23.7.20

A União Europeia e a emissão de dívida

Por C. B. Esperança
Nenhum país é inteiramente autónomo e há séculos que a interdependência se aprofunda e a sobrevivência se tornou mais difícil fora de grandes blocos.
A desgraça da UE, com população e PIB idênticos aos EUA, resulta dos nacionalismos que a corroem e de cálculos partidários sobre a tomada do poder perante a debilidade do bloco económico cuja integração social e política não foi feita nem tentada.
Portugal é um país que, no meu ponto de vista, deve à Europa e, particularmente à UE, depois da adesão, a democracia e o desenvolvimento que só quem viveu a pobreza e a repressão da ditadura sabe apreciar.
As recentes negociações sobre o fundo de recuperação, numa época catastrófica, onde a pandemia criou um clima de incerteza e acelerou as tendências autoritárias de governos, constituem uma arma de arremesso para os que preferem ainda um país orgulhosamente só ou de partido único. A cimeira europeia de Bruxelas produziu o acordo de fundo para a recuperação da UE, sujeita no dia de hoje à aprovação do Parlamento Europeu e ainda a incertezas evitáveis numa federação de Estados.
De qualquer modo, foi um acordo histórico. Pela primeira vez os Vinte e Sete países da UE acordaram a emissão de tão vultuoso financiamento e tão elevado montante a fundo perdido. Imagine-se a pressão dos juros a que seriam submetidas as dívidas soberanas dos países de economias mais débeis perante a necessidade de empréstimos urgentes!

É injusto desdenhar o precedente histórico da UE, que prevê um endividamento colossal para injetar ajudas a fundo perdido nos países e nos sectores mais afetados pela crise da pandemia covid-19.
Apesar do egoísmo dos países habituais e de não estarem garantidas de forma definitiva todas as decisões tomadas na madrugada de terça-feira, imagina-se a tragédia que seria o fracasso da longa e dura cimeira da UE. Assusta pensar que a corajosa decisão para o período 2021-2027 possa ser comprometida por parlamentos de países onde a votação é obrigatória.

Admiro as bravatas dos que invocam a dignidade para recusar contrapartidas, insultam a generosidade dos contribuintes líquidos, menosprezam os negociadores e esquecem a visão da Sr.ª Merkel, a mais europeísta dos alemães e a mais consciente dos demónios nacionalistas que renascem na Europa. Julgam que quem precisa tem o direito de impor as condições.
Não se ignoram os desafios políticos e legislativos a que Portugal fica sujeito e o défice tecnológico e de recursos humanos que vai enfrentar. Temos de confiar na capacidade dos políticos que, ao contrário do que seriam capazes os que os acusam por sistema, são servidores públicos de cuja inteligência, capacidade e dedicação depende o nosso futuro próximo.
É essencial que todos os partidos colaborem, com a sua visão diversificada, para que os vultuosos capitais transformem Portugal num país mais verde, sustentável e igualitário.
Parabéns, União Europeia. Obrigado, União Europeia.

Ponte EuropaSorumbático

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1 Comments:

Blogger opjj said...

Não creio que haja tantos a quererem partido único. Os que o conheceram situam-se na faixa etária dos 75 para cima e não serão assim tantos.
Sobre a cooperação dos partidos, o primeiro a rejeitá-lo será o PS. Se atender ás farpas lançadas, e o mau perder, entendo que estamos perante um ditadorzeco disfarçado.
Cumprimentos.

23 de julho de 2020 às 19:06  

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