27.5.05

Raio de crise!

ACHO que já aqui falei dele, mas só agora soube que lhe chamam «o Zé-do-boné» - por andar sempre com um, já se vê.

Tem uns vinte anitos, usa uma argolinha na orelha esquerda, e é encontrável nas Avenidas Novas, que percorre sempre muito depressa como se estivesse em risco de perder o comboio.

E trabalha que se farta, embora a sua única ocupação seja esvaziar parquímetros (o que faz num ápice e à luz do dia, perante a impotência das autoridades, que cobre com o mais espantoso ridículo), tarefa para a qual usa, como ferramenta, um simples palito.

Hoje fui dar com ele, abatido, a falar com um colega de profissão.

Encostados a uma maquineta liam, sem esconder o seu aborrecimento, uma notícia do jornal «metro»:

«COFRES DOS EQUIPAMENTOS VÃO PASSAR A SER ESVAZIADOS MAIS VEZES POR DIA».

«Ora que grande porra!» - comentava o Zé - «Agora, por causa do défice, ainda querem que aumentemos o ritmo de trabalho!»

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Foi publicada no jornal «METRO» do dia 6 Jun 05 (com grande destaque e fotografia, mas em nome de Carlos Ribeiro) uma versão adaptada, que está em "Comentário-2".

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

...aumentar o ritmo de trabalho e a idade da reforma, claro, pois os sacrifícios são para todos!

E.R.R.

27 de maio de 2005 às 19:34  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Versão publicada no jornal METRO:

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OSPARQUÍMETROS E O DÉFICE

Chamam-lhe «o Zé do Boné» - por andar sempre com um, já se vê.

Tem uns vinte anitos, usa um brinco na orelha esquerda, e é encontrável com frequência nas Avenidas Novas, que percorre sempre muito depressa como se estivesse em risco de perder o comboio.

E trabalha que se farta!

A sua única ocupação é limpar o dinheiro dos parquímetros (o que faz num ápice e à luz do dia, perante a cobardia dos cidadãos e a impotência das autoridades, que reduz ao mais espantoso ridículo), tarefa para a qual usa como ferramenta apenas um pauzinho do tamanho de um palito.

Hoje fui dar com ele, abatido, a falar com um colega de profissão.
Encostados a um parquímetro liam, sem esconder o seu aborrecimento, a notícia do jornal «metro»:
«COFRES DOS EQUIPAMENTOS VÃO PASSAR A SER ESVAZIADOS MAIS VEZES POR DIA».
«Bolas!» - comentava o Zé - «Deve ser por causa do défice que agora ainda querem que aumentemos o ritmo de trabalho!»

6 de junho de 2005 às 11:22  

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