20.8.07

Obras na rua

Por Alice Vieira
A MINHA CASA está há muito tempo rodeada de obras por todos os lados. O pior é que, para falar verdade, na maior parte dos casos, eu nem sei de que obras se trata.
Andaimes colocados e retirados e largados à beira dos passeios.
Arames que esvoaçam.
Enormes contentores do lixo, daqueles que, muito depois das obras terem acabado, ainda permanecem à nossa porta, como cães fiéis que nem na hora da morte abandonam os donos.
Pó. Caliça. Enfim obras.
A gente passa por elas e já nem reage.
Por isso naquele momento em que uma onda de poeira desabou em cima de mim, eu nem refilei. Teria passado adiante se não tivesse de repente ouvido uma voz que repetia, angustiadamente, "perdão, perdão".
Com um "e" muito aberto e um "r" muito carregado, a denunciar português de estrangeiro.
É então que o homem surge de dentro de um prédio em obras, a tentar explicar, num português muito titubiante, o que se tinha passado, não tinha reparado se alguém passava na rua, àquela hora geralmente não passava ninguém, e com este calor ainda menos, e vá de atirar porta fora a terra que estava dentro do balde, "perdão, perdão".
O homem, coitado, desfazia-se em desculpas, estava profundamente incomodado com o o que fizera, torcia as mãos, abanava a cabeça, até parecia que alguém tinha ficado ferido, quem sabe se morto por sua culpa.
Sosseguei-o, caramba!, também não tinha sido assim tão grave, mas ele continuava a abanar a cabeça, não, ele devia ter olhado primeiro, assim é que era.
E durante uns minutos estivemos ali, ele a pedir desculpa e a tentar sacodir a poeira das minhas costas, e eu a tentar sossegá-lo - e a lembrar-me do dia, ainda não há muito, em que de uma janela do último andar do prédio ao lado, alguém tinha despejado um cinzeiro cheio de beatas em cima da minha cabeça. Lembro-me de ter olhado para cima e perguntado se aquilo era maneira de limpar cinzeiros -- e o que então me responderam eu não digo, porque isto é um jornal decente.
E dou comigo a pensar que nunca me lembro de ter ouvido um qualquer trabalhador português a desfazer-se assim em desculpas por causa de uma qualquer azelhice. Normalmente, assobiam para o ar, dizem dois ou três palavrões, ou fazem-nos sentir culpados por estarmos a passar onde, segundo eles, não devíamos.
Mas este não. Já eu vou no fim da rua e ainda oiço a sua voz, "perdão, perdão".
Com um "e" muito aberto e um "r" muito carregado.
«JN» de 19 de Agosto de 2007

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4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Pequenas grandes diferenças na educação que os imigrantes têm.
E assistimos a tantas injurias e maldades.
Muito triste.
O português que sempre foi um povo emigrante agora não é capaz de receber bem os povos que imigram para Portugal.
Ultrapassa-me.

20 de agosto de 2007 às 21:40  
Anonymous Anónimo said...

Esse imigrante deve estar há pouco tempo em Portugal, por isso não adquiriu ainda a nossa koltura. Mais uns tempos nas obras e assimilará tudo o que temos de bom, a não ser que antes, que é o mais cero, volte a emigrar para outro país com uma cultura idêntica à sua.
É verdade: as obras estavam devidamente licenciadas? Ou isso é de somenos?

21 de agosto de 2007 às 21:37  
Anonymous Anónimo said...

Tanto quanto posso depreender, trata-se de uma das inúmeras obras de prédios em Lisboa.

A autora vai a passar na rua, apanha com lixo, anota a reacção da pessoa envolvida e segue caminho.

O facto de a obra estar o não licenciada, PARA EFEITO DESTA CRÓNICA é, de facto, de somenos - mesmo que a autora não tivesse, como tem, limitação de caracteres no «JN».

Aristóteles ensinava que, num caso como este, deve-se abordar um tema apenas.

Assim, o licenciamento da obra (como, p. ex., o operário estar legal ou não) pode ser muito importante, mas é outro assunto - eventualmente tema para outra crónica, mas não para ESTA.

21 de agosto de 2007 às 21:56  
Blogger R. da Cunha said...

Lamento, mas o comentador anterior não entendeu (o defeito será meu, provavelmente), mas a parte referida não passava de ironia (como, aliás, todo o comentário) em relação aos diversos patos-bravos da nossa praça e das regras camarárias sobre a matéria.
PS 1 - Vou tentar que este comentário seja assinado, coisa que ontem, por razões que me escapam, só pôde ser publicado como anónimo.
PS 2 - Tenho para mim que o Aristótles não percebia nada destas coisas, mas não tenho a certeza.

23 de agosto de 2007 às 00:14  

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