26.10.11

Pela crise

Por João Paulo Guerra

UM GRANDE amigo meu foi de Lisboa a Mogadouro - 463 km, cinco horas e tal de condução não havendo problemas - por uma boa causa: participar na cerimónia de entronização numa confraria enóloga e gastrónoma, com mais causa pelo facto de ele próprio ser um dos entronizados. Razão acrescida pelo facto de Mogadouro, para além do património natural e construído e das riquíssimas tradições, ser a terra da posta e da marra, das cascas e do bulho, do estufado de javali e do cabrito assado, da caça, mas também dos peixinhos do rio em escabeche, dos cogumelos e das castanhas, do azeite do Vale do Sabor, tudo isto bem no centro da região do Douro Superior, o Alto Douro Vinhateiro como o designou o Marquês de Pombal.

Tudo isto para dizer que o meu amigo, chegado a Mogadouro, estacionou no meio de uma discussão sobre a crise, animada por um dos confrades que insistia em procurar respostas para uma singela pergunta que o inquietava: «Mas para onde é que foi o dinheiro?».

Cada cabeça, sua sentença, não se atinava com a pista do dinheiro. Até que outro confrade, com mais razão que emoção, aparentemente mudou de conversa, perguntando ao meu amigo como lhe tinha corrido a viagem. A resposta desenvolveu-se ao longo do mapa das auto-estradas - agora todas elas com custos para o utilizador -, com sugestões alternativas por itinerários principais e complementares. A verdade é que o meu amigo tinha saído de Lisboa pela A1, seguindo depois pela A23 e A25, saindo depois pela N324, mais tarde pelas N340, 332, 221 - circundando por 12 rotundas - e ei-lo que tem Mogadouro à vista, com seu castelo altaneiro. O interlocutor do meu amigo recapitulou o mapa real do percurso, enumerou rigorosamente os itinerários alternativos, e concluiu: «Vieste pela crise».

«DE» de 26 Out 11

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