20.4.18

TRATADO SOBRE A MÃO PESADA OU UMA MÃO CHEIA DE NADA

Por Joaquim Letria
Conheci os tempos em que ainda não havia vacina para a poliomielite, mais conhecida como paralisia infantil. Em conjunto com a sorte que sempre tive ao jogo, esse facto fez com que eu fizesse toda a minha vida com pouco uso das mãos. 
Tal como os miúdos que gostavam de se exibir de bicicleta com as mãos fora do guiador, também no meu íntimo me orgulho da habilidade de ter vivido até hoje sem fazer com as mãos metade do que toda a gente faz. Portanto, sei por experiência própria que muita boa gente se preocupa mais com as mãos dos outros do que verem onde metem as suas...
Há pessoas que falam com as mãos, de tal maneira gesticulam, assim como dos cirurgiões aos escultores, passando pelos carteiristas, há boas mãos. Tradições houve que caíram em desuso, como selar um acordo com um aperto de mãos, daqueles que o meu avô me ensinou que valiam mais do que um contrato assinado.
Os que se reivindicam de serem cavalheiros já não beijam a mão de uma senhora, bem como há outros que têm a espinha suficientemente direita para deixar alguém de mão estendida.
A mão solidária é aquela que agarra a outra, mas o símbolo da UGT deitou esse significado para a perdição. Mãos limpas também passaram a significar uma operação anticorrupção, como sucedeu em Itália, em vez de ser só um orgulho.
Também se recomenda que a mão esquerda não saiba o que a direita faz. Todavia, uma reconciliação ou o início de um período de paz ainda se celebra com um aperto de mãos. Por outro lado, o poder e a influência ainda se medem pelas mãos longas que se tem, assim como uma aflição faz com que se deite as mãos à cabeça e uma arma nos deixa de mãos ao ar.
A uma criança ensina-se que não deve levantar a mão para alguém mais velho, assim como qualquer cigano sabe que não é preciso rogar pragas porque disso se encarregará a mão negra, que de tudo há nas vinhas do Senhor…
Andar atarefado é trabalhoso porque se está com algo entre mãos, assim como um pobre de Cristo traz uma mão à frente e outra atrás. Também é honroso não cair naquilo que está muito em voga, que é meter a mão na massa, a ponto de deixar o desonrado pecador nas mãos de Deus.
É verdade que se pode dar uma bofetada sem mão e ainda não se perdeu por completo o hábito de pedir a mão duma donzela. Os pintores dizem que as mãos são a parte do corpo mais difícil de pintar e perante um negócio ruinoso se reage ao infortúnio com a expressão de que se tem duas mãos para trabalhar e garantir o sustento da família. Talvez quando se tem as mãos frias se tenha o coração quente, para lá dos defeitos da circulação sanguínea.
Enfim, como por aqui vêem, há mais definições do que os dedos das mãos. E por aqui me fico porque com mão morta vim bater a esta porta e nunca tive vocação para andar no beija-mão.

Publicado no Minho Digital

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2 Comments:

Blogger Ilha da lua said...

Um texto fantástico!!!Escreve lindamente!!!Com tanta gente a escrevinhar...Porque não escreve mais um livro?

21 de abril de 2018 às 01:01  
Blogger José Batista said...

Que texto elegante e saboroso.
Parabéns e obrigado.

22 de abril de 2018 às 08:43  

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