14.4.19

Grande Angular - Laços de família

Por António Barreto
A tradição é antiga e a literatura imensa. Dos Gregos aos Americanos, passando por Franceses e Russos, todos os grandes povos que se dedicaram à política, às letras e às artes, sabem que o tema dos laços familiares é infinito. Renova-se a cada ano e sempre se diz que nada há de novo, já tudo lá está, na tragédia, no romance ou na grande ópera. Os recentes episódios portugueses são interessantes e de certo modo novidade, mais pela maneira como se discute do que pelo conteúdo dos factos.
São muitas as situações em que os laços de família têm importância. Pelo que são e pelo que discriminam. E a opinião pública reage por vezes com veemência, inocente ou invejosa, mas aceita-se em geral que quem defende os seus faz muito bem. A identidade dos nomes funciona com a fortuna, tanto na empresa capitalista como na propriedade fundiária. Muito bem, do ponto de vista da família. Por vezes, muito mal, se olharmos para os resultados. Há quem diga que, salvo excepção, uma grande empresa familiar não dura mais de três gerações e que o fim anunciado se deve à incompetência dos descendentes, às partilhas e aos “rendeiros” inúteis.
Também não surpreende que haja óbvia herança no reconhecimento técnico, científico e profissional. É muito fácil encontrar, na engenharia, na advocacia e na medicina linhagens familiares directas e indirectas. Há talentos que se herdam, nem que seja pela proximidade.
Nos costumes das classes e no meio social, as ligações familiares são essenciais. Festas, casamentos e férias, sem falar nos comportamentos, devem tudo às famílias e as famílias devem muito aos códigos familiares. Pássaros da mesma plumagem voam juntos. Com a ressalva da inveja e da luta de classes (não aceitar aos outros o que se pratica em casa), as comunidades familiares são aceites e prezadas.
Na cultura, nas artes e até nos partidos políticos, encontramos gerações sucessivas, herdeiros e dinastias. Filhos de escritores, jornalistas, médicos, juristas, engenheiros e até militares são com frequência de profissão idêntica. Mesmo que não sejam do mesmo ofício, usufruem de curso superior, frequentam os mesmos locais de poder e reputação. Bichos da mesma espécie vagueiam em conjunto, caçam, amam e passeiam em grupo.
Os filhos, os netos e os sobrinhos dos médicos, dos advogados e dos artistas não são sempre médicos, advogados e artistas. Os dos escritores, jornalistas e engenheiros também não. Mas a elite é filha da elite. A reprodução social, estudada há mais de cem anos, não é assim tão directa. Mas é eficaz. Viver em casa de intelectual ou de profissional liberal, com biblioteca e música, onde se viaja e fala línguas, onde se sabe quem foi Leonardo, cria vantagens. Nos corredores da Faculdade, no auditório das academias, nas salas dos hospitais e nos clubes sociais, quem se conhece sabe. Quem não se conhece, não vai. Vejam-se as listas dos sócios, dos mestres, dos escritores e dos intelectuais. É assim há anos. É assim há séculos. E com excepção da pura inveja, parece que ninguém se surpreende com a consanguinidade nem com a herança de reputação. Filho de peixe…
Tudo parece pois consensual. Quem afirma que se deve combater o tropismo familiar e os sentimentos de protecção dos seus? Sabemos que há quem queira ser independente e recuse ajudas familiares. Como há quem dedique a parentes os seus ódios. Mas, na esquerda e na direita, nos ricos e nos pobres, há qualquer coisa de indelével nestes gestos de família! Quem sai aos seus não degenera. E são odiosas as sociedades que tentam destruir os laços de família livremente aceites ou escolhidos.
No entanto, a discriminação pela fortuna parece mais detestável do que todas as outras. O ódio aos ricos sempre foi uma qualidade por estas bandas. Mas temos de considerar que a discriminação pelo nome, pela profissão e pelo grau académico não é menos detestável. Apesar de mais bem aceite. Por que razão o meio familiar é pior na fortuna? Por preconceito e inveja. E na política? Porque aí o meio é sempre ilegítimo.
Dinastias e gerações profissionais são tradições no mundo inteiro e em Portugal também. No Direito, na Diplomacia, na Medicina, no Jornalismo, na Televisão… Nunca se chega ao fim desta lista. Quer isto dizer que não há problema? Não. Há. E muito sério. Nepotismo. Favores em prejuízo de outros. Meios ilícitos. Chicanas burocráticas à margem da lei. Trocas de cunhas e favores. A tudo temos de dizer sim ou não. E agir pela lei. Mas também há problemas de pudor e decência. Por mais meritório que pareça, ter casais ou famílias a exercer funções ao mesmo tempo dá mau sinal, levanta todos os problemas imagináveis, torna moral e politicamente vulneráveis os seus beneficiários, fomenta estratégias e fidelidades que nada têm a ver com o essencial, o serviço público ou a função de Estado.
As famílias (de sacramento, de contrato, de facto ou de amor) são dos mais poderosos factores de coesão, de solidariedade, de equilíbrio psicológico e de tranquilidade emocional. Também são dos mais potentes instrumentos de opressão, sufoco e conflito. São ainda dos mais importantes factores de desigualdade, discriminação, injustiça e corrupção. E podem ser finalmente veículos de liberdade e segurança pessoal. É com estas famílias que temos de lidar.
Parece haver consenso quanto às famílias como instrumento de equilíbrio e coesão. Só há mesmo dois problemas. O primeiro é o dos meios de promoção e protecção. Podem ser ilícitos, ilegais e imorais; e prejudicar outros. O segundo é o que diz respeito à política. Por que razão na política, no Estado, nas instituições e na Administração Pública (áreas em que as famílias e as cunhas são frequentes…) são condenáveis os laços familiares e não merecem a benevolência das outras áreas? Porque é coisa pública. Porque é coisa de todos, com os recursos de todos. Porque o voto não deveria ser um gesto de fidelidade, mas um contrato de confiança. Porque o país é de todos que não devem ser prejudicados por uns. Porque o Estado, o governo e a política não devem ser preenchidos apenas por advogados, brancos, homens, católicos, gente do mesmo partido e muito menos gente das mesmas famílias. 
E temos de ter paciência. Marido, mulher ou filha de ministro não têm os mesmos direitos. Filho e tio de secretária de Estado não têm os mesmos direitos. E é errada a ideia de que “lá por ser filho ou mulher de ministro, não pode ser prejudicado”. Se “prejudicado” quer dizer não nomeado ou não ter subsídio, pode. E deve!
 Público, 14.4.2019

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1 Comments:

Blogger Ilha da lua said...

Por vezes,tenho a sensação, que há alguma irresponsabilidade,e,até uma certa leviandade,da parte dos políticos a tratarem a coisa pública Chegados ao poder, parecem esquecer,que foram eleitos para governar o que é de todos ,com ética,competência e sobretudo com respeito pelos cidadãos que neles confiaram

15 de abril de 2019 às 19:31  

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