15.11.11

Democracia

João Paulo Guerra

FINALMENTE alguém acordou e começa agora a falar-se sobre a chancela de inconstitucionalidade e ilegalidade que ameaça marcar algumas das medidas de austeridade anunciadas pelo poder para supostamente conter a crise, designadamente no Orçamento de 2012.

Mas o que é extraordinário é que grande número de democratas, perante a eventualidade de medidas da austeridade não passarem no crivo da constitucionalidade, acharem muito bem que, pura e simplesmente, se furte o Orçamento e a legislação avulsa à fiscalização do Tribunal Constitucional. Isto só prova que a democracia é um valor, um ideal e uma prática colados com cuspo na formação de muita gente com responsabilidades. A Dra. Ferreira Leite não estava a fazer blague quando, em 2008, sugeriu a suspensão da democracia por seis meses. Há muita gente com a mesma ideia na cabeça mas sem coragem para dizê-lo.

A democracia será pois um adereço que se usa quando vai bem com o tom do vestuário mas quando as conveniências o recomendam vai para a gaveta da cómoda das incomodidades. Se o país enverga o figurino da ‘troika' ou a farda do FMI, a democracia recolhe à protecção das bolas de naftalina até nova ordem. Entretanto, fica a vigorar no país uma modalidade de ditadura das Finanças, nada original pois até o Botas de Santa Comba a descobriu e pôs em vigor.

Para que assim seja, haverá que assegurar o anormal funcionamento das instituições, não vão alguns rebates de consciência democrática estragar o arranjinho assinado com os ocupantes da ‘troika'. Posto o que, é só manter as forças de vigilância em alerta laranja. As gazetas rezam que já existe um Plano B para enfrentar previsíveis recalcitrantes. O chanfalho sempre foi a continuação da política por outros meios.
«DE» de 15 Nov 11

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2 Comments:

Blogger José Batista said...

E o Botas possuía até uma característica que falha em muitos "democratas" da actualidade: não roubava.
Ou, pelo menos, não era conhecido por ladrão.
Não que eu consiga ver-lhe virtudes, mas parece que era mesmo assim.
Tristes vão os tempos, em que nos ocorrem tais constatações.

15 de novembro de 2011 às 15:13  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

José Batista,

Quando um político rouba, isso tem a ver com o facto de obter poder com esse dinheiro.
O essencial (o fim) é, portanto, o PODER e não o DINHEIRO.

Um verdadeiro ditador obtém o PODER sem precisar da fase intermédia do dinheiro, e daí a célebre frase «Melhor do que ser rico é mandar nos ricos».

Só os ditadores inseguros é que se preocupam em enriquecer (prevendo um possível exílio). Os que se sentem de pedra e cal podem dar-se ao luxo de viver asceticamente, e muitos tiram prazer nisso mesmo.

15 de novembro de 2011 às 18:55  

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