13.5.05

Acontece…

Televisão: Noites passadas, dias futuros

Crónica de Carlos Pinto Coelho

Na mesma Espanha onde a onda “gay” já chegou aos altares da consagração jurídica, houve um viril varão que achou por bem fecundar sua legítima esposa. Foi há pouco mais de 90 dias, mas não passou despercebido aos argutos editores do serviço público de televisão… português. Ainda o povo das ruas de Madrid desconhecia que Letícia estava grávida, e já o grande jornalismo da RTP lhe aparecia de microfone em riste, exigindo opiniões. Os incautos madrilenos desfilavam diante da câmara, surpresos ou indiferentes, dizendo que não sabiam ou não queriam saber do assunto. E a voraz repórter lusitana fuzilava-os: “Mas agora já sabe! Digo-lho eu! Está contente? Prefere menino ou menina?” Quem disse que a TV pública de Portugal anda desatenta ao mais relevante da nação vizinha?

Já em fim de semana, o mesmo Telejornal comprazia-se em colocar outra repórter noutra não-notícia. Em Alcochete, à porta da Academia do Sporting, de costas para um autocarro que passava com os jogadores lá dentro, uma desesperada jornalista dissertava sobre coisa nenhuma acerca do jogo seguinte. Mas o que é que pode haver de novidade noticiosa na véspera de um jogo? Que o clube tem vantagens se ganhar? Que o balneário tem sabão para todos? Que os adeptos pedem autógrafos? Que o Bimbo tem dores no joelho e o Timbo está castigado? Pois a RTP gastou, nesse vazio alucinante, minutos impróprios para qualquer estudante de Jornalismo. Não havia ali resquício de notícia, mas à repórter cumpria encher jornal. Como, há dezenas de anos, nos directos da rádio e da televisão, Artur Agostinho ou Raul Durão despejavam intermináveis banalidades para compor a estafa de uma qualquer cerimónia presidencial.

De facto, os fados não têm ajudado, ultimamente, ao prestígio editorial da RTP. Foi aquela equívoca entrevista Judite de Sousa / Valentim Loureiro (quem interpelou quem?) que já mereceu a justa palmatória de Miguel Gaspar no “Diário de Notícias”. Depois, o tal naco de jornalismo tablóide sobre a fecundação da estimável senhora espanhola. Finalmente, o estéril blá-blá sobre coisa-nenhuma em Alcochete. Basto desaire em poucos dias.

Nada disto é bom jornalismo, nada disto é boa televisão mas, sobretudo, para o que hoje aqui importa, nada disto cativa os jovens espectadores. Eles estão cada vez mais longe da TV-que-se-faz e cada vez menos tolerantes para com dois dogmas que ainda vingam: a submissão às audimetrias e o pressuposto da mediocridade do povo espectador.

No princípio de Abril, alguns milhares de jovens assistiram, nas ruas de São Francisco, ao anúncio formal do novo canal de televisão por cabo e satélite – a Current TV – concebido para conquistar o auditório dos 18 aos 34 anos, roubando-o ao império da MTV. É uma aposta do antigo vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, e de um punhado de amigos milionários, que investiram naquilo que crêem ser um novo modelo de televisão. Para a América e para o mundo. Prometem começar em Agosto: “Sempre que ligar para a Current TV verá algo divertido, estimulante ou interessante. Três minutos depois, terá outra coisa nova.” E explicam:

“Há muito para ver na televisão mas, enquanto espectador, você não tem grandes hipóteses de participar ou influenciar aquilo que vê. Este medium – o mais poderoso e fascinante que temos – ainda é uma janela estreita para a realidade, que aparece em previsíveis fatias de telejornal. Ainda é uma fortaleza de um mundo antiquado e de sentido único. Queremos romper com isso. Estamos a repensar a forma de produzir, programar e apresentar TV, de modo a que ela seja reconhecida por uma audiência que está habituada a escolher, dominar e participar em tudo o que faz na vida.”

A espinha dorsal do futuro canal será a interactividade. De qualquer parte do mundo, os espectadores podem enviar, via Google na Internet, peças gravadas em vídeo. Essas filmagens são apreciadas e, se aprovadas, emitidas no próprio dia. E há prémios em dinheiro para as melhores reportagens. Que reportagens? Diz a Current: “Histórias que as televisões tradicionais jamais utilizariam porque são muito grandes, muito pequenas ou muito qualquer outra coisa. Queremos honestidade, humor e, claro, factos.” E avançam as três áreas do seu maior interesse editorial: episódios do quotidiano de jovens pais e seus filhos (alegrias, dificuldades, surpresas), revelação de pessoas que estão a provocar mudanças positivas na sociedade (trabalhadores voluntários num país do terceiro mundo, activistas políticos de uma cidade, voluntários de trabalho social no bairro, etc) e, finalmente, viagens (mostre quem conheceu, o que viu e o que aprendeu).

Depois da apoteótica festa de apresentação (milhares de jovens nas ruas, Al Gore ao lado de Leonardo DiCaprio, Sean Penn e Mos Def, o mais “in” dos “rappers” americanos) choveram análises azedas e vaticínios pessimistas. Digamos que o “establishment” rugiu. Com propósitos e argumentos diversos.

Como negócio, será ruinoso – dizem - porque a MTV é imbatível, o cabo só ganha audiências com programações ligeiras e a era dos canais 24/7 (24 horas por dia/sete dias por semana) está a chegar ao fim. O amanhã pertence ao “video on demand”. Até alguns cronistas da ala democrata torceram o nariz. Mas a crítica mais severa foi feita por alguém do mesmo território – o jornalismo cívico e o serviço público: Clara Mertes, produtora de um programa de documentários na PBS com larga audiência de jovens: “Democratizar os media não é largar de mão os meios de produção, numa lógica de acesso público. Com isso só se consegue confusão e um montão de coisas que ninguém vê.” (Não sabemos nós como isto pode ser pura verdade, olhando o que aconteceu ao segundo canal da RTP, na sua lógica de sociedade civil?)

Sarcástico, um produtor da MTV explicou assim a quadratura do círculo que a Current TV se propõe levar a cabo: “Se eu emitir três reportagens, uma sobre o meio ambiente no Alasca, outra sobre os sem abrigo em Nova Iorque e uma terceira sobre implantes mamários em meninas adolescentes, adivinhem qual terá maior audiência.”

Mas Gore está tranquilo: “Acredito na ligação da televisão aos criadores de histórias autênticas. Quando isso acontecer, haverá impacto no género de assuntos que se discutem e na forma como são discutidos.”

Qualquer que seja o resultado, Agosto vai trazer a força dessa ideia de juntar num corpo único os dois media mais poderosos do tempo: a internet e a televisão. A ditadura das ementas de consumo estritamente norte-americano, até agora esmagadora e imbatível, poderá ser contornada ou até derrubada pela entrada em cena de um parceiro enigmático: o mundo. O mundo, que fornecerá os materiais e depois se reverá neles, assumindo-se como uma nova e imprevisível força consumidora. Quer os norte-americanos o queiram, ou não. Eles também pouco queriam à CNN até perceberem que os seus pilares se tinham passado para fora dos States.

Por mim, lá estarei, nesse dia de Agosto ainda não anunciado. À espera de ver, entre outras, alguma pequena reportagem feita em Lisboa. É que, dos cem clubes que já se inscreveram para colaborar com a Current em dez países, um deles é lisboeta e vai fazer a sua primeira reunião já na próxima quarta feira.

(«A CAPITAL», 13 MAI 2005)

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1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

A 13 de Maio, é o anúncio de uma aparição em Agosto!

13 de maio de 2005 às 10:47  

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