15.6.11

Nos domínios do arbítrio

Por Baptista-Bastos

NA NOITE de Santo António, uma vendedeira de sardinhas assadas e bebidas coadjuvantes gritou, arfante de entusiasmo: "Que venha a crise! Que venha o FMI!" O negócio estava a render, Alfama abarrotava de gente, hora e meia para se arranjar lugar sentado. A afirmação da vendedeira não se desentendia com a realidade. Era, afinal, a imagem devolvida de um país a que não falta estilo popular mas carece de razão soberana.

Portugal está a meio caminho entre a realidade e a ficção. Sempre assim foi. A própria construção da nossa identidade é um milagre quase perfeito. Leia-se José Mattoso e António Borges Coelho. Mas Portugal, apesar de tudo, ilumina-se com o seu próprio brilho, recusa enclausurar-se em si mesmo, e detém um panteísmo específico que o tem levado a realizar o imponderável e o impensável.

O Algarve esteve cheiinho como um ovo de galinha de campo. Durante quatro dias o povo removeu sombras e incertezas e sublinhou o dito: perdido por cem, perdido por mil. Claro que, nestes extremos, há um esteticismo desesperado que deixa os sábios estrangeiros muito pasmados. A razão parece-me simples: não somos como eles. E ainda bem. Quem nos dirige e em nós tem mandado não nos sabe dirigir nem mandar. António Barreto, no discurso do 10 de Junho, falou, um pouco emocionado e levemente lírico, nesse "eu" interior. Criticou os que produzem a indiferença, e que a política, assim entendida e praticada, conduz à pior das dissoluções: a moral. Um texto escrito num idioma de lei e destinado, pelo dia e pelo fasto, a despertar as comoções de quem o ouvisse. Qualquer comparação com a redacção de terceira classe, dificultosamente escrita e penosamente lida pelo dr. Cavaco, é pura indigência mental.

Estamos à beira de coisas terríveis? Todos os dizem. E a massa informativa que recebemos a cada instante não é de molde a criar evasivas, mas torna ilusória qualquer esperança de se fazer uma escolha com base racional. Como disse a vendedeira de Alfama, se isto é a crise, então onde está a crise? Mas ela existe, e não é fluida nem abstracta. A nossa rejeição instintiva da crise é tudo o que nos resta como afirmação de independência e de decência pessoal. Há algo de ingénuo e de muito digno nesta resistência às evidências. Claro que há. É uma característica que nos diz respeito, que nos formou e nos tem ajudado a viver, por vezes no pior dos opróbrios.

As coisas têm passado depressa demais. Anos e léguas não nos deixam reflectir sobre o que nos vai acontecendo, e, até, "legitimam" a brutalidade de muitas decisões tomadas por quem tende a medir o homem com uma bitola comum. Estou a falar da troica e dos constrangimentos que impõe aos povos. Este poder absurdo e quase absoluto não é limitado por nenhuma lei nem por qualquer obrigação moral.
«DN» de 15 Jun 11

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3 Comments:

Blogger Bartolomeu said...

Na verdade, acabamos de viver uma conjuntura política desastrosa. Agravada indubitávelmente pelas conjunturas externas de que Portugal faz parte e de que depende.
Mas, alerta muito bem o caro Baptista-Bastos, para o estrambólico da obediência assumida a todas as "bacoradas" que os troikos decidiram despejar sobre este povo que tal como assinala também; «detém um panteísmo específico que o tem levado a realizar o imponderável e o impensável».
Tudo isto, é o incontornável resultado de mais uma caracterísca intrínseca ao mesmo povo: A veleidade das pessoas gastarem todas as energias a debater rótulos, em lugar de conteúdos!

15 de junho de 2011 às 18:17  
Blogger Bmonteiro said...

Como diz o caro Bartolomeu, dito de nós em 74/75:
“O quinto império”
Em português, as palavras são um simples meio de simpatia, ou o seu contrário. As pessoas perdem assim horas em conversas inúteis, só com o fim de garantir a sua estima recíproca (95)
Sem endereços e todos com o mesmo nome, obedecendo a dois ou três pequenos princípios, entre os quais o de inventarem títulos... (302)
Dominique de Roux (1977, Paris)

15 de junho de 2011 às 19:52  
Blogger Bartolomeu said...

É verdade, caro Bmonteiro!
Por isso, nutro uma grande simpatia pela figura do Marquês de Pombal... não o que se encontra em pedestal ao fundo do Parque Eduardo VII e ao cimo da Av. da Liberdade, mas do outro, aquele que "sob o mando" de El-Rei D. José, reformou Portugal. Mas, porque impregnado de uma visão futurista, reformou com vista à sustentação e ao progresso.
Para uns foi um déspota, mas pergunto; quantos déspotas e désputas, antes dele e depois dele, oprimiram, usurparam, destruíram, empobreceram o povo, tanto materialmente quanto moralmente, sem que qualquer tipo de obra deixassem atrás de si?!
Pode ser, tenho esperança, que o futuro nos venha a trazer um dia, alguém, capaz de olhar para esta Terra e este povo, e saiba dirigi-lo, motiva-lo, no sentido de lhe aproveitar e valorizar as competências, cada um com a sua, mas todas direccionadas com o mesmo fim; o de garantir a sustentabilidade, o conforto, a harmonia, longe da veleidade da supremacia e da detenção de valores materiais exacerbados, da detenção do poder, pelo poder.
;)

16 de junho de 2011 às 08:46  

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