22.5.20

Sem Pão nem Circo

Por Joaquim Letria
Não me parece estar a prestar-se grande atenção às dificuldades extremas que muitos  milhares de portugueses estão já  a viver em consequência da pandemia.
As pessoas ligam a números e estatísticas mas esquecem-se de traduzir esses números e variáveis, como agora também é moda dizer, em pessoas de carne e osso, em velhos solitários, em crianças subnutridas, em trabalhadores desempregados, em comerciantes sem comércio, em inquilinos sem dinheiro, em senhorios sem rendas, em lojistas sem lojas, em fábricas fechadas, em pessoas com fome, muitas das quais trabalhando, nem que seja em parte time ou permanecendo em regime de “lay-off”.
O Banco Contra a Fome fez saber que está a receber mais de mil pedidos de géneros por dia para gente com extrema necessidade e a Presidente do Banco esclareceu que os mais de mil pedidos diários não correspondem ao mesmo número de pessoas. A maior parte dos pedidos são feitos por instituições e há num único pedido, por vezes, quantidades destinadas a asilos, paróquias, lares, escolas, que esmolam cada um quantidades superiores às necessárias a um mínimo de 150 pessoas.
Os políticos são fraquinhos e andam noutra. A gente vê-os preocupados com os fundos, com a sorte do Centeno, com as discussões europeias, os 850 milhões de mais dinheiro público para um banco privado sem conhecimento do Primeiro Ministro e antes que façam uma auditoria a esse banco. Também ficamos admirados com as cabecinhas pensadoras que estudam o distanciamento social nas creches e nas praias, proíbem as visitas aos lares de velhos ou mexem na vida dos jogadores do futebol que desejam que regresse mesmo à porta fechada. Depois há o entretenimento dos totoCOVID 19, com os seus mortos, cuidados intensivos, recuperados, infectados, por idades, regiões, províncias, países e continentes.
Para além da miséria que a maioria não vê e outros não querem ver, mas que está aí, há outras duas misérias ainda mais dolorosas: a miséria escondida e a miséria envergonhada. Não sei se cabem nestas duas categorias a situação dos circos e a das bandas de música. Há mais de 30 pequenos circos fechados, espalhados pelo país, sem dinheiro para pagarem despesas e enfrentando a má vontade da maioria das autarquias, sem que lhes perdoem taxas e impostos de veículos pesados parados, que pagam tanto ao Estado como os camiões das transportadoras. Também dezenas de bandas de música, que através do país substituem muitas vezes o Estado, no ensino e formação profissional de músicos, constituindo mini—conservatórios, real alfobre de talentos que vemos despontar em Portugal e no estrangeiro, estão na mais difícil situação sem que lhes chegue uma merecida e possível ajuda, nem uma palavra sequer.
A pouco e pouco vamos ficando sem pão nem circo…
Publicado no Minho Digital

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1 Comments:

Blogger opjj said...

Caríssimo j. Letria, Há mês e meio que eu disse que Costa e ser o COVEIRO do país.
Agora anda a correr atrás do desastre clamando por almoços e pessoas.
UM politiqueiro que afirma que não há austeridade, quando centenas de milhares não recebem um tostão.
Impressiona-me que perante a desfaçatez ainda venham para as TVs dizer que 80% está com Costa e Marcelo.
Não lhes toca! Eu conheço casos!
Cumps

22 de maio de 2020 às 20:53  

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