peça de teatro) anti-sistema vendido por empresas do sistema;
Etc., etc., etc., está, muito provavelmente, a receber dinheiro do capitalista que ataca.
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A situação não é nova, e a inversa também não - pois se até o revolucionário que faz pichagens e cartazes contra o capitalismo paga, ao capitalista, os spays e as tintas que lhe compra!

E nem sequer está livre do paradoxo quem usa a Internet com grande fraseado anti-capitalista pois, quase de certeza, está a pagar ao fornecedor de acesso, à companhia de electricidade - quando não até mesmo ao Bill Gates ou outro que tal.

É a vida...

28 de julho de 2007 às 12:33  

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