14.1.08

Quarenta e oito horas

Por António Barreto
A DECISÃO DE RATIFICAR O TRATADO DE LISBOA na Assembleia da República, com recusa do referendo, foi um belo exemplo de não cumprimento de promessas, de cinismo político e de ocultação de evidências. Sócrates chegou a dizer, pestanejando, que “este tratado não tem nada a ver com o anterior”. E que as suas propostas eleitorais e de programa de governo apenas se referiam à hipótese do anterior tratado constitucional. Estava pois livre de compromissos e apenas decidiria em função dos interesses nacionais, sem sequer se sentir influenciado pelos governantes alemães, ingleses e franceses que não queriam referendo; nem pressionado pelo Presidente da República; nem desmotivado pela decisão prévia do PSD. Como, por outro lado, sabia “que 90 por cento dos deputados eram a favor do tratado”, concluiu, com uma pirueta lógica arrepiante, que não valia a pena colocar a pergunta ao eleitorado! Ele também sabia que a maioria dos portugueses diria que sim ao referendo, mas receava que os outros povos europeus, depois de ver os portugueses, seguissem o exemplo. Em consequência, os governos convocariam os respectivos referendos. Ora, havia o risco de alguns dizerem que não. A terminar: Portugal não poderia ficar na história como o país que, depois de ter feito o tratado, dera cabo dele! Todo o seu raciocínio é megalómano e pueril. As suas demonstrações não têm lógica. Das premissas, não resultam as conclusões. Os factos não são os que ele recorda. A cronologia não é a que ele invoca.

O SEGUNDO GRANDE ACONTECIMENTO da semana foi o da decisão de construir o aeroporto em Alcochete, afastando a OTA. O relatório do LNEC fora entregue ao Primeiro-ministro dois dias antes. Bastaram-lhe quarenta e oito horas para tomar uma decisão firme. OTA já foi! Alcochete será! A ponte sobre o Tejo, de Chelas ao Barreiro, vem por acréscimo. Milhões de contos de estudos e projectos, dez anos de trabalho duro e trinta de especulações foram varridos pela capacidade de decisão fulminante do homem que nos governa. A decisão é “prévia”, figura estranha para gesto tão dramático. É também “preliminar”, eufemismo para uso em Bruxelas, dado que estas decisões são geralmente precedidas, não seguidas, de estudos de impacto ambiental. Tudo o que se disse antes, as certezas inabaláveis de Sócrates, as anedotas de Mário Lino e os sólidos estudos preparatórios feitos pelas mais idóneas entidades técnicas do mundo foi ultrapassado por uma rápida leitura de um “sumário executivo” e por quarenta e oito horas de prazo estudado. Vale a pena ressuscitar frases e pensamentos, de um e de outro, de 2007: “Quem tiver ideias contrárias às do governo, relativamente ao aeroporto da OTA, presta um mau serviço ao país”! “O aeroporto da OTA é uma questão pessoal”! “A OTA é a única solução”! “A decisão de construir na OTA é irreversível”! Só para refrescar a memória.

OS SISTEMAS DE DECISÃO VIGENTES EM PORTUGAL são tais que estes procedimentos, recheados de demagogia, erros, mentiras e disparates, são possíveis e não são alterados. Estuda-se pouco, estuda-se mal e estuda-se secretamente. Mas, sobretudo, estuda-se apenas o que se quer fazer. Primeiro decide-se, depois estuda-se. E só se estuda o que confirma a decisão. E pagam-se os estudos que a fundamentam. O governo não é regularmente assessorado por gente capaz, politicamente independente e tecnicamente competente. O governo não acredita nas virtualidades do debate público permanente e da libertação de toda a informação necessária a qualquer decisão. Até neste caso, aceitar-se-ia, por exemplo, que os relatórios do LNEC fossem escrutinados e postos à prova do debate público durante umas semanas ou uns meses. Mas tudo isso seria pôr em causa a “determinação” do governo, o seu machismo teimoso. São estes procedimentos, a acrescentar à megalomania dos grandes projectos, que fazem com que as obras públicas sejam o que são: prazos dilatados, acidentes sem responsabilidade, espiral de custos para o Estado, “trabalhos a mais” e emaranhado de interesses privados e públicos.
Ainda agora, com a ponte de Chelas para o Barreiro, o facto de o presidente da Lusoponte ser o antigo ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral, parece não perturbar ninguém. Mas a verdade é que foi ele o signatário, por parte do governo, do contrato com a Lusoponte que prevê que esta tenha o exclusivo dos direitos de atravessamento do Tejo (de Vila Franca ao mar), o que significa que o Estado tem que a indemnizar. Mesmo que a honestidade das pessoas seja a toda a prova, a certeza é a de que há conflitos de interesses, há promiscuidade e há ligações perigosas entre público e privado. São gestos como este que mostram como é frágil o Estado português. Como são atrevidos os governantes.

NUM CASO E NOUTRO, o referendo e o aeroporto, os governantes mentiram, desdisseram-se, negaram o que tinham afirmado, mudaram de opinião e de certezas, voltaram atrás, disseram que não tinham dito, não era bem assim, só queriam dizer que era isto e não aquilo... Neste exercício de garantir o que não é evidente para ninguém e de negar o que disse e prometeu, Sócrates foi absolutamente excelente. Revelou a convicção de um vendedor de persianas. Portou-se com a inocência de um escuteiro. Sócrates está convencido de que pode vender o que quiser a quem quer que seja. Basta ele falar, controlar a informação, negar a evidência, garantir as suas certezas e elogiar o produto!
Como os governantes não mudam de estilo nem de sistema, a não ser que a isso sejam forçados, já não vale a pena esperar pelos efeitos correctores desta semana nos seus comportamentos. Mas a população assistiu. Viu. Pôde tirar conclusões. Se, como os animais, os homens aprendessem com a experiência, esta semana teria sido gloriosa. Ficaria na história como um dos momentos altos de aprendizagem da arte de ser governado. Perder-se-ia rapidamente a confiança em Sócrates. Este governo teria o desfavor público. A competência técnica, a seriedade e as promessas do governo passariam a ser motivo de gargalhada e desprezo. Infelizmente, parece que os homens em geral e os portugueses em particular não são como os animais. Não aprendem.

«Retrato da Semana» - «Público» de 13 de Janeiro de 2008

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9 Comments:

Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Como noutro "post" se diz, o SORUMBÁTICO oferece um exemplar anotado do livro «A MANIPULAÇÃO DOS MEDIA» ao autor do melhor comentário que venha a ser feito a esta crónica. O prazo terminará às 20h da próxima sexta-feira, dia 18.

14 de janeiro de 2008 às 00:08  
Blogger leao said...

Esperava que antes da decisão pela localização do Aeroporto, fossem apresentados elementos, inteligíveis, a favor de uma localização. Não tendo interesses am nenhum dos locais, Ota ou Alcochete, analisei os sete itens considerados pelo LNEC, perdendo a Ota por um ponto(3 Ota, 4 Alcochete). Analisando o que está em causa, à excepção do volume de tráfego, a favor de Alcochete, tudo o resto - com relevância - é favorável à Ota. Não entendo porque é assim tão acertado escolher Alcochete. A avaliar pela rapidez da decisão.

14 de janeiro de 2008 às 14:52  
Anonymous Anónimo said...

"..Infelizmente, parece que os homens em geral e os portugueses em particular não são como os animais. Não aprendem."
Aqui reside o maior problema.

14 de janeiro de 2008 às 18:26  
Blogger diogo said...

podemos fazer uma revolução e acabar com estas politiquices antes que seja tarde de mais , se já não fôr ...

14 de janeiro de 2008 às 19:30  
Blogger diogo said...

o sócrates não é idiota ao ponto de fazer um referendo , é que ele sabe perfeitamente que o povo usaria o referendo para demonstrar o seu descontentamento com este governo e sua política . resumindo se eles apoiam não pode ser bom . o resultado seria não .

14 de janeiro de 2008 às 19:34  
Blogger Unknown said...

Pois eu acho que o PR se calhar devia era demitir este governo, porque afinal, e usando os mesmos argumentos de Sócrates este não é o mesmo governo de 2005 (aquele que foi apresentado em março). Os ministros dos Neg. Estrangeiros, Adm. Interna , Finanças e Defesa mudaram, logo o governo é outro...

14 de janeiro de 2008 às 22:06  
Blogger Jack said...

Sentado numa mesa de café, olhando as pessoas que passam na Rua, vejo os seus rostos sombrios e carregados de melancolia como se vivessem num país que não é mais do que um enorme Laboratório de Normas e Experiências Castradoras (LNEC). Sim, na realidade, o país cada vez mais se encontra subjugado às vontades de uns iluminados que vêem nos votos que legitimaram a sua acção governativa, o passaporte para o campo da ilusão onde esperam criar grandes obras que irão perpetuar no tempo e no espaço o nome que o baptismo lhes deu e uma conservatória registou.
Não há dúvida que o tratado sendo projectado, revisto, apresentado e aprovado por alguém que não pertence ao mundo dos humanos, nunca poderia ser levado ao escrutínio de uns humildes, pobres mas simpáticos cidadãos que “telepaticamente”, como se sabe de antemão, já deram o seu peremptório “sim” aos decisores das suas vontades.
Aeroportos, pelo que ouvi dizer, há muitos, tantos quantos os palermas que proliferam nos corredores da casa de alterne em que se transformou a política nacional. Vendo ontem os prós e os contras, na TiVú, fiquei a saber que, realmente, o melhor local para construir um aeroporto seria na OTA. Criavam-se por ali, como quem não quer a coisa, uma série de infra-estruturas, e toda aquela gente do interior que passa os dias nas tascas rascas e sem higiene, a comer enchidos regionais nos restaurantes sem condições de salubridade e outras, seria realojada nesse belo oásis em que iriam transformar o litoral rectangular. Claro que o resto do país, de onde sairiam os indígenas que iriam povoar o litoral, transformar-se-ia numa mais valia para este e para futuros governos no combate ao défice. Quando o “vil metal” faltasse, nada melhor do que trocar, com os castelhanos, umas terras que não servem para nada, estão ao abandono e consequentemente a desvalorizarem-se, por uns fardos de euros tão necessários à prossecução do interesse daqueles que, estupidamente, elegemos para nos desgovernar.

15 de janeiro de 2008 às 12:06  
Blogger Errante said...

Assunto 1
Principal argumento: democracia representativa! Pergunto-me até que ponto esta ideia não será utópica. Recorrendo aos velhos ditados, nao se agrada a gregos e a troianos. Contudo, preza-se pelo bem-estar da maioria. Será que este ideal se aplica ao Portugal de Socrates? Vejamos, arrogancia que já cansou os mais tolerantes, incoerencia que baralha qualquer intelecto, tomadas de posição que nem os comentadores mais assiduos conseguem analisar... Até que ponto Socrates e os seus discipulos são os verdadeiros representantes deste povo perdido? Precisamos de força politica, o que não esta a acontecer. Precisamos (desesperadamente) de inspirar argumentos realmente válidos. Afinal, quem cria o folclore politico? Quem dá a musica, o baile e a festa? De lá de fora, os portugueses não passam de uns "pobres coitados", influenciaveis. Essa historia do "não foi bem isso que eu disse" é inadmissivel nos dias de hoje, principalmente quando os ditos 'iluminados' estao constantemente a serem lançados às feras (Comunicação Social). E digo mais, penso como socialista, apoiante de Socrates...mas nem tudo pode ser engolido!

Assunto 2
Não tenho uma opiniao objectivamente formada. Apenas queria acrescentar, sublinhando que não passa da minha perspectiva, que esta repentina decisão não passa de uma tentativa desesperada do Governo para (re)afirmar o seu poder. Decidiram, portanto, que será em Alcochete o novissimo aeroporto de Lisboa. Por lá, é motivo de festa em dias de chuva. No resto do país, ainda se contratam comentadores televisivos ( ou nao) para tentarem ( mais uma vez) desvendar os misterios de Socrates. Pensamento positivo, de uma maneira ou de outra, há alguem a ganhar dinheiro!

16 de janeiro de 2008 às 22:40  
Blogger leao said...

Gostava de ter o livro, mesmo não sendo por isso que fiz o comentário.Pena não ter sido escolhido. Parabéns aos vencedores, se ninguém desempatar.

22 de janeiro de 2008 às 22:56  

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