3.9.20

O marisco e o molete – Desventuras de um provinciano (minicrónica)

Por C. B. Esperança

Enquanto vivi na Guarda, com dinheiro escasso, eram raras as extravagâncias, refeições fora de casa, lanches com amigos ou cervejas. Nem para o tabaco e o café bastava o que recebia dos avós, pais e vários expedientes, que incluíam a visita a padrinhos e algumas cartas de namoro encomendadas, por cuja redação me fazia pagar.


As maiores despesas eram feitas no Bife à Floresta, no restaurante que lhe dava o nome, e nas imperiais da Casa de Sumos, com tremoços, o marisco de Cavadoude, e raramente com moelas ou amendoins, pagos à parte.

Não sei se sabia o que era o marisco e ignorava seguramente o sabor. Quando fui para a Covilhã dar aulas, graças a convites dos amigos do grupo do Dr. Raposo de Moura, que me acolheram, participei, com o apetite da idade, em opíparos banquetes.

As sardinhadas das segundas-feiras, na quinta do Sr. João Heleno, com sardinhas oferecidas pelo Jerónimo dos Santos, compradas no fim de semana na lota da Figueira da Foz, eram um agradável festim.

No entanto, eram as refeições no 1.º andar do Café Montalto que tinham mais requinte. O Artur Campos, seu proprietário, tratava o grupo com desvelo e mandava cozinhar o marisco que o Jerónimo dos Santos trazia e oferecia ao grupo que integrava.
Um dia, com o delicioso arroz de marisco, depois de ter acabado o pão torrado, pedi um molete, nome que na Guarda se dá a um pãozinho de bicos, ali designado papo-seco. O beirão não dispensa pão à refeição e, com a estranha demora, acabei o arroz de marisco.

Só então o Alfredo, solícito empregado, apareceu com a suculenta omelete de três ovos que, para não dar parte de fraco, acabei por comer. Era conhecido o meu apetite, não sei se fui levado à conta de excêntrico ou se causei admiração por me bater ainda com essa omelete com batatas fritas, antes da sobremesa e do café.

Tive mais sorte num lanche, algum tempo depois, com sapateiras, animais de carapaça de onde retirava o recheio com uma colherzinha, para barrar o pão torrado, a que se seguiu uma enorme quantidade de camarões fritos com piripiri.

Devo ter sido o primeiro a terminar, quando o Alfredo pôs à minha frente um recipiente com uma grossa rodela de limão a nadar. A minha dúvida era se o limão se comia antes ou depois.

Valeu-me a hesitação porque, a seguir, o Leite da Silva, bibliotecário da Gulbenkian, mergulhou os dedos no que verificaria ser água tépida, retirou o limão e começou a esfregá-los.

Bastou imitá-lo. De outro modo, da água e do limão, só teria sobrado a casca da rodela.

2 Comments:

Blogger SLGS said...

Muito bom. Coisas da juventude inexperiente, por falta de prática ou por falta de oportunidade de aceder à prática.
Qual provinciano, como eu, não passou por situações iguais ou semelhantes? Boa tarde.

3 de setembro de 2020 às 17:35  
Blogger Fernando Ribeiro said...

É curioso que a última vez que ouvi pronunciar a palavra "molete" foi na Guarda, precisamente, e já lá vão mais de dez anos. Aqui no Porto, quando eu era miúdo, esta palavra era de uso corrente, mas agora já não se usa mais, não sei porquê. Quase só os mais velhos, como eu, é que a conhecem. Agora, se alguém pedir um molete num restaurante do Porto, também já corre o risco de ser servido com uma omelete...

4 de setembro de 2020 às 02:24  

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