22.11.13

Hoje, derrubo grades, amanhã defendo-as

Por Ferreira Fernandes
Não gostei de ver os polícias a subir, como invasores, as escadarias da Assembleia da República. Não gosto de ver invasões da Assembleia da República, mesmo que só sob a forma de ameaça. As forças de segurança têm razões de protesto como a maioria dos outros portugueses. Mas não têm as mesmas possibilidades de exercer o direito a esse protesto. 
Há coisas que uns têm e outros não têm, e isso é assim não só por causa da injustiça com que o mundo está desorganizado; é também assim por causa de como o mundo tem, e tem mesmo, de ser organizado. 
Já é altura de todos entendermos esse relativismo. 
Os homens do lixo podem fazer uma greve total durante dois dias; já os médicos e os enfermeiros não podem. 
Os camionistas, na estrada, podem combinar parar em todo o País às 15.35 de um determinado dia; já os pilotos de avião, no ar, não podem. 
Se calhar já todos entendemos esse relativismo, sem que nenhum grupo social se sinta desapossado dos seus direitos. Ora os polícias, além de não poderem, como os restantes portugueses, derrubar as grades e galgar as escadarias como se fossem tomar São Bento, têm uma razão suplementar para não o fazer. É que, fazendo, permitem-se aquilo que não permitiriam aos outros cidadãos fazer, quando eles, polícias, estão a exercer a sua função profissional. 
Claro que deixo toda esta conversa no pressuposto de que o Estado de direito continua vigente. Mas se estamos em insurreição, já não está aqui quem falou.
«DN» de 22 Nov 13

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3 Comments:

Blogger Dinada said...

Excelente texto. Expressa, na íntegra e com a serenidade e ponderação que lhe é conhecida, o meu ponto de vista.
Parabéns!

(tenho pena que não exista a possibilidade de o partilhar noutras redes...seria uma aCto didáCtico, a meu ver)

22 de novembro de 2013 às 12:37  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Dinada,

Os textos de F.F. no «DN» são muito divulgados, nomeadamente no Facebook.

22 de novembro de 2013 às 13:37  
Blogger José Batista said...

Concordo com o texto, mas só até à pressuposição de que o "estado de direito" continua vigente, aliás com dúvida do próprio autor; ou sem certeza, uma vez que coloca outra hipótese...
Mas não há dúvida, a meu ver. Há muito que Portugal é um "estado de torto". Tortíssimo, em desfavor dos mais fracos.

22 de novembro de 2013 às 19:38  

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