12.5.05

Rasteiras que a nossa língua prega

(Clicar na imagem para ler o texto da infeliz pergunta)

Segundo o Dicionário da Texto Editora:

Sancionar:

v. tr., dar sanção a;

fig., ratificar; corroborar; confirmar; aprovar

Assim, ao usar a palavra "sancionar" nesta pergunta (e para um público muito vasto), o jornal levará muitos leitores a confundir "Sanção - Sancionar / castigar" com "Sancionar / aprovar" - para grande gáudio dos dois visados, evidentemente!

8 Comments:

Anonymous Anónimo said...

À 1ª vista, parece que a ideia de quem fez o texto era que "sancionar" tivesse o significado de "aplicar sanção".
Mas nunca se sabe se os visados não virão a dizer que a votação lhes deu uma clara maioria correspondente ao significado oposto!!

12 de maio de 2005 às 17:57  
Anonymous Anónimo said...

Questão de tempos e modas. Há poucos anos, sancionar usava-se para dizer aprovar. "O réu requereu liberdade e o juiz sancionou esse pedido." Mas agora é o outro sentido que está na moda. Boa ideia ter-se aqui tocado no assunto.

12 de maio de 2005 às 19:08  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Já escrevi para o Público, a alertar...

Veremos.

12 de maio de 2005 às 19:32  
Blogger Pólux said...

Meu caro Medina Ribeiro,

Oportuníssimo, este seu alerta.

Por vezes, seria bom que a nossa imprensa deixasse dormir certas palavras (sorriso). Como aqui proponho:

Deixai Dormir as Palavras


Imaculadas e inócuas
as palavras dormem
no seio do dicionário
o sono profundo dos inocentes.
Não as acordem.
Ouçam simplesmente o seu silêncio:
metódico, alfabético, inquietante.

Úbere semeadura esta,
que tanto medra em bons viveiros
como na mais agreste tojeira.

Dentro de um dicionário,
do caos ao verbo,
cabe todo o Universo:
sem metáforas,
sem hipérboles,
sem calendário,
sem imagens.


Por vezes, é um bom semáforo, o dicionário:
sabe soltar o verde da esperança,
cuidar do amarelo da temperança,
e parar no vermelho, por segurança.

Mas deveria ter mais sinais,
o meu dicionário.
Deveria acautelar-me,
porquanto nele comungam
vida e morte,
respeito e desprezo,
nobreza e preconceito,
ciúme e remorso.

Nele crescem lado a lado
a arbitrariedade e a justiça,
a bondade e a ferocidade,
a irracionalidade e a razão...

E como se tudo isto não bastasse,
a incompreensão do verbo e do caos
vagueiam perdidos pelo meu dicionário
no particípio e no presente,
como sempre,
desde o princípio.
Tantas são as vezes
em que a dúvida se sobrepõe à certeza,
o ódio ao amor,
a indignidade à nobreza,
a cobardia à coragem,
a penúria à riqueza,
a guerra à paz!…

Ventos oscilantes e incertos
deambulam nas dobras vazias do tempo
sobre as searas incendiadas
que medram num dicionário.


Deixai, pois, dormir as palavras!
Deixai-as dormir, deixai!

Pólux

12 de maio de 2005 às 20:53  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Caríssimo,

1 - CINCO estrelas pela veia poética!
2 - Sabe que ando a reler o António Aleixo? O homem é mesmo actual...
3 - Acabei de afixar a resposta ao problema geográfico.

Um abraço
do
CMR

12 de maio de 2005 às 22:19  
Blogger Pólux said...

É sempre bom reler o A.Aleixo.

Aqui está uma quadra sempre actual:

Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.



Obrigado pelas suas palavras. E obrigado também quanto à apresentação da solução do problema da "circum-navegação" por terra e mar (sorriso).

Abraço,

Pedro Couto

12 de maio de 2005 às 23:46  
Anonymous Anónimo said...

Fruto dos jornalistas que temos, pura e simplesmente..Devem ter querido testar a capacidade dos votantes, escolheram um vocábulo "dificil" e cairam na própria ratoeira. Porque há sempre um perfeccionista da língua, à espera dum jornalista descuidado ou ... vaidoso!
-----
Maria de Portugal (comentando este "post" no Expresso-online)

13 de maio de 2005 às 10:17  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

No seguimento deste post(e dos diversos contactos que para lá fiz), o Público refez os termos do inquérito online e deu a resposta que adiante se transcreve.

(Ver também post de 13 Maio, com a imagem já corrigida)

Perfeito!


----- Original Message -----
From: Nuno Pacheco
To: medina_ribeiro@netcabo.pt
Sent: Friday, May 13, 2005 3:46 PM
Subject: INQUERITO ONLINE VAI SER CORRIGIDO


Caro leitor:

Tem razão quanto ao duplo significado da palavra. No entanto, já que é público que nenhuma das candidaturas referidas tem o apoio do PSD, a palavra sancionar, no inquérito, só poderá ser tomada como sinónimo da aplicação de sanções disciplinares, conforme é previsto nos estatutos partidários.

Mesmo assim, para evitar dúvidas, vamos alterar a formulação no inquérito on-line: em lugar de sancionar, colocaremos "aplicar sanções".

Com os melhores cumprimentos e votos de um bom fim-de-semana,

Nuno Pacheco
Director-adjunto do PÚBLICO

13 de maio de 2005 às 18:35  

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