22.5.08

Acordo ortográfico

Por C. Barroco Esperança

ABSTIVE-ME, ATÉ AGORA, de tomar posição pública sobre o novo acordo ortográfico que jazia na gaveta das indecisões, zurzido pelos habituais opinantes do «porque não» e por alguns destacados intelectuais.
** Manuel Alegre, Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura são, no campo da cultura e da produção literária, figuras de destaque. Do primeiro estou próximo no campo político, ao último reconheço-lhe independência de espírito e a todos grande qualidade literária. São três intelectuais e grandes vultos da cultura portuguesa.
** Dito isto, não lhes reconheço mérito político para se oporem ao que, na minha modesta opinião, é uma decisão que peca por tardia. Parecem-me figuras do passado à espera de um frasco de formol para serem exibidas numa pharmácia que ainda faça manipulados.
** Qualquer dos três leu obras do padre António Vieira, quiçá o mais ilustre paladino do idioma português, referência de todos os falantes da língua comum. A idade e o currículo académico obrigaram-nos, a eles e a mim, a ler Fernão Lopes, Gil Vicente e até o recente Eça de Queirós com uma ortografia diferente da actual.
** Pessoalmente, ensinei centenas de alunos a escrever, com acento grave, os advérbios de modo derivados de adjectivos esdrúxulos ou proparoxítonos. A partir de certo momento, já não sei quando, sumiram-se tais acentos, por decisão legal. E então?
Actualmente corríamos o risco de que os países de língua oficial portuguesa aderissem à grafia brasileira. Era uma questão de bom-senso face ao número de falantes e, o que não é despiciendo, ao potencial económico do maior país da América latina.
** Se seguíssemos os doutos iluminados que percebem muito de português e se comportam politicamente como colonialistas o futuro do português acabaria como reserva ecológica de um curioso dialecto cada vez mais distante de uma língua viva chamada brasileiro.
** Ainda bem que os políticos, mais sensatos do que os intelectuais e os subscritores de todos os manifestos que lhe enviem pela Internet, decidiram de forma arrasadora em sentido contrário.
Camões, Bernardes, Vieira, Frei Luís de Sousa e Aquilino não se revoltam e Saramago teve a lucidez de perscrutar o futuro, talvez porque escreveu um magnífico Ensaio sobre a Cegueira.

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12 Comments:

Blogger Jorge Oliveira said...

Ao dizer isto :
«São três intelectuais e grandes vultos da cultura portuguesa»

depois isto :
«Parecem-me figuras do passado à espera de um frasco de formol para serem exibidas numa pharmácia que ainda faça manipulados».

e mais isto :
«doutos iluminados que percebem muito de português e se comportam politicamente como colonialistas»

o autor revela um cinismo recalcado que desqualifica a sua argumentação.

A menos que, atacando os “intelectuais e grandes vultos da cultura portuguesa”, que diz admirar, mas que de seguida ofende da maneira que se observa, o autor esteja a aproveitar a ocasião para se pôr em bicos dos pés. Bem falta lhe deve fazer, porque a posição de joelhos perante os brasileiros deve ser incómoda.

São argumentos destes que me ajudam a acreditar que estou do lado certo ao recusar este miserável acordo ortográfico. Eu e mais 40.000 “colonialistas” que, até ao momento em que escrevo, assinaram o Manifesto contra o acordo.

22 de maio de 2008 às 10:26  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

O assunto merece uma discussão lúcida.

Eu também assinei o manifesto, mas isso não impede que continue a interrogar(-me) acerca de outras realidades para as quais não recebo respostas concretas - porventura porque a questão do A.O. se transformou em mais uma das guerras ao bom estilo Benfica-Sporting):

No século passado houve 3 acordos desses (1911, 1931 e 1945) e ninguém se preocupou nada. Porquê?

À mistura, e já no nosso tempo, houve alterações significativas (como a abolição do acento grave em palavras como "ràpidamente").
Mais uma vez, não me lembro de ouvir uma voz contra. Porquê?

Finalmente, uma outra pergunta - que faço muitas vezes e a que ninguém me responde:

Porque é que toda a gente 'agradece' que já não se escreva como em cima se mostra (ortografias de Camilo e Fernão Lopes)?

Possivelmente, porque há a ideia de que, agora (e ao contrário da evolução da língua que faz com que - FELIZMENTE! - já não escrevamos como no séc. XV), o que está em jogo são poderosos interesses comerciais brasileiros.

Na realidade, há 18 modalidades de Espanhol, outras tantas de Inglês e não sei quantas de Francês, e isso não parece preocupar essa gente toda. Porquê?

22 de maio de 2008 às 10:50  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

E ainda:

Desidério Murcho diz que os anteriores acordos ortográficos foram possíveis porque a Democracia não estava implantada como está hoje.

Parece-me um pouco pobre essa explicação, mas é plausível. Hoje, as pessoas têm à sua disposição meios de protesto, de informação e de interrogação como nunca houve.

22 de maio de 2008 às 10:56  
Blogger Blondewithaphd said...

Tudo muito bem. Porém, contudo, todavia, não obstante, a língua enquanto entidade viva evolui sem necessidade de intromissões legislativas. Aí é que está a minha discordância deste acordo. O que é certo é que, sem leis e sem imposições, a língua alterou-se por si própria desde os tempos em que andávamos a tecer odes às "ondas do Mar de Vigo"!
Quem disse que o Português deste séc. XXI não se vai transformar sem o auxílio dos doutos legisladores? E que mal vem ao mundo se o Português Brasileiro evoluir num sentido e o Português Europeu evoluir noutro?

22 de maio de 2008 às 12:13  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

1-Os 2 exemplos que ilustram a crónica mostram, precisamente, como a língua se alterou ao longo do tempo, mesmo sem acordo ortográfico nenhum (e, se houvesse, era com quem?!).

No entanto, essas modificações foram, decerto, sendo objecto de alguma normalização:
Tanto Eça de Queiroz (agora Queirós)como Camillo (agora Camilo) escreviam com a mesma ortografia.
Ou seja: evidentemente, algum "acordo" ou "norma" (pelo menos de âmbito estritamente nacional) havia, era respeitado, e até alterado de vez em quando.

2- Um dia destes, almocei com um livreiro, e perguntei-lhe como é que, num país que tão pouco lê, há tantas movimentações de compras e vendas (milionárias!) de editoras.
Como se compreende, tudo é uma questão de mercado, e o A.O. tem tudo a ver com isso.

E julgo que é esse aspecto que faz com que muita gente encare estas alterações de uma forma totalmente diferente das inúmeras anteriores - de que, aliás, pouco falam. O actual A.O. aparece-lhes como artificial, desnecessário, e servindo apenas intuitos mercantilistas das editoras. Se calhar, não andam muito longe da verdade.

22 de maio de 2008 às 12:56  
Blogger Jorge Oliveira said...

Medina

Houve alterações ortográficas que tinham alguma lógica e as pessoas aceitaram-nas sem grande polémica. O exemplo do acento que foi dispensado em palavras como “ràpidamente”, tem sentido. Ninguém deixa de ler a palavra da forma correcta lá porque lhe falta o acento grave, que servia apenas para dizer que na palavra de origem do advérbio havia ali um acento agudo.

Já o mesmo não se passa com uma cabazada de palavras em que a norma portuguesa conserva as consoantes ditas mudas. Experimente-se ler a palavra “projecto” sem o “c” mudo. A tendência, em Portugal, será dizer “projêto”.

Claro que lógica não tem sido o mais forte atributo da ortografia, mas a partir do momento em que uma sociedade atinge um determinado estádio civilizacional, não convém mexer demasiado na ortografia, sobretudo mediante imposições oriundas da cabecinha de alguns académicos iluminados.

Este Acordo traduz uma cedência inaceitável aos brasileiros. Porque as alterações propostas não têm lógica e não respeitam a forma de falar em Portugal. É bom recordar aos mais esquecidos que o português foi inventado aqui. E que foram os académicos brasileiros que decidiram abastardar a escrita da nossa língua, sob pretexto de facilitar a vida aos analfabetos. Está à vista a forma como acabaram os analfabetos no Brasil ….!

Mas eu não me surpreendo com a existência de muitos portugueses cobardolas, que facilmente se põem de joelhos perante os estrangeiros, ou por serem militarmente mais fortes, ou por serem mais numerosos. No caso do Brasil é o número que os impressiona. Pois é. Já lá diz o velho ditado que “tamanho não é qualidade”…

A propósito de cobardias e cedências, há uma que tenho de assinalar. De há uns anos a esta parte, algumas grandes empresas, entre as quais a EDP, adoptaram uma pesada aplicação informática de gestão, com origem alemã.

Incrivelmente, apesar do preço extremamente elevado, a versão deste software em português apenas se encontrava disponível, pelo menos até há uma dezena de anos, em português do Brasil ! E os patetas que se intitulam gestores aceitaram, sem impor ao vendedor a tradução para português de Portugal. Caramba, até o Bill Gates percebeu que há diferenças radicais.

É óbvio que aquele aborto informático (no sentido linguístico, naturalmente) força os trabalhadores das empresas a lidar, não só com palavras escritas segundo as regras ortográficas do Brasil, mas também com termos estranhos, sem utilização no português corrente. Por exemplo, o termo “liberar”, nem mesmo com a actual moda liberal tem alguma utilização no nosso país. A não ser na rotina dos gestores da EDP e de outras empresas, quando têm que “liberar”.

A verdade é que as empresas que adoptaram a versão deste software em brasileiro mais não fazem do que contribuir para a desaprendizagem da escrita do português que se vai observando por todo o país.

22 de maio de 2008 às 12:56  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

A propósito da palavra "projecto":

A palavra "acerca" (que dantes se escrevia "àcerca" para 'abrir' a 1ª vogal), escreve-se agora como "acerca", do verbo "acercar".

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E há outras coisas confusas, na nossa língua:

"Pôr" tem acento, mas "compor" e "dispor" não têm - nem sequer "repor", que significa "tornar a pôr"!!

"Táctica" tem o "C" para abrir o "A", mas o acento já faz essa função. Além disso, "Prática" (que é semelhante) dispensa esse mesmo "C"!

-

Por outro lado, estarei disposto a aceitar o argumento de que «se deve alterar a língua no sentido de ela ficar (ou se aproximar) da forma como se lê para combater o analfabetismo» quando os brasileiros passarem a escrever «Brásiu».

22 de maio de 2008 às 13:12  
Blogger Blondewithaphd said...

"Brásiu", né? Góstei! Ficou légau!

22 de maio de 2008 às 15:39  
Blogger Jorge Oliveira said...

Medina :
Muitas pessoas pronunciam de forma fraca o primeiro “a” do termo "acerca" precisamente porque sem aquela acento grave existe essa tendência. A mesma que existiria se aceitássemos o AO e tirássemos as consoantes mudas de muitas palavras. Obviamente, estou a partir do princípio que os portugueses de fibra jamais aceitarão escrever como quer o iluminado Malaca Casteleiro e seus apaniguados.

Mas tens razão ao dizer que há coisas confusas na nossa língua. Essa é uma das razões por que se torna melhor não mexer muito. Dar tempo ao tempo. Deixar que o uso vá arredondando as arestas.

Todavia, alguns dos teus exemplos não são dos mais felizes. O “pôr" tem acento quando se trata do verbo, para se distinguir da preposição “por”, que até se lê de forma bem diferente.

Mas "compor" e "dispor" não têm, nem sequer "repor", que significa "tornar a pôr", porque não há perigo de estes termos serem lidos de outra forma, nem de fazerem confusão com outros termos.

Onde já podemos interrogar-nos é nos casos de "táctica" e “prática”. O acento agudo é inevitável porque são palavras esdrúxulas. Esteja lá o "c" para abrir ou não. Agora, entre as duas palavras, talvez a que esteja mal seja “prática” sem o “c” mudo. Neste caso, alguém foi demasiado prático…

Pela minha parte, embora não sendo especialista na matéria, defendo um princípio que me parece vantajoso : evitar que a ortografia se afaste demasiado da origem etimológica, de forma a impedir ou dificultar o reconhecimento dessa origem. Nesse sentido, a proximidade ortográfica com outras línguas que nos são próximas, também é vantajosa. Não ganhamos nada em nos afastarmos da ortografia dos países com línguas de origem latina, ou mesmo de origem germânica mas com grande influência latina como é o caso do inglês, a língua verdadeiramente universal.

Se alguém quer ser mesmo “prafrentex” esqueça esta treta do AO e dedique mais atenção ao inglês. Sobretudo diga aos filhos que se querem arranjar emprego em qualquer parte do mundo, que aprendam a falar fluentemente a língua planetária. Só assim poderão evitar esta prisão à beira mar plantada, onde são explorados vergonhosamente e em que uns quantos vivaços se atribuem remunerações astronómicas e até gozam com o pagode dizendo que “não se queixam”.

22 de maio de 2008 às 15:57  
Blogger sguna said...

É o que dá ter um país de incultos, a ser dirigido por outra cambada de incultos e/ou oportunistas.

22 de maio de 2008 às 18:32  
Blogger Carlos Esperança said...

Caro leitor Jorge Oliveira:

O facto de apreciar alguém num campo não me leva a tornar-me devoto em todas as circunstâncias.

Não sou maniqueísta como alguns comentadores deste post, que acham incultos todos os que se regozijam com o AO. Num canal televisivo, uma senhora, culta, atirou-se ao AO como gato a bofes e acabou por dizer que gostaria de voltar a escrever «pharmácia».

Graça Moura, por exemplo, é um excelente escritor e é contra o AO. Saramago é outro excelente escritor e é a favor. Politicamente discordo de ambos. Quanto ao Acordo estou com Saramago.

Quanto ao Acordo Ortográfico considero-o uma questão diplomática resolvida. O problema não reside na filologia, reside na política. E uma língua que permanece orgulhosamente só na memória de dez milhões de falantes, deixa de ser um idioma e passa a ser um dialecto.

Não compreendo a crispação dos adversários e parece-me uma reacção conservadora à natural tentativa de preservar uma língua comum.

Talvez nos mantenhamos os dois, caro leitor, a escrever «à antiga» quando o acordo se tornar de execução obrigatória mas seria um mau serviço, na minha opinião, opor-me a um acordo que tenta preservar um património comum aos milhões de falantes de que seríamos excluídos. Foi por isso que não assinei o Manifesto dos 40.000.

De qualquer modo, a si e aos outros comentadores, o meu obrigado pelos comentários.

22 de maio de 2008 às 18:57  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Voltando aos exemplos que dei atrás:

Táctica e Prática

Porque é que a 1ª palavra tem um "C" (desnecessário, no que toca a 'abrir' o "A") e a 2ª não tem?
Muitas vezes, a explicação escapa-nos, pois tem a ver com a etimologia.
Podia suceder que, vindo do latim (p. ex.), uma tivesse "C" e outra não.
Por sinal, vêm ambas do grego:

taktiké
praktiké

Num caso como este, e se os linguistas chegarem à conclusão que o "C" de "Táctica" não é necessário, não me repugna nada que ele desapareça.
É dos tais casos em que, se não suceder agora, sucederá mais tarde.

Mas isto foi apenas um exemplo, claro.

22 de maio de 2008 às 20:20  

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