21.6.09

Democracia e competência

Por António Barreto

O “MANIFESTO" DOS ECONOMISTAS,
propondo um período de reflexão sobre os grandes projectos de obras públicas, foi bem aceite. O que sugerem é razoável. Nada acrescentou ao que muitos, incluindo eles próprios, vêm dizendo há meses. Mas, desta vez, o facto assume nova dimensão. Na verdade, fizeram-no em conjunto, em papel escrito e assinado, com um suplemento de responsabilidade. São treze antigos ministros do PS e do PSD: oito das Finanças, dois da Economia, dois da Indústria e um da Agricultura. Quase todos professores universitários. Sem demagogia, fazem o diagnóstico severo da economia e das finanças. Pedem seriedade e rigor. Alertam para a hipoteca que, graças ao endividamento, pesa sobre as gerações futuras. Propõem uma avaliação dos grandes investimentos.
Sobre os fundamentos desta tomada de posição, pouco há a dizer. O governo deveria ouvi-los, ler o “manifesto” com atenção e seguir o que eles dizem. Sem orgulho, nem machismo. Sem teimosia, nem cruzada do tipo “Incineradora”. Consta, aliás, que é a operação em curso neste fim-de-semana: suspender o TGV e outras grandes adjudicações. É, evidentemente, o resultado das eleições europeias e a proximidade das legislativas. Mas também é um alívio. Sem dinheiro, inseguro quanto às decisões e temendo a ratoeira da sua propaganda, o governo queria pretextos para suspender. Entre o esforço de parecer um falso devoto de doçura e diálogo e a leitura atenta deste “manifesto”, o governo encontrou a saída.
.
O mais interessante é o acto em si próprio. Tem todo o aspecto de ser um gesto de “profissionais sérios”. De “gente competente”. De professores honestos e isentos, preocupados com o interesse público. Parece e é. Mas faz logo pensar num velho fantasma: o do governo das competências. Por que razão não são estes homens responsáveis por decisões de grande envergadura? Por que não estão todos, ou quase todos, no governo ou no Parlamento? Por que motivo os ministros e os deputados não os ouvem? Será que os competentes se querem substituir ao governo e aos políticos? (...)

Texto integral [aqui]

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3 Comments:

Blogger Eva Gonçalves said...

Chamo a atenção, para este facto: mesmo os mais qualificados técnicos e cientistas, nacionais ou importados, nem sempre estão de acordo, havendo muitas vezes relatórios contraditórios em relação a um mesmo tema ou investimento público. Pareceres esses, de organismos,ou de profissionais competentes que independentemente da sua seriedade, leia-se permeabilidade à corrupção, têm apenas opiniões profissionais divergentes. O caso das Incineradoras é paradigmático. É sempre mais fácil para um determinado governo, seja qual for, escolher,( nem sequer vou entrar pelo caminho das encomendas...) os pareceres que mais se aproximam às suas propostas, e deste modo,legitimá-las. A Ciência, e mesmo a tecnologia, nem sempre são infalíveis!
Quando existe, como no caso destes grandes investimentos em análise, uma maioria de técnicos, com uma opinião dominante...é caso para dizer, que só não existe compatibilidade governativa com estes pareceres unânimes, quando não existe verdadeiro interesse no futuro da nação. Não é que haja, incompatibilidade entre a democracia neste país e a competência técnica e científica... passa-se o mesmo lá por fora (não andaram os EUA a justificar a não tomada de medidas ambientais com relatórios científicos pouco alarmantes?)
O que há, infelizmente, mas realisticamente, é
simplesmente, uma incompatibilidade entre um qualquer poder político instalado, democrático ou não,e os reais interesses da respectiva nação, autarquia ou população... Se a democracia continua a ser aliciante? Claro ! Venham os idealistas e intocáveis que fazem muita falta!A democracia é concerteza, pelo menos, o melhor que se pode arranjar!!

21 de junho de 2009 às 15:56  
Blogger Manuel Brás said...

I Parte

É sensato travar
o TGV e outros que tais,
pois não se deve incentivar
descalabros orçamentais!

As dúvidas são evidentes
na respectiva rentabilidade,
com razões estridentes
não se conquista razoabilidade.

A falta de razoabilidade
e da mais pura sensatez,
desmascara a humildade
de gente de rosácea tez.

II Parte

O governo das competências
encontra-se muito distante,
tamanhas são as inapetências
de uma ignorância gritante.

Velha é a concepção
do governo dos competentes,
profunda é a decepção
de políticas impotentes!

Sem doentia teimosia,
nem cruzada renitente,
derrotar-se-á a hipocrisia
de gente incompetente!

21 de junho de 2009 às 16:37  
Blogger Táxi Pluvioso said...

Economistas portugas mais uma para o anedotário nacional. Se fossem bons estariam na América a ajudar o presidente Báráque que veria neles competentes profissionais que previram a crise e lhe anteviram soluções. E não uns patetas que não sabem o que dizem e muito nem matemática sabem. Enfim, é o povo que somos.

22 de junho de 2009 às 12:16  

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