21.4.05

É de mestre(a)!

Confrontado com as primeiras propostas governamentais acerca do «Choque Tecnológico», Belmiro de Azevedo comentou que o Estado devia começar por aplicá-lo na Função Pública.
De facto, e tendo em conta o descalabro (que, inúmeras vezes, se confunde com o ridículo) da informática na Justiça, nas Finanças, na Educaçãona Segurança Social, etc., poderá pensar-se que tem toda a razão.

Mas veja-se como, afinal, pode haver honrosas excepções:

Quando um dia me pediram para escrever alguns textos, fiquei muito honrado, mas o convite apanhou-me numa altura em que estava pouco ou nada inspirado. E, depois, quando me veio a inspiração, estava tanto calor que não me apetecia estar em casa.

E foi assim que peguei no portátil, procurei um banco numa boa sombra de um jardim simpático e, tentando abstrair-me do chilreio dos passarinhos, comecei a trabalhar.

Ora, a certa altura, apercebi-me de que uma velhinha, tão pequenina quanto curiosa, se sentava ao meu lado e espreitava, procurando bisbilhotar o que eu estava a escrever. O facto de o monitor ser de matriz activa permitia que ela, mesmo de um ângulo desfavorável, pudesse ver tudo à vontade.

Não quis ser malcriado, não comentei nem resmunguei, e fiz os possíveis por me concentrar na escrita. Mas não consegui, e o certo é que, devido ao nervoso miudinho que eu não conseguia controlar, começaram a aparecer mais erros do que o habitual. Felizmente, o corrector ortográfico, sempre atento, ia corrigindo tudo, pelo que a grafia errada apenas se mantinha visível no monitor durante uma fracção de segundo.

Mas, mesmo assim, o diabo da velhinha era terrivelmente perspicaz, e comecei a ver que, a breve trecho, ela produzia surdas interjeições de desagrado quando eu me enganava!

Era apenas um «Tsh...! Tsh...!», mas sumamente irritante!

A certa altura, não aguentando mais, decidi-me a fechar o computador e sair dali, não escondendo o meu enfado.

E foi nessa altura, quando me resolvi a deitar-lhe um olhar desagradável, que se deu o incrível:
Descobri que a senhora era, nem mais nem menos, do que a D. Judite, a minha antiga professora de escola primária, e que me reconhecera!

- Seu maroto... - comentou ela, sorrindo - Estás muito crescido!

Vieram-me as lágrimas aos olhos e fiquei sem palavras!

- Tenho estado a ver-te a escrever... Sabes? Merecias 20!

«Coitada...» - pensei eu - «Mal sabes tu que era o corrector automático do computador a trabalhar!»
Mas uma surpresa maior veio logo a seguir:

- Seu maroto... Julgas então que eu não conheço o Word e essa função do auto-correct?

Fiquei banzado. E, ainda eu não tinha fechado a boca, quando ela concluiu, enquanto me dava dois beijinhos de despedida:

- Merecias 20... reguadas!

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Publicado no «Diário Digital» em 28 Abril 05

3 Comments:

Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Uma versão inicial desta história foi publicada na "newsletter" «RECORTES», em 2 Nov. 2001 e está, juntamente com muitas outras, em www.janelanaweb.com/humormedina

No entanto, vou começar a afixar aqui, no blogue, algumas que me pareçam mais divertidas.

21 de abril de 2005 às 11:06  
Blogger Pólux said...

Gostei muito. E saboreei sentir-me transportado aos doces tempos das ribeiras da minha infância e aos passos incertos e sufixados por outras “adas” . Desde as reguadas que nos trás, às bofetadas, pedradas, lambadas, palmadas e até chineladas. Ah, e também às tabuadas, cujo nome desde logo me sugeria uma reguada com uma tábua mais consistente e encorpada que a “normal”. No entanto, os dicionaristas, parece que a medo, não quiseram enveredar por esse árduo caminho (sorriso). Confesso que não entendo porquê. Se reguada é uma pancada com uma régua, por que razão tabuada não significa uma pancada com uma tábua? Mas outras “adas” havia na minha infância, que igualmente me seduziam: garotada, laranjada, camarada, temporada (na praia) e, vejam bem, até namorada.

Fique bem.

Pólux

21 de abril de 2005 às 23:51  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Obrigado pelo seu saboroso comentário.

Um abraço
do
CMR

22 de abril de 2005 às 11:06  

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