23.5.08

A «buena dicha»

ENTROU NO CAFÉ arrastando o velho sobretudo amarelo que imitava pêlo de camelo. Antes de chegar ao balcão, o empregado atirou-lhe:
** - Galão e pãozinho-de-deus, não é verdade, senhor Alberto?
** Era verdade. Era, pelo menos, há vinte e sete anos, galão e pãozinho-de-deus, não é verdade, senhor Alberto?
** Não se dava, sequer, ao trabalho de responder. Ou antes, retorquia falando de outra coisa qualquer, género «parece que o tempo vai melhor» ou «você ouviu ontem aquele tipo na televisão?». Gostava de conversar enquanto mastigava e bebia pequenos goles, patatipatatá, um ouvido no ruído do trânsito, não vá o maldito autocarro pregar mais uma partida.
** Naquela manhã, de sobretudo amarelo, a imitar pêlo de camelo, desabotoado, ainda a cheirar a água-de-colónia comprada a peso, sentia-se particularmente bem-disposto.
** Não saberia dizer porquê, se lho perguntassem, mas havia qualquer coisa a fazê-lo saber que aquele não seria um dia como os outros, apesar de não se estar ainda na Primavera.
** A cigana entrou, toda veludo e ouros, para evitar confusões e suspeitas, não pense alguém que ainda é das que restam a ler sinas nas palmas das mãos, e pediu uma tosta mista e uma cerveja. O empregado nem pestanejou, mas o senhor Alberto olhou espantado: «Uma cerveja? A esta hora da manhã? Uma mulher?» - e de imediato mediu-lhe as carnes de alto a baixo.
** A cigana surpreendeu-lhe a panorâmica quando os olhos vinham para cima e, quando se olharam cara a cara, olhos nos olhos, abriu um sorriso de pérolas que deixou o senhor Alberto sem saber se comia o pãozinho-de-deus ou se apanhava o autocarro.
** - O cavalheiro gosta só, ou quer comprar?
** Frente à sua plateia, repleta de público fiel, o senhor Alberto deve ter sentido o que um toureiro sente ao ouvir «Arrimate!» da barreira sombra. E para não ficar sem dizer nada, saiu-lhe um desabafo que deve ter sido o que lhe ia na cabeça, no espírito, no coração e noutras vísceras não menos importantes para o regular funcionamento das instituições fisiológicas.
** - Vossemecê sempre me saiu um grande naco de mulher!
** A cigana atirou a cabeça para trás e largou uma gargalhada que até fez tremer as garrafas de vermute e tilintar as taças para o branco verde avulso. Nesse instante de cristal, o senhor Alberto perdeu o autocarro.
** - Homem, deixe lá que eu levo-o! Ainda há bocado estava em Évora e já aqui estou. Não se preocupe.
** O senhor Alberto não se preocupou. Não tinha, de resto, razão nenhuma para isso, pois raramente chegara atrasado, em anos e anos, e faltara menos vezes que o número de dedos de uma mão. Já que a mulher o levava, olha, deixa estar – até ficava com uma história para contar... e depois isto tudo à frente da malta toda, caramba, era melhor do que anúncio na televisão.
** Inocente, o senhor Alberto embarcou na carrinha da cigana como os meninos dantes acreditavam que podia acontecer se não comiam a sopa. Foi, e viram-no só mais uma vez ou duas. Nunca mais, ao fim daqueles anos todos, queixava-se o dono da pastelaria. Um ingrato.
** Ao que parece, encontraram o senhor Alberto, no outro dia. Dizem que foi em São João da Madeira, mas não garantem que não tenha sido em Carcavelos ou em Santo Tirso. Anda de carrinha grande, com a sua cigana, a vender malhas, fatos de treino e atoalhados, deve ter deixado o sobretudo amarelo a imitar pêlo de camelo à mulher e aos filhos daquela vidinha certa que levara até aquele dia em que a cigana perguntara se ele queria comprar. E para grande espanto e escândalo de quem possa ouvir, contam as más-línguas que o senhor Alberto anda de mão dada com a cigana, um homem já naquela idade, ora vejam lá, rapou o bigode que sempre lhe conheceram e não veste sequer fato – só usa blusões e calças de ganga, o ginja, a querer armar em acelera. E é que acelera mesmo, dizem eles – tirou a carta, nunca mais andou de autocarro, e guia a carrinha entre as fábricas e as feiras dessa estranha e paralela rota da moda «boutique Alcofa».
** Na antiga vizinhança do senhor Alberto dizem que a cigana lhe deu qualquer coisa a beber. Não pode ter sido de outra maneira. Pois se ela, nem lhe leu a sina...
** É verdade. Mas o senhor Alberto anda feliz. A cigana, cantou-lhe a buena dicha.
Lisboa, 1987

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3 Comments:

Blogger csi said...

Chapeau!
Como você faz falta na Televisão! Quando publica mais contos?

23 de maio de 2008 às 13:18  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Um exemplar do «Livro de Assentos», de J. Letria, é um dos prémios a oferecer por ocasião do 'page-view' 500 mil.

23 de maio de 2008 às 13:21  
Blogger antónio m p said...

Fez-me lembrar D. H. Lawrence em "A Virgem e o Cigano". Mas fez-me lembrar também Rodrigues Miguéis e Torga...

Fez-me lembrar ainda o dia em que o então Assessor de Ramalho Eanes recebeu na Presidência da República, com a simplicidade e a riqueza humana que empresta às suas personagens, uma Comissão de Trabalhadores como quem se encontra com os colegas de trabalho.

Se também me fez lembrar o apresentador zangado com o realizador por causa de um mal-entendido na RTPi, isso já faz parte dos mal-entendidos que só por graça é para aqui chamado.

A minha admiração sincera a esse homem sincero, Jornalista e Escritor. amp

23 de maio de 2008 às 19:53  

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