19.9.11

Já chegámos à Grécia

Por Carlos Fiolhais

O DESFALQUE nas contas públicas Madeira de João Jardim que acaba de ser revelado é um caso de polícia que, se não for rapidamente resolvido e exemplarmente punido, mostrará que afinal não há mesmo nenhuma diferença entre Portugal e a Grécia. Ou se há, é para pior aqui, pois a ilha de Creta não tem a irresponsável autonomia de que goza a Madeira. Nem nenhuma das outras numerosas ilhas gregas.

O culpado tem um rosto, pois disse logo que era ele e, parece que com muito orgulho (alegou, pasme-se, em linguagem criminal, ter actuado em "legítima defesa"). Mas são cúmplices todos aqueles que sabiam e não disseram nada, muitos companheiros do mesmo partido de João Jardim, e aqueles que fazem agora grande alarido mas que estiveram no governo da nação sem terem tido a capacidade de ver algo que tinham obrigação de ver.

Ilibo o actual ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira. Ele analisou com argúcia os irresponsáveis gastos de João Jardim no seu livro "Os Mitos da Economia Portuguesa" (Guerra e Paz, 2007) e perguntou: "Porque é que João Jardim é João Jardim?" Respondeu: ele joga o "trunfo independentista". E destrunfou, embora sem tomar partido por essa opção: "Se a Madeira quiser, um dia poderá tornar-se independente".

Há eleições em breve na Madeira, se João Jardim voltar a ganhar e se, não actuando entretanto ou pouco depois a polícia, o país todo tiver de lhe continuar a pagar os desmandos em vez de ser ele a pagar pelos seus crimes económicos será caso para considerar seriamente essa até agora remota possibilidade.

In De Rerum Natura

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4 Comments:

Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Acerca dos outros que sabiam:

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O último a saber

Manuel António Pina (JN)

O "desvio colossal" das contas da Madeira escondido pelo PSD regional estava, pelos vistos, no segredo dos deuses. No caso, da santíssima trindade Jardim-Cavaco-PGR. O marido, que é como quem diz o pagante contribuinte, foi, como sempre é, o último a saber.

Segundo confirmaram ao "Público" deputados madeirenses, Cavaco "inteirou-se da situação financeira da região durante as audiências concedidas aos partidos no final de Julho, antes de marcar a data das eleições regionais" e, além dele, a situação "era também do conhecimento dos representantes do Ministério Público junto da secção regional do Tribunal de Contas da Madeira".

E ambos, presidente e MP se calaram, enquanto o Governo fazia cortes cegos em salários, pensões e prestações sociais, na Educação e na Saúde por conta do défice e em obediência aos "mercados" e a Frau Merkel, sua profetisa. Isto apesar de a situação configurar eventualmente um crime (por isso a PGR, subitamente desperta, a estará a "analisar") e ser, nos termos da lei, de denúncia obrigatória.

A expectativa, agora, é apenas ver que prodígios de imaginação jurídico-financeira mobilizará o Governo para justificar que o "buraco laranja" de Jardim ("referência incontornável" para Cavaco; exemplo de "um bom governo PSD" para Manuela Ferreira Leite; "exemplo supremo na vida democrática" para Jaime Gama; "economicamente sério" para Almeida Santos) seja cobrado aos do costume.

20 de setembro de 2011 às 11:29  
Blogger Pedro Tomás said...

Fica uma provocaçãozinha:

Se AJJ tiver mais uma vez o voto dos madeirenses, será que temos o direito (pelo menos teórico) de vender a ilha da Madeira (nem que seja por 1€) e libertar-mo-nos deste ónus?

A esta hora já pareço um alemão a pensar:

"Se eu não escolho quem manda na despesa deles porque raio hei-de ajudar a pagar as suas dívidas?"

21 de setembro de 2011 às 00:00  
Blogger Carlos Esperança said...

Parabéns a Carlos Fiolhais pelo post.

21 de setembro de 2011 às 18:29  
Blogger JARRA said...

Os dois maiores desfalques do erário público, ambos com contornos criminosos, foram feitos por actores da galáxia Psd - o Bpn e a Madeira. Por eles pagamos impostos extraordinários, cortes salariais, agravamento do custo de vida.
Do desbragamento financeiro do Ps, estão agora também todos conscientes.
Mas conseguimos escapar à governação desta constelação?! Alguém espera dos mesmos actores a súbita redenção?!
O mal nunca é o que nos aconteceu - é não sabermos encontrar soluções para os problemas que nos afligem! E Portugal não sabe!

22 de setembro de 2011 às 16:57  

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