26.7.07

A QUADRATURA DO CIRCO

Net-Fábula adaptada
Por Pedro Barroso
QUALQUER INTERNAUTA MAIS AVISADO já recebeu forward matriz deste clássico, que me permitirei aqui hoje adaptar.
Lê-se numa crónica, que no ano de 2004, se celebrou na Austrália uma competição de Remo entre duas equipas, compostas por trabalhadores em representação das empresas públicas portuguesas e sua congénere das empresas japonesas.
Dada a partida, os remadores japoneses começaram a destacar-se desde o primeiro instante. Chegaram à meta primeiro e a equipa portuguesa chegou com uma hora de atraso.
De regresso a casa, a representação nacional reuniu-se para analisar as causas de tão desastrosa actuação e chegaram à seguinte conclusão:
Detectou-se que na equipa japonesa havia um chefe de equipa, que também acumulava com as funções de timoneiro e dez remadores, enquanto na equipa portuguesa – que se deslocara tarde e chegara apenas na véspera, por isso revelando algum jet leg… – havia apenas um remador e dez chefes de serviço, nenhum deles timoneiro, facto que teria obviamente de ser alterado no ano seguinte.
No entanto, no ano de 2005 e após ser dada a partida, a equipa japonesa começou de novo a ganhar vantagem desde a primeira remadela. Desta vez, a equipa portuguesa chegou com duas horas de atraso. A Direcção responsável pela nossa selecção voltou a reunir, após forte reprimenda da Administração e do Ministro do Desporto e viram que – enquanto na equipa japonesa havia um chefe de equipa/timoneiro e dez remadores, como sempre – a equipa portuguesa, após as medidas adoptadas com o fracasso do ano anterior, era composta por um chefe de serviço, dois assessores da administração, cinco chefes de secção, um timoneiro e um psicólogo para motivar o único remador.
Após minuciosa análise, chega-se à seguinte conclusão:
O remador era provavelmente INCOMPETENTE. Havia que mudar este estado de coisas. Fez-se um grupo de estudos para estudar o assunto, que estava a tornar-se motivo de embaraço nacional. Actuar.
Foi portanto decidido apresentá-lo a uma Junta Médica. Esta, como é norma, deu-o como apto para todo o serviço.
No entanto, no ano de 2006, a equipa japonesa voltou a adiantar-se, mal foi dada a partida.
A embarcação portuguesa – que este ano tinha sido encomendada ao Departamento de Novas Tecnologias, que, por sua vez, acabara aconselhando aquisição em segunda mão à Armada russa, por concluir que isso representaria uma melhor relação qualidade-preço-investimento – chegou com quatro horas de atraso.
Após a regata e para análise dos resultados, convocou-se uma reunião de administradores ao mais alto nível – mais concretamente no último piso do edifício – observando-se nela que:
1- A equipa japonesa, uma vez mais, não inovara, tendo optado novamente por dez remadores e um timoneiro/chefe de equipa.
2- A equipa portuguesa – após uma auditoria externa, uma assessoria especial do Secretariado para o Desenvolvimento e um relatório técnico solicitado em triplicado ao Instituto de Altas Tecnologias - optara por uma formação mais moderna, composta desta vez, por um chefe de serviço, dois chefes de secção, um psicólogo, um treinador, um auditor da Arthur Andersen, um membro do Comité Olímpico, um representante do Ministério do Desporto, um timoneiro mais leve e um Securitas que controlava as actividades e saídas do remador durante o estágio.
Acabou, assim, por ter de se admitir com transparência que:
1- Apesar destes esforços a comitiva técnica não optimizara suficientemente a qualidade nem o rendimento da representação.
2- Alguns itens vendidos em segunda mão pela marinha ex-soviética, como helicópteros, submarinos e barcos de remos, nem sempre estão isentos de problemas, cujos, muitas vezes, apenas se confirmam após a compra efectuada.
3 - O processo disciplinar que fora aberto ao remador e aconselhara a retirada de todos os seus bónus e incentivos profissionais, devido ao fracasso dos anos anteriores, não obtivera os resultados desejados.
4- Antes da competição, o remador fora mesmo ameaçado de passar a integrar o grupo de supranumerários previsto na lei, para que a incerteza no futuro o levasse a superar-se. Incompreensivelmente, tal ameaça também não resultara.
Decisões imediatas se impunham e foram tomadas por unanimidade:

a) Suspender imediatamente o treinador, por discordâncias sem sentido com a Direcção federativa.
b) Suspender o Securitas por suspeitas de mau desempenho na vigilância do atleta
c) Suspender relações com a congénere japonesa por suspeitas de doping da sua equipa
d) Suspender o auditor externo por difamação insultuosa da Administração Central
e) Declarar oficialmente o Remo uma modalidade de ética duvidosa por ser o único desporto onde o atleta despende uma energia enorme para andar para trás.

Após prolongadas reuniões, e em função destas aprofundadas análises, decidiu-se, com letra de Lei, para a futura regata de 2007 que:
Artigo I - "um novo remador será contratado em outsourcing exclusivamente para o efeito”, pois o comportamento do actual, já com 60 anos, apesar da sua experiência e profundos conhecimentos da modalidade, indicia mostras de desinteresse a partir do segundo quilómetro e uma indiferença quase total junto à linha da meta."
Artigo II - O velho remador, para castigo, além de deixar de representar o país em competições, continuará até à idade legal de reforma e treinar em tanque de treino indoor, interrompendo-se apenas para tomar oxigénio, devido a alguns problemas cardio-respiratórios, aliás absolutamente normais na sua idade.

Memorandum - O remador excluído foi, entretanto, alvo de um processo disciplinar, por ter proferido, no momento da chegada, insultos graves ainda por apurar, na pessoa do chefe da representação nacional e por se ter queixado ao Auditor de falta de colaboração desportiva eficaz dos restantes elementos da delegação.
O processo seguiu para a DREN (Direcção do Remo Empresarial Nacional).
A bem da produtividade da Nação. Publique-se e providencie-se.

a) Assinatura ilegível

Comentário do Tradutor - (ou seria elegível? Não sei. Não se percebe bem. Ficamos aguardando)

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1 Comments:

Blogger Rui said...

Realista, oportuno e magnifico!
Um abraço:
Rui V.

27 de julho de 2007 às 18:09  

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